Tibete

Num movimento que tem como bandeira a liberdade, faz-me alguma comichão que não se fale nesta situação. Vou fazer uma breve abordagem ao tema sem querer tomar grandes partidos, uma vez que trata-se de uma temática algo delicada. No entanto gostava de manifestar que acredito que todos os povos têm direito a decidir a sua auto-determinação.

Em 1951 Deng Xiaoping, querendo mostrar trabalho a Mao, gizou e levou a cabo a campanha de "libertação" do Tibete. Anos mais tarde Deng manda Mao passear e inventa a maravilha do socialismo de livre mercado.

Até então, o Tibete tinha sido governado, desde o séx XVII, pelos conhecidos Dalai Lamas, sendo uma espécie de teocracia, entrincheirada no planalto mais alto do mundo. Anteriormente esta zona teria sido governada por variados reis, fazendo parte de impérios mais ou menos extensos. No seu período áureo o império tibetano extendia-se desde Bengala (na Índia) até á Mongólia. Uma constante sempre houve, as guerras territoriais contra a China, pelo menos até ao séc. VIII.

Por volta do séc XIII o Tibete foi incorporado no império Mongol que se extendia da China às portas da Europa. Com a queda deste império houve um período de lutas internas que durou até a ascensão dos Dalai Lamas. O período seguinte também foi marcado por lutas com a China Manchu(a última casa real chinesa) , o Nepal e a Mongólia.

Os primeiros europeus a chegar ao Tibete foram os missionários portugueses, que aí ficaram no período de 1624 a 1745, quando foram expulsos pelos lamas. Entranto o Tibete já tinha fortes ligações com a Inglaterra. Em 1840 todos os estrangeiros forma banidos do Tibete devido á desconfiança que havia em relação às intenções dos Impérios Britânico e Russo em se quererem apoderar deste território. No entanto os ingleses arranjaram maneira de, pela força, se estabelecerem em Lhasa.

De notar um acordo Anglo-Chinês, uma acordo Anglo-Tibetano e um acordo Anglo-Russo, no início do séc. XX. Podemos afirmar que foi aqui que começou a actual posição na qual a China afirma a sua soberania sobre a região do Tibete, conforme podemos descobrir consultando a wikipedia:

"Anglo-Chinese Convention of 1906 which confirmed the Anglo-Tibetan Treaty of 1904, Britain agreed "not to annex Tibetan territory or to interfere in the administration of Tibet" while China engaged "not to permit any other foreign state to interfere with the territory or internal administration of Tibet". In the Anglo-Russian Convention of 1907, drafted by the British, Britain also recognized the "suzerainty of China over Thibet" and, in conformity with such admitted principle, engaged "not to enter into negotiations with Tibet except through the intermediary of the Chinese Government."

A dinastia Qing caíu em 1912 com a criação da República da China(outro problema da actual RPC). Em 1913 Tibete e Mongólia assinam um tratado de mútuo reconhecimento no qual proclama a sua independência da China. A validade e até a existência deste tratado é posta em causa. Em 1915 a China, o Tibete e a Inglaterra negociaram a Convenção de Simla, que provou ser outro fracasso diplomático:

"During the convention, the British tried to divide Tibet into Inner and Outer Tibet. When negotiations broke down over the specific boundary between Inner and Outer, the British demanded instead to advance their line of control, enabling them to annex 9,000 square kilometers of traditional Tibetan territory in southern Tibet i.e Tawang region, which corresponds to the north-west parts of modern Indian state of Arunachal Pradesh, while recognizing Chinese suzerainty over Tibet and affirming the latter's status as part of Chinese territory, with a promise from the Government of China that Tibet will not be converted into a Chinese province. Tibetan representatives signed without Chinese approval, more so as an act of defiance now that the Chinese army had left; after the collapse of Chinese authority in Tibet in 1912. China maintains that it was signed under British pressure; however, the representative of China's central government declared that the secretive annexation of territory was not acceptable. The boundary established in the convention, the McMahon Line, was considered by the British and later the independent Indian government to be the boundary; however, the Chinese view since then has been that since China, which had suzerainty over Tibet, did not sign the treaty, the treaty was meaningless, and the annexation and control of parts of Arunachal Pradesh by India is illegal. This paved the way to the Sino-Indian War of 1962 and the boundary dispute between China and India today."

Durante o período da 1º Guerra até 1950 a China perdeu o interesse no Tibete devido ás várias guerras internas pelo poder. Em 1951 a RPC anexou o Tibete. Em 1959 o Dalai Lama exilou-se, nunca mais regressando ao território. Foi formado um "governo tibetano no exílio"(GTE) que tem um parlamento (desde 1961) democraticamente eleito pelo tibetanos exilados.

Desde 1951 até hoje existem relatos de sucessivas violações dos Direitos Humanos neste território.

