Produtos velhos em embrulhos vistosos

Retrato de Igor Caldeira

Esta pérola, como o próprio autor admitirá mais tarde, só poderia vir de alguém que teve como mentor o inefável António Costa Amaral, uma espécie de prestidigitador da teoria política. Digo prestidigitador (tolice! um verdadeiro Houdini!) porque em uma frase arruma com toda uma corrente política, toda uma grande família política e que será, porventura, a mais influente tanto deste como do outro lado do Atlântico (o conservadorismo, centro-direita) - ou pelo menos será mais relevante que o liberalismo (centro) e a social-democracia (centro-esquerda) separadamente, atendendo à distribuição de poder verificável tanto nos executivos como nas câmaras legislativas. O conservadorismo não existe, ou se existe é um socialismo. Ou um liberalismo. Não ficamos a saber, mas fico cá com umas comichões para percebê-lo, e creio que a próxima frase explicar-mo-á.

Ah, bom, então quer dizer que para ser liberal basta acreditar na economia de mercado. Certo? E as liberdades individuais, a liberdade de fazer tudo aquilo que não limite a liberdade alheia? Não existe? Nem uma palavrinha em relação às liberdades individuais que não se incluam no âmbito económico?

Há de facto uma palavrinha - são as liberdades afins. Sabemos que começam no pensamento, continuam pela expressão e depois terminam sendo afins. Não deixa de ser curioso como uma palavrinha apenas consegue expressar todo o desprezo prático a que tudo o que não remeta para uma concepção económica de liberalismo fica votado. É que se o liberalismo económico é uma condição sine qua non para o liberalismo, se formos honestos e tivermos dois dedos de testa concluiremos que o liberalismo social (e aqui refiro-me não à família política mas ao liberalismo de costumes), o liberalismo religioso (Estado laico, imparcial) e o liberalismo político (democracia, divisão de poderes, Estado de Direito - e atenção ao Estado de Direito, que alguns liberais querem pôr em causa em nome do respeito pelas religiões e da liberdade de escolha dos regimes jurídicos aplicáveis) são tão decisivos como o primeiro.

Que se trate como afins boa parte da herança do liberalismo - que de resto acabou por mais marcar e civilizar os outros dois blocos ideológicos (gerando o socialismo moderado, ou social-democracia, à esquerda e do outro lado a direita democrática) em particular no que se refere ao liberalismo político - é suficientemente esclarecedor a respeito da grandeza intelectual e da oportunidade política de uma tal criação.

Comentários

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Retrato de Luís Lavoura

Opção preferencial

A frase do António Costa Amaral explica-se por uma "opção preferencial pelo conservadorismo" como aliado estratégico (não apenas tático), por parte de alguns liberais. Ou seja, eles escolhem aliar-se aos conservadores, escolhem o socialismo como o principal (ou será mesmo o único?) adversário a abater.

Mas é de facto mais profundo do que isso. Sociologicamente e em termos políticos, muitos destes neo-liberais (utilizo o "neo" para significar que são liberais de fresca data, pessoas que apenas recentemente se converteram ao liberalismo) são de facto oriundos do campo conservador, ao qual anteriormente pertenceram e no qual têm as suas amizades, as suas famílias, as suas lealdades. O liberalismo é para eles, em boa parte, apenas uma nova justificação teórica para velhas opções ideológicas e velhas afinidades políticas. Trata-se de vinho velho em garrafas novas, ao fim e ao cabo.

Luís Lavoura

Retrato de Filipe Melo Sousa

Igor, aposto que quando

Igor, aposto que quando viste lá a minha assinatura foste logo implicar com a ala liberal. Vá lá, o que te incomoda no facto do CDS lançar uma ala liberal? Não gostas da ideia de ver o CDS largar a sua veia cristã e conservadora?

Porquê a ênfase na liberdade económica em detrimento das outras? Ora deixa-me pensar?

Liberdade Religiosa:
Tens liberdade de escolher a religião? Sim
Tens liberdade de te casar no civil? Sim
Tens liberdade de ser ateu? Sim
OK, estamos conversados

Liberdades individuais:
Tens liberdade de te vestir como queres? Sim
Tens liberdade de formar um partido? Sim
Tens liberdade de te juntar com um homem ou uma mulher? Sim
Tens liberdade de ir nu para a praia? Sim
Tens liberdade de por o estado em tribunal, e recorrer para o tribunal europeu? Sim
OK, estamos conversados

Liberdades económicas:
Tens liberdade de fazer o teu plano de reformas sem descontar para o estado? Não
Tens liberdade de comprar energia sem ser à EDP? Não
Tens liberdade de despedir um trabalhador incompetente? Não
Tens liberdade de ganhar mais sem pagar uma porção maior do teu salário em impostos? Não
Tens liberdade de consumir sem as distorções de preço induzidas pela moral dos governantes? Não
OK, estamos conversados

Retrato de Igor Caldeira

Perguntas enviesadas

As perguntas que fazes são perguntas enviesadas.

