Seguro de Saúde Universal

Retrato de Hugo Garcia

O grande desafio de um sistema de saúde é combinar eficiência com universalidade.

Quando nos preocupamos em universalidade geralmente pensamos num serviço nacional de saúde totalmente indiferenciado, que é sem dúvida o sistema mais humanitário; não fosse o carácter de ineficiência que o assombra.

Do lado da eficiência (note-se que não é eficácia) temos o “pagar do bolso” e o seguro. Contudo estes sistemas carecem do carácter de universalidade que é considerado essencial por qualquer pessoa de bom senso.
Mas não tem de ser assim.

A função do estado deve ser garantir que todos tenham acesso a seguro.
Desta forma, deverá existir um seguro de saúde social (patamar mínimo/preço mínimo) que servirá também de fasquia para todos os outros. Contudo, este seguro não deverá ser impedimento de existirem seguros por privados.

Cada empresa deverá dar seguros a todos os trabalhadores, por blocos de 1 ano. Desta forma, mesmo que o trabalhador se despeça ou fique sem emprego, terá acesso ao seguro de saúde durante o período de um ano. Note-se que as seguradoras tendem a oferecer melhores condições a seguros feitos em bloco, pois o segurado ganha posição negocial perante a seguradora.
Os seguros dos trabalhadores deverão ser extendidos aos progenitores (quando reformados ou desempregados) e eventualmente a todos os familiares directos.

Todos os trabalhadores a recibo verde, deverão ter o seguro como condição de inscrição.
O mesmo se aplica a todos os desportos e actividades escolares. No caso das escolas, poderá a ser a escola a responsável por oferecer seguros de saúde sempre que os alunos não o tenham.
Em todos estes casos os cidadãos poderão optar pelo seguro de saúde sócial ou por um dos privados.

Naturalmente, todos aqueles que não tiverem capacidades para pagar o seguro de saúde, este deverá ser suportado pela segurança social ou pelo orçamento de estado. Mas tendo em consideração que a maioria da população ou está empregada ou é familiar de quem esteja, a fatia da população a recorrer ao seguro através da segurança social ou orçamento de estado seria reduzida.

Comentários

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Retrato de Luís Lavoura

Não me parece adequado

Embora este sistema de seguros de saúde universais esteja em prática em muitos países do Norte da Europa, com sucesso, ele não me parece adequado aos tempos que correm, nem assegura a liberdade das pessoas.

Nos tempos que correm, há muitos tratamentos médicos muito complicados e requintados, que as pessoas podem querer ter ou não ter. Além disso, há muitas doenças que se devem ao estilo de vida que as pessoas têm. Não é como no passado, em que as principais doenças eram infecciosas e atingiam todas as pessoas por igual.

Hoje em dia as pessoas têm e querem ter estilos de vida diferenciados e, consequentemente, têm morbilidades diferentes. Algumas pessoas bebem de mais, outras andam de carro a alta velocidade, outras abusam do sal na comida, outras fazem alpinismo, outras fumam. Depois adoecem ou sofrem acidentes devido a esses modos de vida. E os outros é que pagam, através do seguro de saúde...

Eu penso que não devo ser obrigado a pagar o tratamento do cancro do pulmão de uma pessoa que fumava dois maços por dia. E não devo ser obrigado a pagar o tratamento de fertilidade de uma mulher que andou a tomar pílula ininterruptamente até aos 40 anos de idade e que, chegada a essa idade, está estéril devido a ter tomado tantas pílulas.

Por isso, penso que atualmente, cada vez mais, se impõe um sistema "pague do seu bolso". Só tal sistema garante às pessoas a liberdade e responsabilidade de levarem o modo de vida que queiram e de escolherem os tratamentos de saúde mais ou menos elaborados que lhes apeteça.

Luís Lavoura

Retrato de Hugo Garcia

tabaco e outros

face à liberdade é a tua postura, não vou contrariar.

