Os Simpsons chegam ao cinema

Recordo-me de ver os Simpsons no Canal 1, no início do anos 90, uma vez por semana.
O governo da altura, que censurou o livro de José Saramago, deveria igualmente ter censurado esta série...

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Simpsons vs (?) Saramago

Boa tarde. Poderia concretizar? É que não percebi se está a falar a sério ou se é ironia. Problema meu, aceito. Obrigado.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Qual era o livro do saramago

Qual era o livro do saramago que era proibido comprar nos anos 90?

disclaimer

Em 1992, o Sub-secretário de Estado da Cultura, dr. Sousa Lara, impediu que a obra "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" concorresse ao prémio literário europeu. Apesar de o sub-secretário entender que a obra - que consiste numa recriação fictícia do que teria sido o período da vida de Cristo não mencionado pela Bíblia - "atacou o património religioso dos portugueses", as reacções de desagrado a esta medida do governo foram bastante fortes, e terão dado uma visibilidade internacional a Saramago que pode ter auxiliado a que mais tarde recebesse o Nobel. "Censurado", é, portanto, entre aspas.
O que eu quis dizer foi que, se o governo da altura se sentia incomodado com a expressão de determinados valores, poderia igualmente ter feito algo contra "Os Simpsons." Pelas temáticas abordadas e pelo recurso à inteligência (temperado pela figura de Homer Simpson), Os Simpsons apelavam ao espírito crítico e tiveram um papel silencioso mas importante na transformação de mentalidades junto das novas gerações - numa época em que a uniformidade cultural ainda era grande. Não será por acaso que grande parte dos espectadores dos Simpsons são hoje adultos - a própria série é para adultos e já atingiu a "maioridade", com quase 20 anos de emissões...

Retrato de Filipe Melo Sousa

Estou Esclarecido

Para o Ismael, o facto de um livro não receber um subsídio europeu (ou não o tornar elegível para tal) é "censura". Afinal, o Saramago queria era 20.000 ecus. É o mal da subsidio-dependência da "cultura". Traz estas confusões. Pois pelo mesmo prisma os Simpsons estão censuradíssimos. Nunca contaram com prémio europeu ou subsídios estatais.

Retrato de Igor Caldeira

Prémio ou não prémio

Filipe, creio que o que deve estar em causa não é se havia ou não subsídio, mas o facto de um membro do governo dizer coisas daquelas eter agido como agiu.
Será importante estar permanentemente a questionar se há dinheiro ou não há dinheiro, e com isso omitir os valores que são atacados? Pessoalmente, preocupa-me mais que neofascistas clericalistas sejam ministros que haja ou não haja prémios literários.

Retrato de Filipe Melo Sousa

parcial

o governo agiu de maneira parcial. como age qualquer pessoa ao atribuir, ou não atribuir o subsidiozito. eu pessoalmente acho criticável atribuir um prémio ao saramago, por todo o atentado à liberdade pessoal que é um discurso desse senhor. pior ainda: fazê-lo com dinheiros públicos.

mas não defendo a proibição da venda. é isso que faz toda a diferença entre a liberdade e a política da "leitura recomendada"

Uma postura liberal do governo PSD

Segundo o raciocínio do Filipe e de acordo com o espírito liberal (?) do governo da altura, o sub-secretário de Estado deveria ter anunciado que a participação num concurso desse género era apenas um incentivo à subsidio-dependência e que tanto os Estados-membros como a União Europeia dever-se-iam abster de atribuir prémios desse género. E, em conformidade, retirar Portugal do concurso.
Não foi isso que o governo defendeu, mas mesmo que fosse, seria suspeito; atribuir prémios que reconheçam o mérito não é exactamente a mesma coisa que atribuir subsídios para que uma arte ou ofício possam sobreviver. Ou será que, por exemplo,
O Prémio Ler/MillenniumBCP também é subsídio-dependência?... ou talvez não, já que agora trata-se de uma instituição privada que atribui "subsídios" a quem entender...

Retrato de Filipe Melo Sousa

O BCP tem tanto interesse

O BCP tem tanto interesse pela cultura como a Marlboro tem pela Fórmula 1. É uma maneira de promover a marca. Eu adoraria ver um governo português prestar tais declarações. Mas tenho noção que o PSD não é uma corrente liberal, sendo assim não respondo pelos seus juízos de valor, por demais ambíguos que estes tenham sido, e continuem a ser.

Acho estranha no entanto a dualidade de critérios. Porque será um juízo de valor legítimo na altura de promover uma obra, e já imoral no "momento" de não a promover (se é que existe um momento no tempo para tal "actividade")? Quando precisamente seria de esperar uma tomada de posição contrária. É quem defende a necessidade de subsidiar que tem o ónus da prova.

Retrato de Igor Caldeira

Proibição

A diferença está em que o prémio é literário, não político. Não se trata de verificar se o escritor é concordante com as posições do governo, mas se escreveu uma boa obra. Os critérios devem ser exclusivamente os literários.

