
Como bem sugere Stran neste comentário, e como também é sugerido pelo guru Pedro Arroja neste post, o atual período (neo-)liberal pode muito bem terminar com a presente crise financeira.
Antes do atual período liberal, houve na história económica moderna um outro período ainda mais liberal, um período em que trabalhadores se movimentavam livremente em busca de trabalho de um país para outro, e em que as mercadorias fluíam, igualmente sem entraves, nas trocas internacionais: o período da Belle Epoque. Esse período terminou com a catástrofe da Primeira Guerra Mundial. A liberdade económica desse período não parece ter conduzido a bons resultados...
O presente período carateriza-se por uma liberdade enorme nos mercados financeiros. O dinheiro flui sem entraves de um país para outro, os bancos dão generoso crédito a quem lhes peça, e novos produtos financeiros foram criados praticamente sem supervisão das autoridades estatais. O resultado de tanta liberdade está à vista.
Comentários
Assustador
É sem duvida um cenário assustador o que aí vem.
Com a crise de 2001 os investidores/especuladores viraram-se para dois produtos: mercado imobiliario e economias emergentes. A onda expeculativa fez mais uma vez os mercados crescerem muito acima do que era sustentável. E enquanto as economias emergentes ainda são lucrativas o mercado imobiliario acabou de rebentar trazendo milhões de euros de prejuizo e algumas falências. O pior é que não aprendemos a lição e existe uma forte cultura do empurrar a crise para a frente.
Neste momento os investidores/especuladores estão a entrar num dominio que julgo ser muito perigoso: matérias-primas. E não falo só do petroleo, falo de cereais, café, e noutro dia já ouvi um amigo meu falar em investir em cenouras e costeletas de porco!!!
Ou seja estamos a iniciar um periodo inflaccionista baseado não no crescimento economico real, mas no crescimento especulativo.
Ora se juntarmos a este facto o endividamento elevado da população faz com que não exista neste momento nenhuma "folga" para amortecer esta crise. Quero dizer que o Banco Central não poderá nem descer a taxa indexante (sob pena de não controlar a inflação) nem aumenta-la (sob-pena de arruinar a já pobre situação financeira das populações). Ou seja o que vier aí não tem nenhuma forma de poder ser "amortecido" o que é assustador.
Não compreendo é como que por duas vezes consecutivas se permite cometer o mesmo erro sem nenhuma intervenção. Já muito antes da crise de 2001 se ouvia falar da bolha especulativa nas dot.com e no entanto permitiu-se que esta enchesse a limites inaceitáveis. passado 6/7 anos também há muito que se falava na bolha especulativa no mercado imobiliário e mesmo assim não se faz nada. O que espero é que não deixemos que uma terceira vez se cometa o mesmo erro deixando inflaccionar a bolha especulativa nas matérias primas pois depois dessa não existe mais nenhum mercado para especular e sentiremos não a crise de um periodo especulativo mas sim de três periodos especulativos todos na mesma altura.
Pior é que ao longo deste periodo a classe média sofreu uma forte erosão (Portugal é um bom exemplo) não sentido no seu dia-a-dia a expansão que existiu. Dificilmente aceitará tão facilmente as medidas de contenção que vão existir o que levará a fortes agitações sociais. Aliás elas já acontecem neste momento só que ainda estão abafadas no nosso dia-a-dia. Um crise financeira/económica poderá a expor todas essas tensões e aí sim temos um problema que não sei se estamos preparados para lidar...
Parabéns pelo post que faz já a antecipação do que poderá acontecer, e sendo o vosso um movimento liberal é necessário que se preparem para o futuro, antes que ele apareça inesperadamente.
Costeletas e cenouras? Porque não em alhos e bugalhos.
Tenho algumas dúvidas quando fala em intervenção, como pode o Estado ou os órgãos reguladores intervir numa situação como a de dot.com ou agora na de sub-prime? Quais são as formas de intervenção que sugere para estes dois casos?
Num mundo globalizado, não seria má ideia mudarmos de escala de análise, em vez de olharmos para cada um dos países isoladamente, faria mais sentido olharmos para a população do globo. E nisto verificamos que com a globalização a pobreza diminuiu a nível mundial, os países que outrora eram considerados como pobres, viram finalmente alguma prosperidade no seu país. Eles constituem agora um grupo de países respeitável, já que são países como a China, a Índia, o Brasil, entre muitos outros que estão a sustentar a prosperidade global nesta época agitada em que vivemos.
Vários estudos internacionais indicam que Europa é a única região do globo que perde, ou que ganhe menos, por isso é provável que Portugal venha a beneficiar menos com este fenómeno já tão enraizado.