Relativamente à questão do tabaco e outros semelhantes eu sinto a mesma "revolta" mas não vejo essa como sendo a solução.
Nesse aspecto acho que a imputação de custos funciona melhor.
Ou seja, se partimos do princípio que o tabaco tem custos a níveis de saúde então coloca-se um imposto extra sobre o tabaco que é canalizado para o sistema de saúde vigente (tal como já existe hoje). O mesmo pode ser aplicado aos automóveis e à comida gordurosa. O inverso pode ser aplicado ao desporto.

Mas um dos aspectos dos seguros é que já tendem a oferecer melhores condições a quem segue um regime de vida saudável.

Retrato de Igor Caldeira

Desporto

O desporto é uma actividade, do ponto de vista dos seguros de saúde, perigosa. De facto, se fores ver os seguros de saúde existentes, eles normalmente excluem os danos (que é muito difícil não haver) resultantes de actividades desportivas.

Retrato de Igor Caldeira

Estilos de vida

Em abstracto, estou de acordo com o que dizes. No entanto, como disse um deputado do CDS no PE aqui há uns anos, quem fuma já pagou os seus últimos dias de vida na cama de um hospital, tantos são os impostos aplicados sobre o tabaco. Assim, num sistema de seguros individuais os impostos que hoje são desviados para a Saúde, a manterem-se, seriam impostos meramente morais - deveriam por isso ser retirados. Creio que os fumadores inveterados agradeceriam a enorme quebra no preço do tabaco.

Retrato de Luís Lavoura

imposto sobre o tabaco

De facto, num sistema de seguros de saúde privados, os impostos sobre o tabaco deveriam ser NEGATIVOS - isto é, o Estado deveria pagar para que as pessoas fumassem! - uma vez que o tabaco é fortemente benéfico para a Segurança Social, ao matar mais cedo pessoas que de outra forma passariam longos anos na condição de reformados.

Luís Lavoura

Retrato de Igor Caldeira

LOL

Não andas longe da verdade. Não digo em relação ao tabaco especificamente, mas é um facto que não sei até que ponto será justo pagarmos todos por igual, vivamos até aos 60 ou vivamos até aos 90. A lógica da individualização do risco (seja na óptica do seguro de saúde seja na óptica do seguro social) não pode ir até onde nos convir.

Retrato de Ricardo Sousa Carvalho

Pragmatismo

A meu ver, o grande problema é dares uma solução demasiado complexa. Um esquema desses peca pelas inúmeras excepções e particularidades de cada caso, não só do lado dos beneficiários do seguro, como dos provedores. E em Portugal não é difícil ver que o que envolve demasiadas questões burocráticas e especificidades, invariavelmente funciona mal.

Para quando uma solução que aborde o actual cenário do SNS? Tenho visto inúmeros debates no MLS sobre este e aquele sistema, privados vs. públicos, mas isto tudo pouco importa se não entrar na equação a realidade portuguesa. Até porque se torna difícil comparar soluções quando o problema é vago.

Para já, recolher dados e enquadrá-los numa solução. My 2 cents.

Retrato de Hugo Garcia

complexa ?

Complexa de aplicar? ou complexa de entenderes ?

Tendo em consideração a situação do financiamento da saúde em Portugal actualmente, este é o modelo mais simples e mais fácil de implantar.

Retrato de Ricardo Sousa Carvalho

De aplicar. Em concreto,

De aplicar.

Em concreto, que problemas ataca a tua ideia? Nota que falo de questões de organização interna, e não da má qualidade dos serviços prestados(por exemplo). A segunda é sem duvida uma consequência, e se a prioridade for resolver esta segunda questão, esqueces-te de que existem várias causas que ficam por resolver. Há que começar pelo início. O que é que torna os hospitais ineficientes?

Também há a hipótese de eu ter chegado tarde ao debate e já terem sido discutidos factos e números, mas se assim foi, alguém que me ilumine.

Retrato de Igor Caldeira

Referes-te à organização

Referes-te à organização dos hospitais ou à organização dos seguros?

A organização dos hospitais perde relevância num sistema deste tipo, porque se os consumidores entenderem que determinado hospital é ineficiente, simples - deixam de o utilizar.

