O telemóvel

Retrato de Luís Lavoura

Continuam a dar brado as imagens que foram divulgadas de uma aluna do secundário em discussão violenta com uma professora a propósito de um telemóvel.

Infelizmente, nas discussões e nas tomadas de posição que têm vindo a público, foca-se invariavelmente a indisciplina por parte da aluna e dos alunos, sem procurar ver as coisas de forma minimamente equilibrada.

É normal alunos com esta idade, a idade em que as glândulas sexuais andam hiperativas, desrespeitarem os professores. Eu próprio, que fui sempre um excelente aluno do ponto de vista técnico-científico, fartei-me de cometer desrespeitos aos professores e de perturbar o decorrer das aulas, ou de colaborar com colegas que praticavam tais coisas, quando era aluno do secundário. Não se pode julgar o comportamento de miúdos de 15 anos de acordo com os mesmos critérios que se usam para adultos de 45. É normal, se bem que indesejável e criticável, que miúdos de 15 anos cometam diversos atos de indisciplina escolar, passando inclusivé por tentativas de agressão a professores. Por exemplo, lembro-me de uma vez eu ter colaborado numa "brincadeira" que consistiu em colocar pequenos alfinetes, com a ponta virada para cima, na cadeira da professora, para que ela se picasse toda quando se sentasse (felizmente ela notou, pelos risinhos prevalecentes na turma quando ela se ia a sentar, que havia marosca, olhou para a cadeira e percebeu o que lhe tínhamos preparado).

É preciso também notar que o telemóvel é hoje, para uma adolescente, mais ou menos aquilo que o diário íntimo era para uma adolescente de há um século atrás. As adolescentes de hoje passam a vida agarradas ao telemóvel, a receber e enviar SMSs para os amigos e namorados, e a rascunhar outros SMSs que nunca chegam a enviar. O telemóvel contem os nomes e contactos de todos esses amigos, e tem gravadas as "conversas" via SMS que a jovem com eles realizou ou pretendeu realizar. É normal que uma jovem de hoje veja a confiscação do seu telemóvel com a mesma preocupação que levantaria, há um século atrás, a violação de um diário. Na cabeça da aluna, a apreensão do telemóvel pela professora poderia incluir por parte desta, mais tarde, a devassa da vida íntima da aluna. Isto poderá ajudar a explicar - juntamente com as tais gónadas hiperativas - o comportamento da aluna.

Um terceiro ponto que convem focar é que um professor que se quer dar ao respeito não pode cair na asneira de entrar em confronto físico com um aluno. É preciso afirmar claramente que a professora, neste caso, agiu (quase) tão mal como a aluna. A professora, literalmente, engalfinhou-se com a aluna, procurando fisicamente impedir que ela alcançasse o seu telemóvel. É claro que uma tal atuação, da parte da professora, só poderia estimular ainda mais a aluna para a luta, e os colegas todos para o gozo da situação. Uma professora que se queira dar ao respeito não pode estar a retirar ao aluno um seu objeto pessoal e até íntimo - como é o telemóvel - e depois a lutar ativamente contra o aluno procurando impedir que ele recupere esse objeto.

P.S. No mesmo sentido deste post, leia-se isto.

Comentários

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Veredicto culpada

"...sem procurar ver as coisas de forma minimamente equilibrada"

No entanto ao longo do teu comentário também não existe um equilibrio, quase que branqueando o que aconteceu. A interpretação de um telemóvel simplesmente como "um diário" é extremamente incompleta. Também fui aluno mais ou menos parecido ao que tu descreves. No entanto nunca existiu nenhum episodio igual a este do telemóvel e devo dizer que tinha colegas no mínimo "Hardcore".

Voltando ao telmóvel, se tivesse um diário de certeza que não tocava melodias na aula, nem eu sequer escreveria nele enquanto tivesse a decorrer a mesma aula. Mas julgo que o teu comentário é interessante no sentido em que espelha o que está a acontecer neste sociedade e como estamos a educar as novas gerações. Com esta desculpabilização total das acções dos adolescentes eles cresceram sem essa formação, julgar-se-ão acima de qualquer "culpa" quando tomarem uma acção que embora incorrecta no meio socia julgará correcta na sua mente. E como no mundo "dos adultos" não existirá "paizinhos" para a desculpabilizar sentirão uma enorme frustração quando as reacções acontecerem.