Não podemos esquecer que a recente crise do sub-prime tem como origem a falha da parte dos vários agentes que dão suporte ao funcionamento do mercado e não ao mercado em si, que vão desde a reguladores às agências de rating.
Relativamente à sua crítica em relação à especulação das matérias primas, não podemos esquecer que a União Europeia e os EUA têm o hábito de intervir no mercado para manter os preços das matérias primas artificialmente baixos. Esta política não correcta pois acabou por condenar os países exportadores ainda à mais pobreza…novamente estamos aqui numa situação de escala de análise.
Algumas soluções para o passado
"Tenho algumas dúvidas quando fala em intervenção, como pode o Estado ou os órgãos reguladores intervir numa situação como a de dot.com ou agora na de sub-prime?"
- Regulamentando o crédito em geral. Era uma solução que rapidamente teria terminado com o subprime.
- Aumentando as taxas de juro, era outra forma de limitar.
- Regulamento o acesso ao crédito por parte dos bancos.
As próximas soluções só me lembrei agora e não sei se fazem sentido:
- Limitando o acesso a determinados mercados. Os mercados de "alhos e bugalhos" servem para fazer hedging, ou seja minimizar o risco e não para especular. Se se permitir que esta febre especulativa entre nestes mercados então estaremos a permitir a viciação e deturpação completa deste instrumento, sendo que acontecerá exactamente o propósito para que foram criados. Em vez de minorar o risco estará a aumentá-lo
- Extinguido alguns produtos "supostamente" financeiros: existem no mercado alguns produtos que se assemelham mais a verdadeiras apostas do que a produtos financeiros. Quem quiser apostar que vá para uma casa de apostas...
Bem são algumas soluções que me ocorreram em 5 mn, acredito que são alvo de criticas mas poderão ser melhoradas.
cada macaco no seu lugar
- Os bancos tentaram satisfazer uma necessidade no mercado, emprestar dinheiro àqueles que de uma forma geral têm dificuldade em conseguir um crédito, para poderem comprar a sua casa e começar o processo de acumulação de riqueza. A regulamentação excessiva seria o fim do microcrédito, que está tanto na moda como meio de reduzir a pobreza.
- O FED ao contrário do BCE tem como objectivo harmonizar dois objectivos contraditórios, que é o de controlar a inflação e garantir estabilidade no emprego, e o que tem feito não é mais do que cumprir o seu objectivo.
- Os Bancos já têm limites de crédito, e de criação de moeda.
- Não podemos esquecer que os especuladores são os que garantem liquidez no mercado, são eles os agentes que permitem o mercado superar as crises, ao faze-lo diminuem o risco nos mercados.
Em relação ao seu último ponto pode sugerir a que produtos refere?
Banca de especulação
"A regulamentação excessiva seria o fim do microcrédito..."
É excessivo da tua parte comparares o microcrédito com o mercado de subprime.
"Os bancos tentaram satisfazer uma necessidade no mercado, emprestar dinheiro àqueles que de uma forma geral têm dificuldade em conseguir um crédito, para poderem comprar a sua casa e começar o processo de acumulação de riqueza. "
Esta é uma visão demasiado romantica deste tema, os bancos arriscaram em demasia e se as consequências desse facto ficasse apenas contido em alguns bancos sem ter um efeito de propagação dava uma de "liberal" e não me importava nada com esse mercado, que muito honestamente não é o meu.
O problema é que isso não é a realidade e se existe uma falha de autoregulamentação, então tem de ser regumentado pelo Estado.
Efectivamente alguns instrumentos foram para cobrir riscos e não para especular. Estes ultimos nunca deviam estar no mercado.
É por causa destes que os mercados actualmente são uma "ciência" oculta.
"Os Bancos já têm limites de crédito, e de criação de moeda"
Então têm de ser mudados para evitar o que aconteceu!
"Não podemos esquecer que os especuladores são os que garantem liquidez no mercado, são eles os agentes que permitem o mercado superar as crises, ao faze-lo diminuem o risco nos mercados."
Bem se achava que a tua visão dos bancos e dos seus créditos de risco, a dos especuladores bate tudo! Só um pormenor onde estão eles agora que existe um problema de liquidez (afinal eu tão preocupado e bastava chamar os especuladores para resolver esse problema).
Julgo que estás um bocadinho... só mesmo um bocadinho enganado. Um especulador fazexactamente o contrário do que tu afirmas, ele não diminui o risco de mercado, faz exactamente o contrario e são eles que empurram o mercado para a crise, não o contrário.