Mais complexa é a organização do sistema de seguros onde aí sim a burocracia aumentaria exponencialmente. Actualmente quem for a um hospital paga a taxa moderadora e vai para casa. Num sistema de seguros teria de se ver se era hospital convencionado ou se estava fora da rede de cada consumidor. Tinha de se ver se a apólice permitia a utilização fora de rede, e se permitisse como se processaria o reembolso.

As intervenções cirúrgicas exigem a emissão de termos de responsabilidade, o que em situações mais urgentes se pode tornar um empecilho.

Creio mesmo que este é o aspecto mais negativo que se pode apontar a um sistema de seguros: a complexificação do acesso aos cuidados de saúde seria inevitável. Em contrapartida, há efeitos positivos resultantes da concorrência entre prestadores ao nível da qualidade do serviço.
No fim, creio que a escolha terá de ser feita entre estes dois factores.

Retrato de André Escórcio Soares

Excelente post. Não poderia

Excelente post.
Não poderia estar mais de acordo com este texto. Acho estranho nos dias de hoje ainda haver quem seja contra a universalidade e eficiência dos cuidados de saúde, como os há também em relação a educação, justiça, etc.

Retrato de Igor Caldeira

Universalidade vs Eficiência

Os cuidados de saúde já são universais. Podemos é entender que não são eficientes, o que é outra coisa. Outra coisa, de resto, que não sei até que ponto não é contraditória. Admito que não o sejam porque há serviços públicos que funcionam lindamente e outros privados (onde, por serem privados, À partida o acesso seria mais reduzido - não vou dizer o nome do hospital que me ocorre por motivos óbvios) que são um nojo.

Um sistema de seguros individuais teria a vantagem de permitir maior concorrência pela qualidade - embora não seja líquido que os consumidores se dirijam sempre aos melhores serviços. O hospital de que me lembro agora é um dos mais utilizados em Lisboa por quem tem seguros privados. As pessoas são mais mal tratados (principalmente nas urgências) que num hospital público - mas insistem em lá ir. Em todo o caso, podem escolher ir ou não ir, o que é muito mais difícil num sistema como o actual.

Retrato de Igor Caldeira

Coberturas

"A função do estado deve ser garantir que todos tenham acesso a seguro.
Desta forma, deverá existir um seguro de saúde social (patamar mínimo/preço mínimo) que servirá também de fasquia para todos os outros"

Para mim, as questões associadas aos restantes seguros remetem-nos para questões que são estritamente do foro privado e portanto não são muito relevantes. O de facto me preocupa é este mínimo cujos limites ficam sempre indefinidos. A questão das coberturas deste mínimo é a que se torna realmente relevante. Por exemplo, quem for afectado por uma qualquer doença rara, for vítima de um atentado, tiver um acidente de automóvel, sabe que pelo SNS tem acesso a tratamentos. No entanto, estas situações são exclusões da esmagadora maioria dos seguros de saúde actuais.

O cancro, por exemplo: poderemos dizer que todos os cancros resultam do estilo de vida? Por exemplo, as doenças que resultem de factores hereditários serão excluídas das apólices? O facto de a minha avó ter tido cancro da mama deve ser uma informação a ser prestada às seguradoras para que a minha irmã e a minha mãe, caso tenham cancro da mama, não onerem as suas seguradoras?

Não concordo com a questão dos ascendentes serem incluídos nas apólices dos filhos. Se as seguradoras entenderem prestar um serviço desse tipo, mediante um prémio adicional, muito bem. Mas parece-me injusta a imposição estatal de uma situação desse tipo. Ao fim e ao cabo, um idoso com certeza que trabalhou e teve seguros de saúde. Se não puder pagar o seu, ou não quiser fazê-lo, fica com o seguro social. Não considero justo o empregador, a seguradora e os segurados suportarem um risco adicional porque alguém tem pai ou mãe.
Para além da consideração da coisa em si (ou seja, a empresa de facto não tem nenhum laço com os pais do trabalhador), há o facto de uma imposição desse tipo ser mais um encargo. Um sistema deste tipo torna o trabalho (ou seja, dar trabalho a alguém) muito mais caro do que a situação actual. Assim, creio que a opção deve ser deixada à empresa, de pretender dar ou não um benefício desse tipo.