Desde o passado dia 10 de Março que numerosas manifestações têm tomado lugar, contra a "ocupação" da RCP, algumas das quais fortemente reprimidas pela polícias chinesa causando número indeterminado de mortos e feridos. O GTE pediu a intervenção da comunidade internacional e da ONU.

Que soluções para o Tibete?

Comentários

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Retrato de Hardcandy

Correspondência do único jornalista presente no local

http://www.economist.com/daily/news/displaystory.cfm?story_id=10871821&fsrc=nwl

e já agora algumas fotos

http://www.economist.com/daily/news/displaystory.cfm?story_id=10869993&fsrc=nwl

Retrato de Luís Lavoura

Nem uma nem outra

"Que soluções para o Tibete?"

A solução proposta pela República Popular da China não é, obviamente, boa. Além de envolver repressão dos tibetanos, envolve transferência maciça de população de etnia chinesa (Han) para o Tibete, destruição das florestas tibetanas, etc.

Mas a solução proposta pelo Dalai Lama também é inadmissível em termos liberais. Ele pretende preservar a cultura tibetana à custa da proibição da imigração. Ou seja, basicamente, proibir os chineses de emigrar para o Tibete. Para além de que a preservação da cultura facilmente se confunde com um entrave ao progresso, e para além de que a cultura política tibetana tradicional era uma monarquia teocrática, de todo inadmissível em termos liberais.

A mim parece-me que o domínio chinês tem trazido ao Tibete grande progresso e aumentado consideravelmente a liberdade da sua população, a qual deixou de estar presa nas malhas de um sistema tradicional, teocrático, e miserabilista, para passar a ter maior liberdade de viajar, de montar variados negócios, etc.

A capital do Tibete, Lhasa, é hoje uma cidade moderna, iluminada, atarefada, progressiva, ligada ao mundo, em tudo diferente da miséria ancestral e da prisão que ela de facto representava para os tibetanos quando o Tibete foi anexado.

Luís Lavoura

ou talvez

Talvez uma solução intermédia fosse a criação, por parte da ONU e só desta, e com o acordo da China e Índia, de um território independente do Tibete (algo à semelhança do que foi feito em 1947 com a criação de Israel).

Obviamente que não teria que ser um território considerável, apenas o suficiente para a criação de um estado livre (digamos que poderia ser algo do tamanho do Mónaco).

Depois se um dia a China se tornar uma democracia logo se faria um referendo e o povo tibetano logo decidiria o seu futuro. Primeiro deveriam decidir se continuam integrados na China , depois escolher o sistema governamental , que pode ser ou a democracia ou voltar à teocracia (parlamentar ou não).

De notar que tanto a China e a Rússia obtiveram o que quiseram. A China obteve o Tibete e a Rússia fez da Mongólia um estado satélite. Sendo que a Mongólia é hoje um país democrático que abandonou o antigo sistema teocrático mas não as suas crenças.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Progressismo pelas armas

Muito bem, o progresso, de acordo com o LL deve ser incentivado por via das armas. A não ser, claro, que seja o George Bush a empunhá-la.

Retrato de Igor Caldeira

A inevitável meia resposta

Não vou dizer nada de taxativo, à excepção de que não concordo com o Luís Lavoura. Progresso material algum justifica uma repressão em massa. Não se trata de proibição de imigração, trata-se de encararmos uma realidade: o Estado chinês está a enviar centenas de milhar de colonos han. E é isso que eles são: colonos. Por fim, se o Tibete fosse independente, tudo aponta para que tivessem uma democracia multipartidária. A independência traria também uma mudança de regime, de uma aristocracia pós-comunista para uma democracia.

Indo à questão política por excelência ("Que fazer?") não há nada de heróico que possamos seriamente defender. Invadir a China, creio, está longe do pensamento de qualquer pessoa com dois dedos de testa. A minha opinião é de que a única forma de, não perdendo a noção da realidade, não perder também a alma (ou seja, a defesa de princípios e valores) é mais micropolítica que macro: têm de ser dirigentes políticos isolados, artistas, ONG's a fazer o grosso do trabalho de apoio aos resistentes.
Tal como sucede com o Irão, só há duas hipóteses:
- ou somos loucos e defendemos a invasão do país para libertar a população (e creio que o Iraque já deu lições suficientes);
- ou tentamos influenciar politicamente o desenvolvimento da situação sem recorrermos ao confronto directo (militar ou diplomático).

Em todo o caso, o exemplo tibetano dá-nos alguns casos para reflexão. Se a China não fosse hoje uma ditadura mercantilista (sim, que chamar àquilo capitalismo custa um pouco) mas sim uma ditadura socialista, teríamos gente como Henrique Raposo (no Expresso) a dizer que gostam mais de Sines do que do Tibete (falando a respeito da importância comercial da China)? Ficamos a perceber quais os valores que movem determinadas pessoas.