Não confundas investidores com especuladores, uns fazem analises e nunca perdem de vista dos fundamentais os outros mandam bitaites (mais ou menos fundamentados), isto é, acordam virados para o lado direito da cama e dizem que o mercado vai subir.
Aliás esse é mesmo o grande problema dos mercados financeiros actuais, estão cheios de especuladores e chegou a tal nível que julgo que alguma banca de investimento deveria ser apelidada de "banca de especulação".
Se não existisse especuladores quase que te asseguro que hoje já não sentiamos esta crise como estamos a sentir, pois ela teria sido antecipada e diluida no tempo.
"Em relação ao seu último ponto pode sugerir a que produtos refere?"
A memória atraiçoa-me mas são tipicamente derivados de derivados (e quase que acrescentava de derivados)!
Mitos e adamastores
De uma forma geral acho que está a misturar demasiadas coisas e às vezes o encadeamento das ideias não é clara, mas acho que alguns aspectos as nossas opiniões não são assim tão diferentes.
Não é princípio do mercado esteja em causa, apenas precisa de uma melhor regulamentação em alguns sectores. Não é o princípio do mercado que causa as crises, são alguns agentes que actuam no mercado que os causam, mas não nos podemos esquecer que é o próprio mercado que acaba por superar a crise, contudo reconheço que pode levar algum tempo, e como alguém o disse a “longo prazo estaremos todos mortos”. Mas nenhuma das crises ditou o fim do sistema em que vivemos, ao contrário de sistemas controlados administrativamente como o bloco soviético nos demonstrou ser possível.
Não se pode dizer que vivemos numa época de capitalismo puro, afinal os mecanismos estabilizadores automáticos existem, por vezes em excesso e injustificados. Pragmático como é, creio que o próprio Keynes entraria em estado de choque ao ver como alguns destes mecanismos estão a funcionar. A obra e pensamento de Keynes foram muito incompreendidas pelos que se apelidam de Keynesianos, que não actualizaram a sua estrutura de raciocínio desde os anos 70. Não esqueçamos das recomendações especulativas ao Governo Britânico de Keynes sobre a moeda espanhola.
Voltando ao seu texto. O crédito subprime e do microcrédito têm em comum a garantia deficiente, mas quem aceita emprestar que assuma o risco. O que aconteceu no caso do subprime é que houve um problema de “principal/agente”, onde angariadores defenderam apenas os seus próprios interesses e não o dos bancos, foi um dos pilares do mecanismo que falhou. É um aspecto que se viu, se aprendeu, e que vai ser melhorado.
Os produtos sintetizados que fala servem para cobrir o risco financeiro. O risco financeiro é uma coisa muito, mas muito complexa, é tanto ou mais complexo do que os fenómenos da natureza, do qual conhecemos também apenas uma ínfima parte. Só há pouco é que os modelos matemáticos que dão suporte se afastaram (ainda não completamente) dos movimentos brownianos para incorporar outras áreas como Teoria dos Valores Extremos e Funções Cópula. Sobre o risco de liquidez, ainda não há nenhum modelo aceite de uma forma generalizada.
À medida que se vai compreendendo o risco, vão surgindo novos produtos para os cobrir. Tal como o risco, os produtos acabam por ser tão complicados que se torna incompreensível para muitos. Novamente aqui entra o mecanismo da oferta e da procura e o problema de informação assimétrica. Talvez quem oferece o produto deva melhorar a informação que é percebida pelo lado de quem o procura e não vender uma caixa negra como tem acontecido. É certamente outro ponto a melhorar.
Em relação aos especuladores, acho que existe uma ideia muito errada sobre eles. Os grandes especuladores, aqueles que fazem “mexer” as coisas são altamente profissionais, os seus modelos são até mais desenvolvidos do que o dos próprios investidores. Não esqueçamos que são eles que avaliam a sustentabilidade das políticas do Estado, são eles que investem quando todos fogem. Veja por exemplo dos “ataque” ao Bath Tailandês, era uma situação insustentada, os especuladores entraram obrigaram as autoridades a repensar as suas políticas e deu-se início a um processo de reformas. Este episódio fez com que as economias do sudeste asiático começassem a reformar as suas economias, que acabou por lhes valer a acumulação de reservas. É um grupo de países que acabou por ganhar com o ataque especulativo.
Talvez estejamos de acordo num ponto, que é a regulamentação da banca. O papel da banca não deve ser de “especulação”, mas sim de intermediação financeira. A intermediação financeira deve ter uma proporção dominante nos resultados da banca. Se permitirmos que estes agentes, um pilares fundamentais do nossos sistema, se comportem como fundos de investimento eles correm o risco de desaparecerem como tal. Novamente é um problema de regulação, e não um problema conceptual.