Retrato de Luís Lavoura

Não confundir

O Igor está a confundir os seguros de saúde atualmente existentes em Portugal com o sistema sugerido pelo Hugo.

Os seguros de saúde que o Hugo propõe, e que existem em países como a Alemanha, são esquemas obrigatórios e fortemente regulados pelo Estado. Formalmente são geridos por companhias seguradoras privadas mas, na realidade, são esquemas de saúde estatais. As coberturas dos seguros são definidas pelo Estado (em negociação com as companhias seguradoras) e as companhias seguradoras não são autorizadas a excluir os cidadãos. Os preços dos seguros também são estabelcidos pelo Estado.

Aquilo que existe atualmente em Portugal é muito diferente, trata-se de seguros de saúde completamente privados e cujas coberturas não são reguladas pelo Estado.

Luís Lavoura

Retrato de Igor Caldeira

Diferenças

Sem dúvida terá de haver diferenças entre os seguros actualmente existentes e os propostos. A questão está em saber o que é que muda e até onde é que muda.

Retrato de Hugo Garcia

o modelo que proponho

o modelo que proponho não é bem o que o Luis está a dizer.

Os seguros privados devem manter as características de privados. Com algumas leis, claro, mas isso é semelhante a qualquer outro negócio.

Apenas o seguro social é definido pelo Estado, mas qualquer cidadão pode optar entre o seguro social ou o seguro de uma seguradora privada. E ainda, se optar pelo seguro social, terá que o pagar a não ser que esteja dependente da segurança social.

Mas o objectivo seria sempre motivar a opção por seguros privados.

Retrato de Luís Lavoura

burocracia

Um sistema de seguros de saúde tem a desvantagem de que é sempre fortemente burocrático e, portanto, ineficiente. As companhias de seguros têm que, a cada momento, estimar o risco de cada doença, e analisar os preços de cada hospital. Têm que decidir que tratamentos devem ser comparticipados, e em que medida. Têm que decidir qual o nível de luxo e qual o nível de qualidade de serviço do hospital que estão dispostas a pagar. Tudo isso exige modelos matemáticos, montes de pessoal a fazer montes de contas, e gestores (muito bem pagos) a gerir todo o sistema.

Eu defendo um sistema de saúde não burocrático, baseado nas poupanças individuais (mas obrigatórias) de cada cidadão. Cada pessoa é que toma, de forma descentralizada, as decisões. A pessoa decide a que hospital é que quer ir e qual o nível de luxo que quer ter em cada hospital, e paga o valor correpondente, a partir das poupanças que já efetuou.

Num tal sistema, o controle de custos, em vez de ser efetuado pelas companhias de seguros, passa a ser efetuado pelos consumidores - os cidadãos que recorrem aos hospitais. São eles que decidem se querem recorrer a um hospital caro ou barato, se querem ter televisão, música ambiente e casa-de-banho privativa ou se ficam numa enfermaria comum, etc.

Num sistema de saúde burocratizado, como o que o Hugo propõe, a saúde fica mais cara, pois que, para além do cuidado de saúde propriamente dito, o cidadão paga também toda a burocracia associada à companhia de seguros. É esta a experiência dos EUA, onde os cuidados de saúde são muito caros, em grande parte, devido à enorme burocracia associada às companhias de seguros.

Luís Lavoura

Retrato de Hugo Garcia

burocracia das seguradoras

Efectivamente as seguradoras investem muito nessas estatísticas.

Mas eu não vejo isso como um ponto negativo.
Recebem constantemente dados sobre onde estão a gastar o seu dinheiro, calculam médias, percebem as grandes ameaças à saúde.
Enfim, fazem o trabalho que o estado devia fazer. Serem as empresas a fazer esse trabalho é ouro sobre azul.

Por vezes, até fazem campanhas para conduzir com cuidado, por um alarme em casa ou ter cuidado com a alimentação.

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