Há uns 15 anos, quando a TVI nasceu, a revista Sábado de então publicou um cartoon que já na altura me pareceu profético e que por isso gravei na minha memória. As duas personagens do cartoon eram um anjo e um diabo. O primeiro vira-se e diz:
- Então, agora que a Igreja Católica vai ter uma estação de televisão, deves estar danado!
- Nada disso. - retorquiu o diabo - Só há duas hipóteses: ou a televisão é muito beata e não tem audiências (eu ganho!) ou a televisão é um sucesso e não pode ser lá muito católica (eu ganho!).
Uns 7 ou 8 anos depois assim foi: o Big Brother, que Emídio Rangel (o das italianas de protuberâncias mamárias ao léu e das meninas da meteorologia com os Pilares de Hércules por baixo das mini-saias) recusou por discordância ética, foi o impulsionador da TVI.
Casos há em que o facto de os fanáticos religiosos não estarem à altura do moralismo que destilam acarreta consequências graves. No entanto, em muitos outros os efeitos só podem ser positivos.
O bom funcionamento da economia de mercado tem um efeito civilizador fantástico, e que o digam os eslovenos. Li que a televisão
líder de mercado por aquelas bandas o é
muito por consequência da sua generosa oferta de programas pornográficos. Sucede que a holding que controla a televisão em causa é detida por uma sociedade fundada pela
Conferência Episcopal da Igreja Católica de Maribor.
Só não percebo se o objectivo é verdadeiramente civilizado (fazer dinheiro) ou se existe alguma agenda oculta para tornar os eslovenos viciados em pornografia, por um lado, ameaçando-os com as chamas do Inferno, por outro.
Sobre isso, o cartoon que li quando tinha 9 ou 10 anos nada dizia.
Comentários
Quotas para o Inferno, please.
Infelizmente, para os que acreditam na existência do céu e do inferno, as desigualdades a nível material neste mundo são um excelente indicador para o destino no além.
Aquela imagem romântica de que os pobres são sempre os coitados, vítimas das forças capitalistas mas puros seus valores, não é de facto uma imagem excessivamente realista.
Se pensarem bem, por muito que isto me custe escrever, a realidade mundana e a realidade celestial são bem mais cruéis. A fronteira entre o bem estar material e o bem estar no além é mais ténue do que muitos julgam.
É talvez mais fácil de corromper o espírito de uma pessoa desfavorecida. A tentação por bens materiais que sempre desejaram é maior, e a formação base que estrutura a própria pessoa é por vezes igualmente desfavorecida. Infelizmente, também, é bastante verosímil que os efeitos do desenvolvimento numa família disfuncional sejam transmitidos às gerações seguintes.
Ressalvo, no entanto, que não podemos generalizar estes argumentos, e não podemos esquecer que cada indivíduo é em si um indivíduo e vale como tal; a origem familiar não é o único pilar no desenvolvimento de uma pessoa. Escrevo isto apenas para fundamentar a minha tese (minha e só minha) da correlação entre de desigualdade material e a, potencialmente existente, desigualdade celestial.
Pergunto, qual é o intuito de deste tipo de programação? Haverá algum objectivo redistributivo dos lugares celestiais? Quem vê esses programas? Os mais favorecidos ou os mais desfavorecidos?
Efeitos redistributivos dos lugares haverão de certeza, com este tipo de programação os responsáveis do departamento das telecomunicações da empresa mais antiga do mundo, a Igreja, acabaram por renunciar o lugar no céu, outrora assegurado pelo celibato (pelo "celibato"), em troca de um HOT SPOT.
NOTA 1: esta opinião é de inteira responsabilidade de Hardcandy, um mero leitor, não espelha de forma alguma a opinião deste blog nem do MLS
NOTA 2: Antes que o leitor mais enraivecido desate a lançar críticas à minha opinião sobre os destinos no mundo do além, peço desculpa se causei alguma ofensa. O intuito não foi de ofender mas sim de fazer reflectir sobre a potencial correlação.
Televisão?
A televisão é aquela caixa que se ligava, na qual apareciam pessoas a mexer e a falar não era?
:-)