Esta será uma geração totalmente mimada (aliás a própria actitude desta aluna é reveladora disso mesmo). Aquela berraria é prova disso mesmo, de uma rapariga que ainda não cresceu para além dos seus 3 anos. A culpa daquele episodio não é do professor, é do aluno principalmente que já tinha idade para se comportar de forma um pouco mais civilizada. Existem vários angulos mas a verdade acaba por ser essa. Quem decidiu desrespeitar uma regra foi a aluna, quem não obedeceu à instrução foi a aluna, quem quis retirar o telemóvel indevidamente foi a aluna. Podes não gostar da maneira como a professora agiu mas isso não retira um pingo de culpa total desta rapariga.

Julgo que aquela criança é extremamente mimada e que não tem a mínima educação (e não por culpa dos professores nem do ensino publico mas sim da familia), no entanto ela não é mentecapta ou atrasada mental e estou "cansado" de tratarem os adolescentes como tal. Cometeu um erro deverá ser punida, tão simples como isso.

Já agora será que posso agredir um polícia que me confisque a minha carta de condução porque me apanhou a conduzir alcoolizado?
Gostaria que analisasses este caso exactamente no mesmo prisma de como analizas o caso da aluna.

Retrato de Luís Lavoura

Não desculpabilizei

É evidente que a aluna tem sérias culpas e deve ser severamente punida pelo seu comportamento. Isso é o que toda a gente anda a dizer na praça pública, e eu não o contradigo. Afirmo apenas que a professora também se portou mal, e que o comportamento da aluna deve ser julgado à luz daquilo que são comportamentos próprios da idade e da importância que os telemóveis atualmente têm.

Luís Lavoura

Mau entendimento

" É preciso afirmar claramente que a professora, neste caso, agiu (quase) tão mal como a aluna."

Foi a leitura que eu retirei do teu comentário (como este). No entanto admito que tive uma leitura errada.
Na minha opinião pessoal o problema nasce não na professora mas sim na aluna e nos seus pais. Aluna por não ter qualquer noção do sitio onde estava, do respeito por outra pessoa e o respeito pela instituição. E já tinha idade de a ter. Os país porque obviamente são da responsabilidade deles esta educação e não do sistema educacional ou da escola.

O que a professora fez foi perfeitamente normal, e caso a aluna tivesse reagido como uma pessoa normal não teria existido nenhum motivo para existir filmagem.

Mas a agravar isto tudo, e julgo que isto ninguém analisou, é o facto de um outro aluno achar digno de mostrar isto na internet. Não só revela que também não tem nenhuma noção de respeito ou de educação como revela uma extrema ausência de "neuronios pensadores" que lhe permitisse analisar correctamente a sua acção. Mostra que tipo de educação (ou ausência da mesma) que alguns alunos têm (e não é por viverem num bairro dificil ou mal economicamente). E a incapacidade de julgar o que é correcto do incorrecto e analisar as consequências das suas acções.

O problema de discursos que tentam aprofundar a temática é que têm uma tendência para esquecer o principal, e julgo que ao contrário do que afirmas não existem muitas pessoas na praça pública a responsabilizarem a aluna.

E vai ser interessante analisar o que vai acontecer agora. Como é que reagiram os pais? qual vai ser a punição desta aluna? e será que os pais também vão ser responsabilizados?

P.S. Mais uma vez vieram os nossos governantes (neste caso o Valter Lemos) dizer que é um caso isolado. Será que não têm vergonha de nos tentar enganar?

Retrato de Luís Lavoura

Resposta

"o problema nasce não na professora mas sim na aluna"

Isso não está claro no vídeo, a génese do problema. Se a aluna estava a utilizar o telemóvel na sala de aula, a atitude correta da professora seria ordenar-lhe que não o fizesse, ou então que saísse da sala enquanto falava ao telemóvel. Retirar o telemóvel das mãos da aluna foi uma má decisão. Se calhar, foi essa atitude da professora que esteve na origem do problema.

"o facto de um outro aluno achar digno de mostrar isto na internet"

Isso nada tem de especial. Na sociedade atual toda a gente acha que tem o direito de usar o seu telemóvel para filmar os outros, e depois pôr o filme na internet. O aluno agiu da mesma forma que muitos adultos teriam feito: viu uma coisa catita e gira, filmou sem pedir autorização a quem era filmado, e pôs o filme na internet sem pedir autorização aos filmados. Infelizmente, procedimentos destes são correntes hoje em dia.

