
O líder do PS/Porto, Renato Sampaio, manifestou-se hoje "apreensivo" com a possibilidade de ser convocada uma manifestação de professores para as imediações do pavilhão do Académico do Porto, no sábado, onde os socialistas realizarão um comício nacional.
Segundo o dirigente socialista, a manifestação está a ser convocada por SMS e por email "de forma anónima" e, a concretizar-se, poderá levantar problemas de segurança, já que o PS conta juntar no seu comício cerca de sete mil apoiantes.
"Considero que uma manifestação convocada anonimamente com o objectivo de condicionar os socialistas é mais uma demonstração de práticas anti-democráticas", acusou Renato Sampaio.
Desde quando a realização de uma manifestação em frente de um congresso do partido político é uma prática anti-democrática? O anti-democrático parece-me outro...
Comentários
Não é o único
Já Vital Moreira se manifestou no mesmo sentido, de considerar ilegais manifestações que perturbam ou intimidam as reuniões do PS, a pretexto de que essas manifestações não tiveram pré-aviso.
Como é evidente, o direito à manifestação é inalienável e não pode ser limitado por um Estado democrático. Quaisquer pessoas devem ser livres de se reunir na rua e gritar uns disparates quaisquer a outras pessoas. Desde que não cheguem a vias de facto, é claro.
É aliás normal, em Estados democráticos, haver manifestações e contra-manifestações convocadas para locais muito próximos, por forma a que os manifestantes e os contra-manifestantes se possam insultar mutuamente. Nunca um Estado democrático proíbe tais práticas.
Luís Lavoura
E o Contraditório, hein?
Estamos numa fase inédita da nossa jovem democracia. As definições cada vez parecem mais relativas. Parece que apenas os apoiantes deste governo é que são democratas, é que quando se manifestam não fazem parte do monstro mitico dos reaccionários.
Algo vai podre no reino de Socrates...
Janeiro de 1975
Em tempos em que o país inteiro estava em convulsão e usar bombas era um argumento recorrente, tanto à esquerda como à direita, o CDS foi cercado no seu comício do Palácio de Cristal.
Lamento, mas discordo das vossas opiniões. Não posso concordar com esta coisa de alguém ir tentar boicotar um comício de um partido rival. Acho mesmo escandaloso se for verdade, e muito perigoso.
Imaginemos que de seguida os militantes do PS se reúnem e começam a cercar as sedes do PCP de cada vez que houver uma reunião desse partido. O efeito bola de neve seria inevitável.
Não me agradaria muito votar no PS em 2009, mas se for isso o necessário para dar uma lição ao PCP e fazê-lo ver que o Verão Quente já acabou, não hesitarei um segundo. Uma coisa é liberdade de nos manifestarmos. Outra é termos o direito de provocar até conseguir a confrontação directa - que é isso mesmo que eles querem, porque depois podem acusar o Governo, a polícia e o PS de serem fascistas. Quem se tenha dado ao trabalho de pegar nos velhinhos manuais de luta política de há 40 anos atrás (eu quando encontro relíquias desse tipo compro-as porque me dão gozo mas porque também me dão arrepios e me fazem pensar na sorte que tenho em ter nascido num país estabilizado e civilizado) percebe exactamente qual é o objectivo.
Mas quando os empurrões começarem, e daí descambarem para lutas corpo a corpo e pedradas e sei lá que mais, poderemos de facto, honestamente, sinceramente, acreditar que a culpa não é dos que foram cercar o comício do partido rival? Ou muito me engano, ou este tiro vai sair pela culatra. Ou, pelo menos, assim espero.
Dúvidas? Depois de mais de um ano de perseguições violentíssimas, o CDS passou de 7,61% em 1975 para 15,98% em 1976. O PS, como partido com maioria absoluta que é, é muitas vezes arrogante. Mas não é com técnicas manhosas, manipulatórias e mal intencionadas que será derrotado. Será com argumentos válidos. E a força não é para mim válida; de facto, não é sequer um argumento.
A manifestação visa
A manifestação visa contestar as políticas do partido de governo. Logo nada mais lógico que convocá-la à frente de um órgão de poder, ou mesmo um local onde os seus dirigentes se encontram reunidos. A comparação com uma operação de intimidação não tem nenhum cabimento. Os congressistas do CDS estavam indefesos e não tiveram nenhum auxílio das forças da ordem perante milícias de extrema-esquerda armadas. Insinuar que algumas senhoras de meia idade podem intimidar o dispositivo de segurança do governo, é muito fantasioso. Só se se sentirem intimidados pela opinião pública. E ainda bem que essa pressão existe.
Diga-se de passagem que a leitura política que se faz da festa socialista é precisamente contrapor um desagravo ao governo que foi tocado na sua "honra" por ter sido contestado na rua.
E se o cenário fosse outro?
Vamos supor que estavamos a falar de uma reunião política de um partido opositor deste governo, e que essa reunião era realizada numa região de forte implantação do partido do governo. A reunião começava e por "acaso" reunia-se uma manifestação de desagrado pela existência dessa reunião política. Os participantes da mesma eram apupados, apontados e alvo de ameaças. De estavamos a falar ? De um direito de expressão desses contra-manifestantes ou de intimidação pura ?
Passando para a realidade e já alguns anos depois do PREC estive em situações semelhantes a estas (no papel do apupado e em risco de ser alvo de agressões físicas) e sinceramente não me parece um acto muito democrático de parte de quem pratica este tipo de atitudes.
O direito à manifestações das nossas opiniões é incontestável mas não se deve confundir com atitudes de intimidação que rapidamente poderão ser manipulada para acções bem mais graves. Obviamente que o actual governo está a acenar demasiado com a bandeira da intimidação para diminuir o peso da contestação nas ruas, mas também compete aos verdadeiros opositores do actual governo comportarem-se de um modo mais maduro e democrático para não terem que ser presa fácil deste tipo de críticas. Não teria mais impacto uma presença em massa de professores vestidos de negro (por exemplo), mas silenciosos e sem apresentarem qualquer tipo de agressividade perante os particpantes da reunião do PS ? Até pode ser esta a real intenção da contra-manifestação dos professores ... ou não, logo se verá.
Proteção policial
Tal como escrevi no meu comentário anterior, é perfeitamente usual, num país democrático, haver contra-manifestações. E o que acontece nesses casos? Pois bem, a polícia, que está avisada, monta um dispositivo de proteção que impeça manifestantes e contra-manifestantes de andarem à batatada.
É isto que se faz, em qualquer país democrático. Nunca se proíbe manifestações.
Se o PS tem a ideia de que o seu comício corre o risco de ser substancialmente perturbado por uns manifestantes quaisquer, aquilo que deve fazer é pedir à polícia que monte um dispositivo de proteção ou que, pelo menos, esteja alerta e preparada para intervir.
Luís Lavoura
Um flop
Os organizadores contavam ter 5 ou 6 mil pessoas. Apareceram menos de 200. E, apesar disso, ainda houve pontapés e empurrões. A explicação para o facto de, numa área metropolitana de 1 milhão de pessoas se ter conseguido metade, num sábado, que Portalegre num dia de semana se deve a uma coisa muito simples: à maior parte das pessoas não deve ter agradado a ideia de ser a tropa de choque de uma qualquer força política (ao que parece, o PCP não foi, nem os sindicatos, ambos se desmarcaram desta manifestação).