

É precisamente esse um dos maiores dilemas da liberdade, e mais especificamente da democracia: a necessidade, e ao mesmo tempo a impossibilidade de se auto-limitar. Esses dois factos antagónicos, põem inclusive em causa , do meu ponto de vista, o pressuposto de que a liberdade (conceito filosófico) existe. Pois observem as duas alternativas:
1) Sobre a necessidade de limitar o extremismo em democracia: é ingénuo acreditar que o princípio da democracia é um garante da mesma. A meu ver, partidos que pretendem derrubar a democracia por via da mesma, deviam ser impedidos de o fazer por via legal, pois eles não estão a aceitar à partida as regras do jogo em que se propõem entrar. Se queres entrar no jogo democrático, tens de aceitar as suas regras. Pois mesmo se instituíres uma ditadura, por via democrática, no acto de chamar a ti um poder ditatorial ganho nas urnas, estás a por fim à legitimidade que te empossou, perdendo imediatamente o direito ao mesmo. Afinal a fonte do teu poder é o exercício democrático, e o exercício democrático encontra-se recém-extinto. A sociedade teria então toda a legitimidade em retirar o poder a esse ditador, inevitavelmente por via da força. É paradoxal um liberal defender o direito a uma ideologia extremista ser sufragada, se ele defende que no dia a seguir terá de ir pegar em armas para reconquistar a liberdade da qual concedeu a perda. A democracia terá inevitavelmente de se auto-limitar de uma maneira ou de outra, nem que seja através da restrição de comportamentos auto-imunes. Este paradoxo da liberdade engloba todas as nossas acções, e inclusive o criador do universo. O que nos leva assim ao ponto 2:
2) Sobre a impossibilidade de limitar eleitoralmente a expressão anti-democrática: Uma sociedade democrática ao impedir certos movimentos de se introduzirem no jogo eleitoral, está a restringir a democracia ao simples facto de votar na sua lista. Este princípio levado ao seu extremo leva-nos a estados auto-denominados "democráticos" ou "populares" que nada de democrático têm. O mesmo dilema coloca-se em relação a um deus criador que não pode criar o universo de acordo com a sua vontade. De acordo com o paradoxo da omnipotência:
Se deus é omnipotente, pressupõe-se que ele pode tudo, inclusive criar matéria do nada. Então a questão é o seguinte: deus pode criar uma pedra que não consiga carregar? Se pode, ele não consegue carregar a pedra, logo não é omnipotente. Se não pode já não é omnipotente.
Comentários
Fins e meios
Filipe,
A democracia não é um fim em si mesmo. É um meio para a selecção dos representantes dos cidadãos no exercício do poder. Se a democracia é elevada a fim, degenera inevitavelmente em ditadura da maioria ou guerra entre gangues.
Por essa razão o princípio essêncial dos regimes mais próximos de um ideal de liberdade é a limitação e separação de poderes, consubstanciada em regras constitucionais que procuram impedir o abuso por parte da maioria, bem como a existência de mecanismos de fiscalização mútua que permitam penalizar esses abusos no caso de existirem.
Bom post.
Gostei do post FMS.
Algumas ideias que surgiram:
«Sobre a necessidade de limitar o extremismo em democracia»
Eu daria outra perspectiva sobre este tema. O que estamos neste caso a chamar de extremismo, chama-se extremismo justamente por ela ser limitado em termos de níveis de aceitabilidade geral entre a população.
Razão pela qual ninguém chama o PCP (que conta com o apoio de cerca de 10% dos eleitores) um partido de extrema esquerda, quando provavelmente o devia ser.
Também gostei do teu comentário Migas, mas levantava aqui uma sugestão.
Democracia é um umbrella term que representa um significado diferente para cada pessoa. Se o compreendermos como a maioritanismo tirânico, obviamente ela não pode ser um fim. Mas se compreendermos a democracia como o direito de autodeterminação (sobre a governação e demais estruturas de poder) de uma população, então ela é e tem de ser, na minha ideia, forçosamente um fim.
Um post inteligente. Alguns
Um post inteligente. Alguns comentários.
"Sobre a necessidade de limitar o extremismo em democracia (...) A meu ver, partidos que pretendem derrubar a democracia por via da mesma, deviam ser impedidos de o fazer por via legal, pois eles não estão a aceitar à partida as regras do jogo em que se propõem entrar."
Quem define o que é ou não extremismo (aliás este aspecto é brevemente referido no ponto 2 do post)? Basta alguém querer alterar as regras de decisão no sistema político para ser considerado extremista? É extremista e anti-democrático quem defender um sistema de círculos uninominais onde quem tem mais votos ganha, como o que existe no Reino Unido, e que impede uma representação fidedigna da vontade do eleitorado num dado momento? É extremista quem defender um uso mais extenso do referendo na tomada de decisões? Estes são apenas alguns exemplos de propostas de alteração de regras de decisão política (por exemplo em Portugal) que alguns vêem como perfeitamente normais e desejáveis, porque aperfeiçoam a Democracia, e outros consideram como sendo ideias extremas que iriam desvirtuar a Democracia. E basta olhar para a história: não há muito tempo era considerada uma ideia extrema e perigosa para a "Democracia" dar o voto às mulheres e a minorias de outras "raças". Quem nos diz que o que hoje vemos como extremo não será considerado no futuro como algo normal numa Democracia? Muito provavelmente, se um Ateniense da época de Sócrates chegasse hoje a qualquer país dito Democrático, não o reconheceria como tal, dado o carácter directo da Democracia Ateniense em contraste com a representatividade das Democracias actuais.
"Pois mesmo se instituíres uma ditadura, por via democrática (...) estás a por fim à legitimidade que te empossou, perdendo imediatamente o direito ao mesmo. (...) A sociedade teria então toda a legitimidade em retirar o poder a esse ditador, inevitavelmente por via da força."
Exacto. Todo aquele que acha que não vive (mais) numa Democracia tem legitimidade (apesar de não ser claro o que tal quer dizer neste caso...) para lutar pela sua (re)instauração. Genericamente, mas nem sempre, só terá sucesso se uma fracção significativa da população, quiçá uma maioria, tiver a mesma opinião. Digamos que a vontade da maioria volta a fazer-se ouvir na rua em vez de nas urnas.
"É paradoxal um liberal defender o direito a uma ideologia extremista ser sufragada, se ele defende que no dia a seguir terá de ir pegar em armas para reconquistar a liberdade da qual concedeu a perda."
Não, não é. É ser-se suficientemente humilde para reconhecer que não se é portador da Verdade, ou conhecedor do Significado do conceito de Democracia. Que todos digam o que tenham a dizer e que todos tenham um voto. Se após a maioria decidir, esta pretender revogar a sua decisão encontrará meios para o fazer, mesmo que já não o possa fazer pelo voto. Antes o perigo dum ditador ser eleito do que viver sob uma ditadura disfarçada (ou com alguns elementos) de Democracia, uma ditadura do "consenso" forjado por elites interessadas em que apenas um muito restricto conceito de Democracia seja considerado aceitável. Parece-me que o Migas já engoliu esse isco, e a cana também.
Muito bem! muito bem!
Muito bem! muito bem!