
Interessante este artigo do LA Times sobre propriedade intelectual, onde se levanta uma questão muito interessante:
- Se a propriedade intelectual é verdadeira propriedade, porque não é taxada?
Ou seja, qualquer um de nós tem que pagar impostos, e não são poucos, por ter uma casa ou um terreno, no entanto, se formos proprietários de uma obra literária ou de qualquer outra obra criativa, não temos que pagar nada por manter esta propriedade. Nesta categoria vou incluir as patentes, que são uma propriedade intelectual especial, e que penso que na realidade já têm que pagar alguma coisa para se manterem válidas.
Ora, além da simples questão de arrecadar impostos para o Estado, que não é a minha preocupação neste caso, existe uma questão muito mais importante, que é criar incentivos para que uma qualquer obra caia rapidamente no domínio público. Ou seja, se uma determinada obra não gera riqueza, e devido a isso o autor (ou proprietário da obra) não está disposto a pagar um montante para a manter como propriedade privada, esta obra deve cair no domínio público.
Não, não se trata aqui de nacionalizar o quer que seja, mas tão simplesmente liberalizar o mais possível a cópia de ideias que não é mais que um monopólio artificial. Necessário, é certo, mas abusado.
Comentários
propriedade
Não é taxada porque não está a incomodar ninguém, nem a gastar recursos escassos.
Claro que quem concorda com a proposta do Bloco de Esquerda de taxar as grandes fortunas poderá querer taxar a propriedade intelectual. Aí fará sentido.
Mas para liberais isto não faz sentido.
Da mesma forma que não defendemos pagar por joias ou por uma peça de roupa que já é nossa propriedade.
Paga-se taxas na sua aquisição, mas não ao longo do tempo.
Faz sentido taxar um terreno ou uma habitação, porque é algo que está a criar um custo para a sociedade. O simples facto de um prédio existir representa custos, ainda que esteja desabitado.
A propriedade intelectual não apresenta custos de existência.
Também não concordo com o 2º argumento, porque as produções criativas de maior qualidade tendem a ser aquelas que demoram a ser descobertas.
Estas nunca conseguiriam sobreviver com uma taxa.
Essa taxa acabaria por dar ainda mais apoio a toda a produção de cultura imediato, de baixo valor acrescentado, aniquilando a concorrência de qualidade.
Resposta
"Não é taxada porque não está a incomodar ninguém, nem a gastar recursos escassos."
Aí é que está. A propriedade intelectual incomoda as pessoas, pois impede a criatividade com base nessa mesma propriedade intelectual. Ou seja, a propriedade intelectual é uma barreira à inovação sobre a inovação.
É que nós não nos podemos esquecer que o único objectivo da criação da propriedade intelectual foi precisamente promover a inovação (no caso das patentes) e alimentar os criadores (nos outros casos).
Ora, uma propriedade intelectual que não dá dinheiro, só por existir, impede inovações sobre a mesma e é inútil pois não alimenta ninguém.
Miguel sabes quanto custa o
Miguel sabes quanto custa o registo de uma patente?
Custos
O mínimo a pagar para um pedido de patente é de € 335,13.
Mas o que considero errado não é o custo de registo, que deve ser o suficiente apenas para cobrir os custos necessários à verificação da inovação. O errado é o facto de uma vez registado o período da propriedade ser muitas vezes excessivos.
Por exemplo, no caso de livros, música, etc., a propriedade intelectual é de 70 anos após a morte do autor. Ora, se o autor já faleceu, qual é a necessidade disto? Qual é o incentivo extra que me dá saber que os meus netos ainda vão ganhar dinheiro de um eventual livro que eu escreva?
Taxar ou não taxar
Para mim a ideia de taxar a propriedade intelectual é só mais uma maneira de os estados em vez de equilibrarem os seus orçamento pela via da despesa é realizarem o mais fácil que é sacar o dinheiro aos contribuintes.
Concordo que deverá existir um imposto pela transação da propriedade (de preferência baixo para não favorecer quem opta pela fuga ao mesmo), mas discordo totalmente qualquer taxa simplesmente por alguém possuir num determinado momento um bem seja monetário, intelectual ou outro.
Claro que quem possui um imóvel deverá pagar uma taxa para cobrir as despesas com a manutenção de arruamentos, iluminação pública, forças de segurança, etc na proporcionalidade dos benefícios que o local onde esse imóvel está localizado. Do mesmo modo também aceito que quem tem uma viatura (por exemplo) deverá ter uma taxa de circulação para cobrir igualmente as despesas de manutenção das vias de circulação, estacionamentos públicos, etc.
