Uma paleta de cores cinzentas

Retrato de Filipe Melo Sousa

Um sinal da capitulação intelectual a que hoje assistimos é a da ditadura do raciocínio cinzento. Constata-se tal por entre as nossas elites nas mentes de pessoas ditas eruditas ou intelectuais. Qualquer julgamento moral está despojado do seu absoluto. Apenas é consentida a utilização de uma palete de cores em tons de cinzento, em que predomina o cinzento neutro.

Está muito em voga, e é muito correcto dizer que em termos de julgamentos morais, não existem veredictos possíveis em cor de preto ou branco. Apenas existem tonalidades de cinzento. Ao termos duas partes em conflito a expor os seus motivos, nunca se poderá atribuir razão a uma delas. Não existe portanto, à luz do raciocínio cinzento uma verdade. Existem duas verdades diferentes para o mesmo facto. Esta última frase é assim veiculada na íntegra para o intelecto dos nossos jovens com a mente em formação.

A postura é de emitir não uma opinião, mas um compromisso ambíguo entre aquilo em que seria lógico acreditarmos, e o sentido de obrigação em seguir as directivas da politic correctness da nossa sociedade. É precisamente nesse compromisso que reside a capitulação intelectual que corrompe a lógica e a honestidade dos pensadores de hoje. Como se a veracidade de um facto pudesse ser de alguma forma negociada com o criador do universo.

Reparem que as noções de preto e do branco precedem a criação do conceito de cinzento, que será uma mistura dos dois anteriores. Na esfera moral, isto corresponde a identificar e reconhecer o bem e o mal, o certo e o errado. A deduzir que algo está correcto, e o outro incorrecto. Não existe nenhuma explicação plausível para optar por uma mistura dos dois. Não existe justificação para optar por uma fracção de mal.

Infelizmente vivemos numa sociedade corrompida por crenças místicas, em que a verdade deverá não mais ser deduzida logicamente, mas aceite através de revelação de uma entidade superior, à qual deveremos ser submissos. Ao prescrever contradições inconciliáveis, esse código moral obriga as suas vítimas a praticar o bem, mas ao mesmo tempo o indivíduo torna-se malévolo à luz do mesmo código.

Se um determinado código moral que rege uma sociedade entra em colisão com o que seria correcto à luz da razão, é esse código que deve ser rejeitado como “preto”. Não as suas vítimas apontadas como “cinzentas”, pois é um código não aplicável à realidade do nosso mundo. Não existe nesse código nenhuma rota específica, mas uma série de mandamentos avulsos para serem aceites com base na fé, e cegamente obedecidos. Os seus praticantes estão imunes ao veredicto “preto” ou “branco”, à luz do nosso código moral que o proíbe, e paralisa qualquer julgamento moral adequado.

No campo da política, o extremismo tornou-se sinónimo de mal, sem discernir no que alguém extrema a sua posição, mas apenas pelo facto de defender extremamente uma posição (i.e. ser consistente com ela). Quanto ao princípio da neutralidade, observem o modo como as nações unidas emitem pareceres, sem nunca emitir algum juízo moral em relação a nenhuma das partes, nem ver alguma diferença em relação a elas. Nunca existe portanto mérito ou culpa. Apenas a necessidade de um compromisso, um compromisso a todo o custo, em qualquer conflito. Sempre um compromisso.

Os homens podem ser cinzentos, mas em termos de valores morais existem sim os pigmentos originais que compõem a coloração das pessoas. Sempre que se assume um compromisso, dá-se por amputada a justiça e apenas se decide o quanto se deverá beneficiar o agressor, e sancionar a vítima.

Comentários

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Tudo explicado

Ao começar a ler este post fiquei sem entender o que se passava, mas depois lembrei-me que esta associação defende a despenalização das drogas leves...

Assim entendo!! O sr. Filipe andou a fumar qualquer coisa estranha e deu-lhe para isto!! Olhe que provavelmente a melhor cura para uma ressaca será o trabalho e não desbobinar parvoíces que para nada servem.

PC e opinioes

Sinceramente o tal "politicamente correcto" é uma expressao sem grande sentido. Um argumento ou tem bases e mérito ou nao tem. A definicao de algo como politicamente correcto é apenas uma forma de rotular e encerrar determinado tema sem apresentar as suas falhas concretas.

De resto, se percebi bem o post, estou de acordo. A razao deve ser o nosso guia para a determinacao dos códigos éticos desejáveis (apesar de ser da opiniao que na sua forma pura isso nao passa de um sonho) - nao vejo qualquer outra ferramenta que permita obter resultos válidos.

Será talvez de notar que a tal recusa em condenar ou apoiar o que quer que seja também impede a maior parte das sociedades livres de condenar sem dúvidas os extremismos destrucivos (nao estou a falar de coerencia, falo sim de movimentos com tiques totalitários e/ou violentos).

Falando de moralidade

Já várias vezes abordei o assunto e ainda não consegui entender o que é, nesta sociedade, ser e ter atitudes moralmente correctas! Penso que estamos embrenhados numa sociedade que ainda tem as marcas da religiosidade imposta por aqueles que, no passado, detinham o poder absoluto. Para a maior parte das pessoas, ser moralmente correcto é agir de acordo com um conceito (qua na minha opinião nao existe) de normalidade. Agora eu pergunto, o que é ser normal? É não consumir drogas? Ser branco? Ser heterossexual? Sinceramente não sei o que é ser normal...
Na presente sociedade vamos ter que esperar muito tempo para que as pessoas deixem de ser cinzentas (ou mesmo pretas). Será preciso trabalhar muito para conseguir fazer que estas mentes comuns se iluminem...

Normalidade

Caro Bruno,

Ser "normal" é apenas um dado estatistico (é o equivalente a dizer que cai dentro dos valores médios de dada categoria).

A preto e branco

Coragem de decidir, saber ouvir, respeitar o outro.

Não gosto do cinzento natural, mas sim da mistura de preto com branco.
O progresso está nos fora de série, não nos banais.

Viva o branco e o preto, mas, cá do alto, bem do alto........afinal é cinzento.

Caro Filipe,As semelhanças

Caro Filipe,

As semelhanças do teu texto com os escritos de Ayn Rand são demasiado evidentes

O plágio é uma coisa muito feia....umas aspas ficavam aí bem

Retrato de Filipe Melo Sousa

a Ayn Rand claro :)

Caro FMPires,

por motivos de honestidade intelectual, tenho como princípio citar um texto quando adaptado ou transposto. Já o fiz no passado em relação à mesma autora, nomeadamente no meu post "dinheiro", citando explicitamente o "d'Anconia Money Speech", na obra Atlas Shrugged, de Ayn Rand.

Não tenho problema algum em citar a fonte, para que qualquer leitor possa ver o original. Este meu último post foi inspirado pelo capítulo 9 - "The Cult of Moral Grayness" do livro de Ayn Rand - The Virtue of Selfishness, editado em 1964. Resumi o conceito, e quis sobretudo demonstrar o quando ele continua actual nos dias de hoje. Existe um parágrafo traduzido na íntegra. Texto em inglês (apesar dos copyrights) disponível aqui:
http://freedomkeys.com/ar-moralgrayness.htm

Não quero de modo algum chamar para mim a autoria, nem lhe encontrar uma versão portuguesa que seria neste caso "O culto da virtude no meio".

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