"a incapacidade de julgar o que é correcto do incorrecto"

Essa incapacidade é corrente em matéria de fotografias e filmagens, hoje em dia. Não é só o aluno quem exibe tal incapacidade.

"será que os pais também vão ser responsabilizados?"

Espero que não! Eu fiz muitos disparates quando era aluno do secundário, e acho que seria ridículo ir responsabilizar os meus pais por esses disparates que eu cometi. Os pais não têm culpa daquilo que os filhos fazem, exceto em casos muito particulares.

Luís Lavoura

Contra-resposta

Vamos por pontos:

1-Ou bem que analisamos o que aconteceu, ou bem que vamos atrás para verificar "a génese do problema". O que aconteceu foi que uma aluna desrespeitou uma norma da escola, foi-lhe retirado o telemóvel e a aluna desrespeitou a professora, fisicamente inclusive. Se pegares no teu raciocinio então o que a aluna deveria ter feito era, caso julgasse ter razão, apresentar uma queixa. Em qualquer situação da nossa vida não pactuamos com o estilo "justiça por mãos próprias" porque é que este caso é diferente? Se por outro lado queremos ir à "a génese do problema" então teremos de saira da sala de aulas e da escola propriamente dita. Pois o genese deste problema está na familia. Este problema é identico ao que acontece tantas vezes em cafés e restaurantes: as crianças querem algo, os pais ignoram, a bébé começa a chorar e os pais tentam ignorar (o que me leva à loucura) e depois quando não têm mais paciência dão-lhes o que querem. Tudo nasce de pequenos gestos que existem ou não existem e a falta de educação que esta aluna demonstra não veio da escola mas sim dos pais. Portanto seria muito interessante antes de sequer ir aos professores, se queremos mesmo analisar a genese do problema analisar onde ele começa e não no elo mais fraco deste tipo de educação.

2-"Isso nada tem de especial" Julgo que é extremamente relevante. Não compreendo como o facto de o aluno achar aquele incidente "... uma coisa catita e gira" não tem nada de especial. Já estou a ver que no caso do Alcino (espacado até à morte por um grupo de skins) se um deles tivesse filmado e posto na net, não seria nada de especial pois ele apenas achou esse facto "...uma coisa catita e gira". (desculpa o exagero deste exemplo) Já agora julgo que achar aquele incidente "giro e catita" é um bocadinho mais grave que o facto de não pedir autorização.

3-Essa incapacidade é extremamente relevante para esta analise (e tem sido recorrente nos casos com adolescentes). Imagina se fossemos nós ñunca poriamos as nossas caras num filme deste tipo, nem filmariamos as caras de nossos amigos. Isto só existe pois as pessoas julgam-se impunes e não verificam que o que estam a fazer é errado. Para mim isto já é demasiado preocupante, mas para agravar a situação é (ao contrário do que julgo que pensas) a incompreensão do mundo actual. Colocar aquele filme na net era um risco demasiado elevado para ele não ter em linha de conta quando o fez. É esta ignorância que também me assusta imenso.

4-Julgo que pela idade que penso que a aluna tem (menos de 16 anos) eles são legalmente responsáveis e como tal deveria ser responsabilizados, ou pensas que neste caso não se deve cumprir as regras. Já agora:
"...acho que seria ridículo ir responsabilizar os meus pais por esses disparates que eu cometi"
Ou seja não se responsabiliza os pais, não se responsabilisa os alunos, então quem é responsável?

Além de que sim, se calhar os teus pais poderiam ser responsabilizados pelos teus disparates, dependendo da altura que tu os cometeste. Não é nenhuma novidade, e devo-te dizer era algo que tinha em linha de conta quando decidia fazer alguma coisa.

Já agora gostava de saber, que tipo de punição é que achas que esta aluna deveria ter?

P.S. "Os pais não têm culpa daquilo que os filhos fazem, exceto em casos muito particulares" Então os pais são responsaveis por quê?

Retrato de Luís Lavoura

"não se responsabiliza os

"não se responsabiliza os pais, não se responsabilisa os alunos, então quem é responsável?"

Esta mania de exigir que todas as coisas tenham um responsável adulto que possa ser punido, é muito típica dos dias de hoje.

Quando o meu filho mais velho era um bebé de dois anos, tinha a mania de empurrar outras crianças. Nós (a mãe e eu) bem lhe dizíamos para não o fazer, mas ele insistia. Um dia estava com uma menina da mesma idade no alto de uma estrutura para brincar, empurrou a menina e ela caiu de costas de uma altura de um metro. Felizmente a menina não se magoou. Mas suponhamos que a menina tinha partido o pescoço e morrido. Será que a mãe e eu deveríamos ser considerados responsáveis pelo disparate que o nosso filho de dois anos tinha feito? Eu julgo que não!