Agora taxar a propriedade intelectual irá é provocar um menor interesse nas pessoas em investir o seu tempo no desenvolvimento dessa mesma propriedade intelectual.
Um bom exemplo disso é a falta de sucesso que o software dito livre tem actualmente apesar de muita gente ter defendido que esse conceito iria permitir uma criação rápida de aplicações para todos e além disso a preço zero.
Resposta
"Agora taxar a propriedade intelectual irá é provocar um menor interesse nas pessoas em investir o seu tempo no desenvolvimento dessa mesma propriedade intelectual."
Depende da taxa. A taxa deveria ser tão elevada que tirasse o incentivo a manter-se uma propriedade intelectual que não serve para nada senão impedir o próximo de inovar com ela e suficientemente baixa que obviamente não prejudicasse a inovação.
Um exemplo poderia ser uma isenção de taxa nos primeiros anos de registo de propriedade (até para dar oportunidade de se ganhar dinheiro com essa inovação/criação), e após isso ir progressivamente aumentando a taxa.
"Um bom exemplo disso é a falta de sucesso que o software dito livre"
Esta não percebi. O software dito livre (open source) é um sucesso, ao permitir precisamente que se aproveitem as inovações e se inove sobre elas. Por exemplo, vai ao mercado ver quantos routers de grande consumo é que usam como base algo que não seja o Linux?
Onde achas que este blogue está a correr? Em software pago? ;)
Software dito livre ...
Primeiro eu distingo software livre (qualquer programa de computador que pode ser usado, copiado, estudado, modificado e redistribuído sem nenhuma restriçãode) do software open source (código aberto), porque um software pode ter o código aberto e mesmo assim a sua propriedade ser detida por uma entidade. Exemplo disso são vários softwares ERP que existem no mercado que tem o código aberto mas a sua utilização obriga ao pagamento de um licenciamento para sua utilização .
Depois ao contrário que se pensa a maior parte dos ditos software livre (ou open source se preferires) derivam de versões antigas de Unix ( tecnologia com mais de 30 anos e que originalmente era proprietária e obrigava a licenciamento) e que só quando estas perderam a sua capacidade concorrencial no mercado (nos finais dos anos 90) é que passaram a considerar que a sua a utilização não obrigava à necessidade de um licenciamento. Boa estratégia de marketing até porque assim as empresas que passaram a ser defensoras do Open Source realmente deixaram de receber os rendimentos pelo licenciamento mas em contrapartida começaram a cobrar valores bem elevados para a manutenção e suporte desses produtos e o pagamento de valores bem elevados para a utilização das patentes necessárias à criação dos equipamentos necessárias à execução do software open source.
Mas a realidade é que após um tentativa inicial de continuarem a desenvolver estes produtos baseados nos conceito do Open Source nem as empresas, nem os técnicos fizeram evoluir significativamente esses produtos Open Source.
Bom exemplo é por exemplo os routers, o sistema operativo dos mesmos ou é Linux ou é baseado em versões próximas dos antigos Unix, mas o Cliente paga a propriedade intelectual inerente ao próprio desenvolvimentos de todos os componentes electrônicos ou a simples utilização das patentes que esses equipamentos utilizam. Ou pensa que as empresas que os vendem permitiriam que outra empresa copiasse os mesmos equipamentos e os colocassem à venda no mercado sem pagar direitos?
Possivelmente o fabricante do equipamento onde este blogue corre teve pagar vários licenciamentos desde a tecnologia utilizada nos discos rígidos, nas memórias, nos várias microprocessadores, etc, etc e o detentor dessas patentes (que possivelmente será um grande defensor do Open Source) não dispensará os direitos da sua propriedade intelectual.
Não sou contra o direito das empresas ou pessoas que desenvolvam software o considerem livre para utilização do público em geral, e se as minhas necessidade forem satisfeitas com a capacidade que esse mesmo software tenha não vejo razão para optar por uma versão paga do software com a mesma funcionalidade.
Agora a realidade é obvia a tecnologia do Linux pouco mais evoluiu para além do velho UNIX proprietário dos Laboratórios Bell da AT&T, mas para o fim de albergar um servidor web que nos permita aceder a este blog é suficiente.