Abraço
"De uma forma geral acho que
"De uma forma geral acho que está a misturar demasiadas coisas e às vezes o encadeamento das ideias não é clara, mas acho que alguns aspectos as nossas opiniões não são assim tão diferentes."
Tenho que admitir que tem razão. As minhas respostas têm sido elaboradas muito rapidamente, peço desculpa pelo facto de não estar a ser tão claro e objectivo para que desta forma esta discussão seja melhor.
"Não é princípio do mercado esteja em causa, apenas precisa de uma melhor regulamentação em alguns sectores."
Julgo que o ultimos põem em causa o primeiro. Mas não no sentido de ter que ser abandonado mas sim melhorado. E julgo que ambos concordamos com este ponto.
"O que aconteceu no caso do subprime é que houve um problema de “principal/agente”, onde angariadores defenderam apenas os seus próprios interesses e não o dos bancos"
Voltando um pouco atrás julgo que esta frase é sintómatica de que existe um problema de fundo na teoria económica liberal e que deve ser revista.
"Os produtos sintetizados que fala servem para cobrir o risco financeiro" (...) "Em relação aos especuladores, acho que existe uma ideia muito errada sobre eles. Os grandes especuladores, aqueles que fazem “mexer” as coisas são altamente profissionais, os seus modelos são até mais desenvolvidos do que o dos próprios investidores."
Julgo que não estou errado relativamente aos especuladores. Especulador é aquele que especula e julgo que a definição que se aplica aqui a especular é "meter-se em negócios com a mira de lucros exagerados" (dicionário online Priberam). Eu não ponho em causa os modelos que utilizam para tomar decisões o problema (e o que s separa dos investidores) é o objectivo para o qual tomam determinada decisão. Como bem disse "Os produtos sintetizados que fala servem para cobrir o risco financeiro", e deveria ser para isso que são utilizados, no entanto não é esse o objectivo de um especulador quando entra neste mercado. Ele não cobre o risco mas sim tem expectativa de um lucro exagerado.
As consequências desta tomada de decisão não é uma novidade, já na decada de 90 isso aconteceu e levou um banco à falencia (não me lembro do nome do banco britanico). O problema foi que~parece que ninguém aprendeu com esse exemplo e o cenário voltou a repetir-se por diversas vezes.
Outro problema dos especuladores é que se separam do produto que está inerente ao que estão a comprar. Por exemplo em 2001 a bolha rebentou exeactamente porque os especuladores estavam a investir em acções de empresas que ainda não "existiam". Ou seja não fizeram uma análise do investimento mas sim do mercado. Este abandono de uma analise de fundamentais também é sem duvida um dos problemas que tem de ser corrigido.
A especulação serve para inflaccionar mercados além das suas capacidades e afasta estes mercados da realidade, e enquanto actividade marginal de mercado pode ser tolerada, quando se torna dominante tem de ser erradicada. E aqui é que eu acho que a teoria puramente liberal falha, pois a "mão invisível" é demasiado lenta para evitar danos maiores e a realidade demasiada complexa para se garantir todos os pressupostos desta realidade.
Quanto às soluções para este facto como já discutimos são diversificadas e não significa necessariamente o abandono completo de uma teoria de mercado.
"Mas nenhuma das crises ditou o fim do sistema em que vivemos, ao contrário de sistemas controlados administrativamente como o bloco soviético nos demonstrou ser possível."
Julgo que aqui estamos efectivamente em desacordo. Julgo que existe um engano relativamente ao liberalismo puro Vs Comunismo.
O equivalente teorico do comunismo não pode ser o modelo actual sob pena de estarmos a misturar um modelo moderado com um modelo radical. O espectro oposto do modelo comunista era o modelo liberal vigente no incio do sec. XX. O liberalismo económico puro e duro e sem garantias (sociais e económicas). Este terminou com a crise de 29 (sendo que o primeiro golpe a meu ver deu-se com a construção das linhas ferroviárias que permitiu a exapansão da revolução industrial). E sempre que uma crise destas acontece existe um recuo relativamente ao que existia anteriormente.
Falácia comum: O liberal incompreendido. Será ele génio?
Acho que estamos de acordo em quase tudo, existe apenas um problema de conceitos.