Aqui há uns tempos, esse mesmo meu filho, agora com sete anos, foi empurrado por um colega no recreio da escola e bateu com a cabeça numa aresta de cimento. Felizmente só fez um golpe, mas suponhamos que tinha partido a cabeça e morrido. Será que os pais do menino que o empurrou deveriam ser considerados responsáveis pelo disparate que o filho fez? Eu penso que não!

Respondendo diretamente à pergunta, eu penso que neste caso a aluna pode e deve ser responsabilizada pelos seus atos. Ela, nunca os pais. Agora, não sei qual a punição que se deva aplicar. Stran tem algumas propostas? Penso que colocar a rapariga num centro de reeducação seria uma pena excessiva e inapropriada.

"que tipo de punição é que achas que esta aluna deveria ter?"

Não sei. No meu tempo, podia-se chumbar o ano por faltas. Os professores puniam os alunos dando-lhes uma falta por mau comportamento. Seria talvez uma punição a considerar. Mas não sei se hoje em dia é possível.

Luís Lavoura

Legalmente são

Em quase todos os casos sim os pais são responsaveis legais desses actos. O nível de responsabilidade depois tem de ser analisado.

Julgo que quando se cria um filho a responsabilidade de muito do que acontece é mesmo dos pais. Que não seja pois eles são os modelos que as crianças seguem no inicio da sua aprendizagem. É obvio que cada caso é um caso e não tenho conhecimento suficiente para analisar por completo este episodio. Mas do que vi os pais também são responsáveis (por causa da falta de respeito da filha) e devem de ser responsabilizados. Ao contrário do afirmas não existe nenhuma moda para responsabilizar os pais, sempre foi assim, actualmente acontece é a moda do contrário, destes descurarem essa responsabilidade e a verdade é que se alterassemos essa responsabilização para os filhos (pelo menos a partir de certa idade) até poderia ser benéfico. O problema é que essa mudança não ocorreu, e neste momento abandonou-se a responsabilização dos pais e dos filhos. Para tentar encher este vazio tentaram responsabilizar os professores pelos actos dos filhos (e é nesse contexto que não concordo muito com a tua análise deste acto).

Noutro dia vi o seguinte episodio (só a parte da mãe):
A professor ao passar por um corredor levou um calduço, a professora reagiu (salvo erro com uma estalada) e a aluna não foi de modos e respondeu-lhe na mesma moeda. (Até agora julgo que ambas agiram mal, embora o episódio mais grave foi da aluna que iniciou este episódio). Resposta da mãe em directo quando lhe perguntaram da acção da sua filha:
"-agiu bem, deveria é ter dado mais porrada!"

Agora respondendo à tua questão:
"No meu tempo, podia-se chumbar o ano por faltas. Os professores puniam os alunos dando-lhes uma falta por mau comportamento. Seria talvez uma punição a considerar. Mas não sei se hoje em dia é possível."
Não é possível e esse é um dos maiores problemas que se criaram no ensino público e que explicam muito do que acontece actualmente.

Retrato de Pimentel

Chumbar era o ideal

E mesmo que secalhar alguns alunos não se importem de chumbar, no fundo todos querem passar.
Mas chumbar está fora de questão para a nossa ministra. Têm que passar. Aprender ou não é irrelevante.
As suspensões, por exemplo, dão como justificadas as faltas durante tal suspensão. É portanto umas férias.
Enquanto não se responsabilizarem os alunos, estamos todos feitos.

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1323672&idCanal=74
Ao que parece, a rapariga vai a Tribunal de Menores. Pode ser que os outros meninos pensem no que lhes pode acontecer antes de agredirem um professor.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Oportunidades Rejeitadas

A sociedade tem de dar uma oportunidade aos alunos. Se estes mostram de forma reiterada que não se adaptam ao meio escolar, ou mesmo que o perturbam, devem ser afastados para o mundo profissional. Irremediavelmente, com estes elementos o nível de ensino vê a fasquia baixar. Uma escola com passagens administrativas e sem avaliação é uma péssima escola.

A política autista dos 100% de sucesso assinala claramente aos alunos que eles nada têm de fazer para passar de ano. Pior: que em caso de insucesso é o professor que é sancionado.

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