Essa é uma parte da questão. A outra parte é a diferença entre a abstenção de apoio e a proibição. Quando proibimos, estamos a censurar. Quando não apoiamos, estamos apenas a fazer isso. O mínimo que o governo deveria ter feito era não apoiar - nunca proibir.

o comuna das vírgulas

O meu objectivo inicial com este texto era apenas assinalar a estreia dos Simpsons no cinema, evocando o pequeno contributo da série para a liberdade de pensamento - pelo menos num determinado escalão etário. Como é que em poucos comentários chegámos à avaliação de juízos de valor?
Como admirador que sou da OBRA LITERÁRIA de José Saramago, esqueci-me completamente que a mesma é, em Portugal, avaliada exclusivamente em função do seu percurso político, e que portanto a mínima referência ao escritor gera anticorpos.
Se o acto de defender (eu nem cheguei aí...) a obra literária de Saramago é o mesmo que legitimar, por exemplo, o seu consulado à frente do DN, lamento - isso é pura confusão.

Retrato de Filipe Brás Almeida

The Simpsons

Secamente é muito provavelmente a melhor série de televisão de sempre. Foi com muito gosto, que pude acompanhar desde o seu início quando ainda habitava no além-atlântico.

Terei de esperar que saia a versão não-dobrada. Que sacrilégio artístico. Honestamente acho que era capaz de pagar para não ter que ver os Simpsons dobrados.

Em relação ao Saramago, nunca o li, e quanto mais conheço da pessoa, menos compelido me sinto a ler as suas obras. Eventualmente dar-lhe-ei o benefício da dúvida, mas por enquanto não consta na minha pilha de prioridades livrescas.

Retrato de Filipe Melo Sousa

LOL

O estado Português podia apresentar 3 obras a concurso ao subsidiozito naquele ano. NENHUMA delas foi um livro do Saramago. A crítica da escolha, dos escolhidos e preteridos é um juízo de valor tão criticável como a própria escolha. Serão sempre escolhas subjectivas. No fim trata-se de fazer pagar por todos nós a propaganda a uma obra que já estava acessível a qualquer um que a quisesse comprar, e NUNCA foi censurada.

Mas acho piada à dissociação entre obra e ideologia. É possível tal coisa no mundo da literatura? É como ler o mein kampf e dizer que as políticas de pleno emprego são admiráveis, e dizer-se admirador do modelo social. Ou então ter o presidente da republica a comprar uma aguarela do mesmo autor no ebay para decorar o palácio de belém, e mandar a factura para os contribuintes. Afinal, é esteticamente agradável..

Retrato de Filipe Brás Almeida

RE:

«Mas acho piada à dissociação entre obra e ideologia. É possível tal coisa no mundo da literatura? É como ler o mein kampf e dizer que as políticas de pleno emprego são admiráveis, e dizer-se admirador do modelo social.»

Eu acho que não é possível, nem contribuiria para uma compreensão alargada. Mas há sempre quem discorda.

Retrato de Igor Caldeira

Faço minhas as palavras do Ismael

What a f***?

Comparar obras literárias com livros políticos?
Isso faz lembrar a PIDE, que levava "A Capital" do Eça das bibliotecas dos liceus porque confundiam com "O Capital" de Marx.

Filipe, essa não te saiu nada bem. Por vários motivos. primeiro, porque está visto que é descabido o que dizes. Segundo, porque ou não lês romances, ou então deves ter muito trabalho a procurar apenas literatura de anarco-capitalistas, o que não só deve ser tarefa muito difícil como (se houver algum escritor anarco-capitalista) deve ser uma seca tremenda. Pior que o Saramago. Já estou a imaginar.

"O homem aproximou-se da mulher e tentou roubar-lhe um beijo, tal qual o vil Estado burocrático-socialista rouba impunemente os rendimentos dos indivíduos. A mulher resistia e tentava desviar os seus lábios para o off-shore do amor."

Sim, isto pode não estar perfeito - se calhar, deveria inverter os papéis, porque isto de apresentar a mulher como um ser espezinhado pelo machismo deve ser pecado à luz do anarco-capitalismo, assim uma espécie de desvio feministo-socialista. Mas creio que a ideia fica.

Sendo eu uma pessoa que todos os dias pensa e lê sobre política, há mais vida para além dela. E mesmo que não houvesse, não é preciso estar confinado nas nossas leituras aos nossos quadrantes ideológicos. Aliás a única forma de termos um discurso coerente e racional é ler o máximo de perspectivas distintas. Das duas uma, ou mudamos de opinião porque concluímos que estávamos errados, ou mantemos a nossa opinião, mas desta feita mais sólida e mais nítida - fortalecemos a nossa segurança nas nossas crenças e ganhamos argumentos que antes não tínhamos.

Todos os que se resumem às leituras oficiais ficam iguais aos camaradas do Saramago. Com a desvantagem face a este último de mal saberem falar, quanto mais escreverem romances.