E o que eu queria dizer era mesmo isto, se não existir vantagens no desenvolvimento continuado da propriedade intelectual o produto dessa mesma propriedade intelectual acabará por ficar ultrapassado e obsoleto. Sem as vantagens dos direitos à propriedade intelectual perde-se o estímulo ao desenvolvimento desses mesmos produtos.
Propriedade intelectual? Taxa tu.
O fundamento económico para a existência do imposto sobre a propriedade física, por exemplo sobre os imóveis tem a ver com o proveito que se tira delas, é como se o proprietário recebesse uma renda que é paga a si próprio. Há por isso criação de rendimento e por isso deve ser taxada.
Mas a propriedade intelectual pode não gerar riqueza, a maior parte das patentes não geram lucro, e as que geram riqueza, já pagam imposto não por serem propriedade mas pelo rendimento gerado.
A ideia de cobrar imposto sobre a propriedade intelectual é impraticável. Quanto vale uma patente? Terão todas o mesmo valor? O valor as patentes das farmacêuticas terão o mesmo valor das patentes dos fabricantes de brinquedos? Há reembolso para as patentes que não geram rendimento? Não nos esqueçamos que muitas das patentes não geram rendimento e as que geram o tempo que leva a atingir o breakeven pode ser longo.
Num mundo em cada vez mais a propriedade intelectual é um garante da prosperidade de uma sociedade, o Estado deve fazer tudo para incentivar os entrepreneurs , essa espécie rara. Medidas que possam inibir a inovação não devem constar na agenda.
Se o Estado pretende colocar no domínio público o conhecimento, então que pague por isso. Esta ideia não é nova, é prática comum de muitos Sovereing Funds, compram empresas detentoras das patentes e tiram partido da propriedade intelectual para o benefício da sua economia nacional. Um Estado ao impor um imposto sobre a propriedade intelectual na forma como é apresentada é utilizar o seu poder de uma forma abusiva para apropriar algo que não criou. Num mundo cada vez mais global qual será o primeiro país a arriscar tal medida sobre uma propriedade perfeitamente deslocável?
Nesta nova era em que as patentes assumem cada vez mais um papel relevante na criação de riqueza de um país, a fórmula para a actuação do Estado continua a ser a clássica: assegurar o respeito pela propriedade intelectual e limitar no tempo a patente para que possa haver concorrência. Infelizmente para os portugueses a primeira parte da fórmula não é garantida.
Propriedade intelectual? Taxa tu.
O fundamento económico para a existência do imposto sobre a propriedade física, por exemplo sobre os imóveis tem a ver com o proveito que se tira delas, é como se o proprietário recebesse uma renda que é paga a si próprio. Há por isso criação de rendimento e por isso deve ser taxada.
Mas a propriedade intelectual pode não gerar riqueza, a maior parte das patentes não geram lucro, e as que geram riqueza, já pagam imposto não por serem propriedade mas pelo rendimento gerado.
A ideia de cobrar imposto sobre a propriedade intelectual é impraticável. Quanto vale uma patente? Terão todas o mesmo valor? O valor as patentes das farmacêuticas terão o mesmo valor das patentes dos fabricantes de brinquedos? Há reembolso para as patentes que não geram rendimento? Não nos esqueçamos que muitas das patentes não geram rendimento e as que geram o tempo que leva a atingir o breakeven pode ser longo.
Num mundo em cada vez mais a propriedade intelectual é um garante da prosperidade de uma sociedade, o Estado deve fazer tudo para incentivar os entrepreneurs , essa espécie rara. Medidas que possam inibir a inovação não devem constar na agenda.
Se o Estado pretende colocar no domínio público o conhecimento, então que pague por isso. Esta ideia não é nova, é prática comum de muitos Sovereing Funds, compram empresas detentoras das patentes e tiram partido da propriedade intelectual para o benefício da sua economia nacional. Um Estado ao impor um imposto sobre a propriedade intelectual na forma como é apresentada é utilizar o seu poder de uma forma abusiva para apropriar algo que não criou. Num mundo cada vez mais global qual será o primeiro país a arriscar tal medida sobre uma propriedade perfeitamente deslocável?
Nesta nova era em que as patentes assumem cada vez mais um papel relevante na criação de riqueza de um país, a fórmula para a actuação do Estado continua a ser a clássica: assegurar o respeito pela propriedade intelectual e limitar no tempo a patente para que possa haver concorrência. Infelizmente para os portugueses a primeira parte da fórmula não é garantida.