Por exemplo, eu posso perguntar:
Tens liberdade de não pagar o funcionamento de cultos religiosos com os quais não concordas? Não.

Nas liberdades religiosas colocas a questão do casamento. Nas individuais falas em juntar. Não é por acaso. É para fugir à moralização do casamento.

Nas liberdades económicas, esqueces-te de que já começa a haver concorrência; pode-se é descobrir que não há lugar para a concorrência (o que eu duvido), que se trata de um monopólio natural.
Aliás, se a concorrência entre privados gerasse um monopólio privado opor-te-ías? Bom, do que já aqui escreveste, não. Ora o monopólio os oligopólios e cartelização, para mim, são sempre más e a economia de mercado é sempre a melhor opção - e nos raríssimos casos em que tenha de facto de haver monopólio, que esse monopólio seja politicamente controlável. Para ti, se o estado violar a minha liberdade, é mau. Se outro indivíduo violar a minha liberdade, azar o meu. Ora, isso como defesa da liberdade, para mim, é uma tanga.

Retrato de Igor Caldeira

"Igor, aposto que quando

"Igor, aposto que quando viste lá a minha assinatura foste logo implicar com a ala liberal. Vá lá, o que te incomoda no facto do CDS lançar uma ala liberal? Não gostas da ideia de ver o CDS largar a sua veia cristã e conservadora?"

Não, por acaso não. Aliás, já tinha escrito a respeito da Ala Liberal. Neste caso em particular, trata-se de um excerto de alguém que, talvez não sendo brilhante, tem como mentor alguém com ideias ainda mais excêntricas.

De uma forma genérica, digo apenas que o que a Ala Liberal defende é apenas aquilo que, genericamente a Direita tradicional já defende. Enfim, talvez sejam mais radicais noutras coisas, por exemplo, o fim do salário mínimo. Mas o seu radicalismo fica-se aí. Não os vejo a serem tão radicais em assuntos com a vida de cada um (a eutanásia, por exemplo) como o são com a vida dos outros (o salário mínimo por exemplo).

Retrato de Filipe Melo Sousa

Quanto é que eu pago pelos

Quanto é que eu pago pelos cultos religiosos? Pergunta demagógica, pois mesmo se encontrares algum protocolo que favoreça a igreja católica, será uma gota nos mais de 50% do PIB que o estado controla. É na intromissão do Estado na economia que sinto uma ingerência na minha vida. Tenho um estado que quer tomar decisões por mim, ser racional no meu lugar, gerir o meu plano de reforma e escolhas de estudos e carreiras, a zona do país onde me quero fixar, o meio de transporte que devo escolher etc.. isso sim intromissões substanciais na minha vida.

O que acontece é que os liberais tendem a tornar-se market liberals, à medida que a sociedade perde (e felizmente para nós) uma visão conservadora. Tu bem tentas, Igor, encontrar redutos para causas em que o estado se intromete em questões não-económicas. Mas são mesmo resíduos irrisórios.

Retrato de Igor Caldeira

Ah, lá está...

Pois é. Eu dou de barato que o Estado tem um peso na economia que é excessivo. Mas a questão é que o Estado também se mete em muitas matérias que não deve, só que nessas não podemos calcular. Não podemos calcular, por exemplo, o peso da Igreja no Estado, porque não é algo redutível a dinheiro.
E, se também dou de barato que não vivemos numa Arábia Saudita, não é menos verdade que o meu termo de comparação não podem ser sociedades desse tipo.

Simultaneamente, há aqui uma outra questão que é ainda mais decisiva. É a que separa aqueles que entendem o liberalismo como um anarquismo light (portanto, um anti-estatismo inconsequente, ou seja, que não tira todas as consequências do que defende) e aqueles que se opõem a qualquer opressão que possa recair sobre o indivíduo e que tanto pode vir do Estado (como muitas vezes vem) como pode vir da tão elogiada "sociedade civil" (seja de forma directa seja de forma indirecta - via Estado).

Retrato de Filipe Melo Sousa

Peso da igreja no estado?

Peso da igreja no estado? Só se o islão triunfar em Portugal. Eu vejo a igreja às moscas, média etária 65 anos para cima. E a média não é 75 por causa dos amigos do AAA.

O peso que eu sinto é de uma natureza bem diferente, e faz com que eu não tenha saldo ao fim do mês. E isso é que me pesa.

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