Retrato de Filipe Brás Almeida

Ideologia e Ficção

A ideia que eu tenho de não separar a ideologia subjacente a um autor de qualquer uma dos seus trabalhos, baseia-se na simples identificação da mensagem política da obra alargada (que nem sempre existe).

Para mim o julgamento negativo de um não implica o julgamento negativo do outro, e aqui discordo com o FMS. Por exemplo, posso não concordar com a mensagem política associado ao Oliver Stone, mas ele ainda está para fazer o filme que não gostasse.

Incidentalmente, acho a ideologia pessoal da Ayn Rand desatinado no mesmo grau em que qualquer uma das obras (das que li) são francamente mal escritas.

Retrato de Igor Caldeira

LOL

"Incidentalmente, acho a ideologia pessoal da Ayn Rand desatinado no mesmo grau em que qualquer uma das obras (das que li) são francamente mal escritas."

Vá, ao menos se não for no estilo em que eu escrevi há pouco já não será uma catástrofe completa.

àqui começa a tertúlia literária

ó Filipe, tu leste, por acaso, algum livro do Saramago?

dissociação

"É como ler o mein kampf e dizer que as políticas de pleno emprego são admiráveis, e dizer-se admirador do modelo social."

O Mein Kampf não é um romance. talvez o Filipe pudesse ler alguns romances de vez em quando. Proponho os seguintes: "A Insustentável Leveza do Ser" (M. Kundera) e "Cem Anos de Solidão" (G.G.Marquez).

Já agora, qual é a ideologia presente n' "O Process"o de Kafka? O anarquismo?...

Retrato de Filipe Melo Sousa

a querer-me impingir, malandro :P

"ó Filipe, tu leste, por acaso, algum livro do Saramago?"

Não, nem quero. E se um dia tiver um filho na escola que seja obrigado a ler, eu compro-lhe os apontamentos da Europa-América.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Do Feminismo

LOL, não tenho nada contra a publicidade ao Saramago em blogues pessoais. Tenho contra o facto desta ser feita à custa do meu bolso. Eu pessoalmente não gosto nem da pessoa nem da obra. Obviamente as ideias e os juízos de valor da sua obra são biased, e incutem subliminarmente, e mesmo abertamente, ideias com as quais não concordo, e que não são de todo inocentes.

Um juízo de valor então (já que me foi pedido) em relação às mulheres: de facto tenho mais facilidade em entender o universo masculino. Os homens são mais fáceis de ler do que as mulheres. Pois após duas palavras, percebo imediatamente se existe simpatia de parte a parte, ou se é melhor cada um seguir caminhos separados. Já as mulheres são muito bicudas e ambíguas. O cenário segundo o qual passam a vida espezinhadas é algo que me tenho habituado a ouvir. Não é partilhado pela maioria das mulheres, mas existem de facto algumas que atribuem a tal culpa para todas as suas contrariedades.

Depois uma que me mata é ouvir dizer que são mais sensíveis que os homens, e que os homens nunca as entendem. Serve sempre de arma de arremesso. Enfim.. só se for sensibilidade para entenderem as suas misérias que são um pouco todas iguais entre si. Afinal foram os insensíveis dos homens que produziram a integridade das grandes óperas, conceitos arquitectónicos, desportos.. e tudo aquilo que de facto é belo.

Mas segundo o parecer o Igor, é essencial participar das sessões das carpideiras feministo-socialistas, de modo a poder ter um dia um discurso coerente. Boa sorte ;)

Retrato de Igor Caldeira

As páginas de um livro transmitem mais cores que preto e branco

Pessoalmente, também não gosto da pessoa, e quanto à obra, de três que tentei ler só consegui acabar um livro. Agora, que ideias é que se incutem subliminarmente no "Memorial do Convento" ou em "Todos os Nomes"? [a menos que consideres que o facto de a personagem principal do Todos os Nomes ser um funcionário público se trata de uma perigosa tentativa de manipulação do leitor através de técnicas certamente aprendidas na URSS para levar o leitor a não odiar todos e cada um dos funcionários públicos e a pensar que há algum deles que até pode ser relativamente honesto]

Quanto ao feminismo, não, não simpatizo com a choradeira. O que quis dizer com essa passagem foi que pessoas que vêm política e ideologia em toda a parte acabam por fazer interpretações que não faziam parte da intenção. De facto, quanto escrevi aquilo não me passou pela cabeça qualquer guerra dos sexos. Quando terminei, achei que poderia ter essa interpretação, e outra ainda, esta se fosse dita por uma feminista radical: a de que eu era um porco fascista e sexista guiado por preconceitos de género que me levavam a colocar a mulher na posição submissa e o homem na dominante.

Como vez, Filipe, um texto pode ser interpretado de formas diferentes. Ao contrário do que os fanatismos de todas as colorações querem fazer crer, o mundo pinta-se de mais tons que o preto e o branco.

Retrato de Filipe Melo Sousa

acrecento

A obra científica e a obra literária são dificilmente discerníveis. No caso do Saramago não o são mesmo.

Citações não faço, que não me apetece fazer mais propaganda ao homem.

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