Portugal e a Flexigurança segundo o seu pai

Retrato de Igor Caldeira

«Portugal ainda nao está preparado para a implementação da flexigurança
Portugal terá de dinamizar o mercado laboral, promover a requalificação de competências e fomentar uma política de responsabilidade social, até poder implementar a flexigurança, afirmou hoje Poul Rasmussen, ex-primeiro-ministro dinamarquês»
SOL
«A flexigurança é a melhor resposta moderna para evitar empregos precários. Mas a flexibilidade sem segurança é a melhor forma de obter empregos precários.
[...]
Não consigo entender a hesitação de patrões e sindicatos na cooperação porque não vejo quaisquer efeitos negativos. Claro que não podemos forçar os parceiros sociais a entrarem em negociações com o Governo, mas diria que se fosse um líder sindical seria mais interessante ter a minha proposta e dizer aos empregadores e ao governo: "Esta é a minha proposta. Têm alguma alternativa?"»
Poul Rasmussen, Diário de Notícias
«"Tem por isso toda a razão, Poul Rasmussen quando, no congresso do Partido Socialista Europeu, afirmou que o modelo de flexigurança deve ser seguido não como uma cópia, mas como um roteiro, sensível às especificidade de cada País.»
Pedro Adão e Silva, Diário Económico

Defendendo eu uma lei laboral mais flexível, mas não a confundindo eu com aquilo que muita Direita quer (ou seja, que a flexibilidade selvagem que já existe na prática seja transposta para a lei), nem sendo dado a grandes deslumbramentos com os modelos sempre infalíveis que de cinco em cinco anos nos apresentam (URSS, China, Albânia, EUA, Irlanda, Finlândia, agora Dinamarca - pergunto-me se os defensores da implementação imediata da flexigurança dinamarquesa desejarão o correspondente aumento dos impostos), não podia estar mais de acordo com Rasmussen.
De facto, se nós temos, entre os mais jovens, das mais altas taxas de precarização, é à lei que temos que o devemos: uma lei que ou nos garante tacho para a vida toda, ou nos atira para os recibos verdes e para o novo tráfico negreiro, as empresas de trabalho temporário. Ontem ao ver o sempre difícil de adjectivar programa da SIC Radical, Vai Tudo Abaixo, apeteceu-me aplaudir: no dia da Greve Geral, os dois pseudo-revolucionários de serviço (um dos melhores sketches) foram para junto de um piquete de greve gritar: «Camaradas, sabem por que é que aqui falta juventude? Porque os jovens estão todos a recibos verdes, não podem fazer greve, só vocês é que podem fazer greve.» Sorte a deles os grevistas terem aceite a brincadeira, porque a crítica subjacente não podia ser mais violenta.

Há muito neste processo (roteiro, como prefere designar Rasmussen) que vai depender de algum voluntarismo e coragem governamental. Provavelmente (pelo menos, é o que me parece mais lógico) o caminho será realmente procurar uma Terceira Via legislativa: tornar o vulgar contrato laboral menos proteccionista, por um lado, e por outro limitar os fictícios recibos verdes e a contratação através do trabalho temporário. No entanto - e o ex-primeiro-ministro dinamarquês frisa-o - sindicatos e patrões vão ter de ser capazes de com mais frequência negociarem directamente, com o mínimo de interferência política. Creio ser esse o melhor caminho, o que maior maturidade demonstra - e, tanto por culpa das centrais sindicais quanto das confederações patronais, reconheço que o mais difícil de empreender.

Comentários

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Retrato de Filipe Brás Almeida

Rasmussen está a desculpabilizar o Sócrates

«Portugal terá de dinamizar o mercado laboral, promover a requalificação de competências e fomentar uma política de responsabilidade social, até poder implementar a flexigurança» - Poul Rasmussen.

Mais valia dizer que Portugal tem de implementar a flexigurança até poder implementar a flexigurança.

Retrato de André Escórcio Soares

Julgo que focaste dois

Julgo que focaste dois aspectos fundamentais e que são extremos.
Por um lado a necessidade de uma maior flexibilidade dos contratos de trabalho e por outro lado o fim (ou alteração da forma de funcionamento) dos recibos verdes. A meu ver aqui reside o busilis da questão, Flexi (maior flexibilidade dos contratos) + Segurança (limitação dos recibos verdes, que é o mesmo que dizer que tem de existir sempre um contrato de trabalho ainda que flexível).

Bom post ;)

Retrato de Luís Lavoura

Segurança

Uma coisa que ainda não percebi no modelo dinamarquês, é onde é que está a segurança. Ou seja, o que é que há no modelo dinamarquês, a mais do que no nosso, que confere segurança ao trabalhador? Alguém me sabe explicar, com precisão?

Luís Lavoura

Retrato de Igor Caldeira

Protecção Social

Com inteira precisão, não pois não dediquei suficiente tempo para poder dizer-to. No entanto, pelo que consigo perceber e para lá dos efeitos práticos da maior flexibilidade (mercado mais dinâmico e por isso em que obter um trabalho é mais fácil) a componente protecção social é reforçada. Aliás, esse é um dos motivos pelos quais se desaconselha a transposição do modelo dinamarquês: a nossa Segurança Social não tem a saúde da SS dinamarquesa de há uns anos atrás. Quando eu me referi ao aumento dos impostos, era a isto que me referia. o Subsídio de desemprego na Dinamarca, ao que sei, pode chegar aos 90% do salário, ao passo que cá simplificadamente vai entre os 65% da remuneração média (ou o valor do SMN se o teu rendimento tiver sido igual ou ligeiramente superior ao SMN) e os cerca de 1000 euros.

Ou seja, a implementação do modelo ía custar mais dinheiro. É esta segunda parte que por vezes eu creio que alguns se esquecem, e que é preciso manter presente. Caso contrário, trata-se de mais uma "chinificação" (passo o neologismo) do trabalho.

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