Retrato de Hardcandy

Basta, seus carecas!!!

Existe uma ideia muito errada acerca da relação entre China e Tibete.

Tibete é parte da China, não faz sentido falar em independência.

Há uma ideia muito enviesada sobre Tibete, fruto da ignorância do comunicação social. A imprensa lá fora já começa a questionar sobre a inocência e a vitimização tibetana, cá é possível que isso venha a acontecer quando os jornalistas começarem a comportar como verdadeiros profissionais.

Nunca se discute a perseguição que os tibetanos fazem aos muçulmanos residentes no Tibete, nunca se fala dos terroristas tibetanos, raramente se fala do regime antidemocrático que o querem implementar. Terão eles mais direitos?

Monges inocentes? Seriam inocentes se seguissem o que pregam, vimos nesta manifestação monges com facas na mão, monges a fazerem destruição…podres, podres como os fulanos mal formados.

É do interesse de todos os chineses a preservação da cultura tibetana, porque é de lá que vem boa parte cultura chinesa. Assiste-se hoje um enorme revivalismo na China das praticas budistas. As populações dos centros urbanos são os que mais lutam pela sua preservação pois sabem que faz parte da sua identidade.

O que faria o Governo português se agora de repente o Norte de Portugal manifestasse de uma forma violenta para conseguir a sua independência? Ou o que acham vocês que os EUA fariam se um dos estados decidisse proclamar a independência?

Retrato de Igor Caldeira

Referendo

"O que faria o Governo português se agora de repente o Norte de Portugal manifestasse de uma forma violenta para conseguir a sua independência? "

Se o governo português fosse democrático, faria um referendo e respeitaria a vontade popular.

Retrato de Limbo1978

Ah ok

um referendo como aquele que a Espanha está a tentar evitar a todo o custo? Ou como o referendo que houve no Kosovo?

Retrato de Igor Caldeira

Precisamente

Ninguém disse que eu concordo com a atitude do governo espanhol ou do sérvio, ou já agora do kosovar (os sérvios do Kosovo também têm o direito de dizer se querem ser kosovares ou sérvios).
A questão é simples para mim: vota-se, e depois quem perder tem de aceitar os resultados do referendo.
A diferença de Espanha face aos restantes é que a esmagadora maioria dos bascos de facto não quer ser independente. Ainda assim, fazer o referendo seria relevante; gostaria de ver a ETA a engolir esse sapo.

Retrato de Limbo1978

Telhados de vidro

Faz-me confusão como, aqui na Europa, as pessoas conseguem tomar parte numa questão tão complicada, quando mesmo aqui ao tão perto compreendemos que a questão de autodeterminação de uma região é bem mais complicada. Ora, é tão complicada cá como lá. A desintegração dos países conduzirá novamente ao feudalismo, e à consequente confusão, como um alemão te explicará.

Tibete faz parte da China, assim reconhece a comunidade internacional, e assim a história nos diz. A questão do Tibete é um assunto interno. Imagina se agora a Espanha pedir maior autonomia para a Madeira? Ou nós pedirmos aos nossos hermanos independência para a Catalunha.

Como outsiders, cabe-nos a nós apelar ao respeito pelos direitos humanos, nada mais.

Retrato de Igor Caldeira

Levem a Madeira

Se Espanha quiser ficar com a Madeira, estou disposto a pagar um imposto extra para subornar os espanhóis: levem-na!

Retrato de Igor Caldeira

DH

Já agora, a autodeterminação política é uma questão de DH; o facto de não se dar aos indivíduos o poder de dizerem o que querem fazer com o seu território e consigo próprios (se querem ser colonizados ou se querem ser independentes) é um atropelamento básico aos direitos humanos.
Ora os chineses não têm qualquer poder sobre a sua vida. Pelo contrário, os independentistas tibetanos querem estabelecer uma democracia.

Retrato de Limbo1978

Democracia menu

- Era um prato de Democracia salteada à Sichuan, sff

- O Sr. deseja a democracia como a que houve de 1913-50, com iliteracia, probreza e fome à mistura? Ou prefere a democracia enriquecida com o aroma de teocracia e aristocracia?

- Eu gosto da democracia à sichuan sem o direito ao voto dos Han e e com cabeças dos muçulmanos Huis para acompanhar, é possível?

- Sobremesa deseja?

- Para sobremesa quero um Dalai Lama democraticamente reincarnado.

Retrato de Igor Caldeira

Receita de Democracia

Democracia Popular

70 milhões de mortos
Milhões de pessoas saneadas
Fomes cíclicas

Pode-se adicionar também
Ataque a culturas minoritárias
Proibição do sindicalismo
Proibição do pluripartidarismo
Nepotismo
Divisão da riqueza estatizada pelos chefes do partido.

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