Um dos pressupostos para o bom funcionamento do mercado é a transparência de informação, mas quando a informação é assimétrica (que inclui o problema de principal/agente) os mecanismos de equilíbrio falham. Foi o que aconteceu agora, com a crise do subprime, quando havia parte dos intervenientes do mercado que não compreendiam o produto, enquanto outra parte falhou por causa de um problema de conflito de interesse (um problema de governance). Ou seja, não estavam preenchidos os pressupostos para o funcionamento deste novo.
O que os liberais propõem é a regulamentação, a regulamentação independentemente da forma e dos detalhes que vier a assumir, terá como objectivo garantir o funcionamento deste mercado se vier a existir. A regulamentação muitas das vezes é uma forma de impor a limites de particularidades (sofisticação) dos produtos aí transaccionados, facilitando assim a transparência de informação. O verdadeiro liberal não defende selvajaria, o verdadeiro liberal procura encontrar mecanismos para que o mercado possa funcionar. Arrisco-me a dizer que você é um liberal, apenas não sabe que o é.
São as crises como esta, e outros casos como a SocGen que nos levam a reflectir sobre pontos a melhorar no funcionamento dos mercado, aumentando acima de tudo a sua transparência. E quando isso acontece, não é o mercado que falha mas sim um mercado que nasce ou que se regenera.
Quanto à sua definição de especulador, fui buscar uma definição ao dicionário da Oxford que é pelo menos tão credível como o seu obscuro dicionário online, mas não atribui nenhum carácter de juízo:
Speculator - a person who buys and sells goods or shares in a company in the hope of making a profit.
Acho que o papel social/económico dos especuladores não está em causa. A única falha que pode acontecer, e nisso nem o liberal o defende, é quando as suas expectativas de auto-concretizam, mas aí é um aspecto a melhorar porque deixa de estar preenchido um dos pressupostos do seu funcionamento: ser perfeitamente competitivo.
Podem encontrar nos pontos:
The economic benefits of speculation
Some side effects
em http://en.wikipedia.org/wiki/Speculator uma ideia engraçada sobre o seu papel.
Ninguém defende que o mercado é a panaceia para todos os males da humanidade, mas é a melhor solução realista encontrada.
Olhe que não, olhe que não...
Nota: dado a sua ultima frase, não resisti a colocar este titulo.
"Speculator - a person who buys and sells goods or shares in a company in the hope of making a profit."
Julgo que a palavra chave que separa os especuladores dos investidores está na palavra "hope" que não se aplica quando falas num investidor. Uma pequena diferença mas com consequências brutais.
"Arrisco-me a dizer que você é um liberal, apenas não sabe que o é."
Ideologicamente sou social democrata (a ideologia, que não deve ser confundida com o partido PSD). O que faz com que acredite profundamente na liberdade. No entanto não acredito muito nas premissas, ou pressupostos, do liberalismo económico.
Em muitos assuntos julgo que o mercado é positivo, e que o nosso sistema economico, baseado em concorrência e mercado aberto é positivo e um dos melhores encontrados. A grande diferença é no papel do estado e no tipo de soluções para os nossos problemas.
Isso nota-se em discussões tão pequenas como por exemplo a que tive sobre o problema do estacionamento em Lisboa com o Miguel: sendo ele a favor de transformar em gestão privado (se estiver enganado por favor corrige-me Miguel) e eu apologista de ser de uso totalmente livre.
Por exemplo, e é algo que muitas vezes é confudido nas discussões, também sou apologista da livre escolha, da progressão por mérito, de um mercado de trabalho mais flexível, valores normalmente atribuidos aos liberais.
Julgo no entanto que é um liberal optimista e irredutivel. Sempre que existe uma regulamentação externa existe uma machadada nessa teoria.
"O verdadeiro liberal não defende selvajaria, o verdadeiro liberal procura encontrar mecanismos para que o mercado possa funcionar"
Lamento mas o verdadeiro liberal (na sua vertente económica) defende a "selvajaria", no entanto a pessoa por trás desse liberal é que reconhece que tal não é o melhor para nós.
E acabando com o que comecei: "Ninguém defende que o mercado é a panaceia para todos os males da humanidade, mas é a melhor solução realista encontrada." julgo que é um eterno optimista.
Não é a melhor solução, mas sim uma solução (cuja eficiência está dependente da realidade em que está inserida). Assim a teoria falha pelo mesmo motivo que o comunismo falhou: tem pouca ligação com a realidade! Muitos dos pressupostos que apontam o mercado como uma solução optima realista têm de ser artificialmente criadas (o que anula essa teoria), não emergem das nossas relações.
Já estamos no Sec XXI
Há muito o liberais que reconhecem a limitação ou a insuficiência da mão invisível de Adam Smith. Desde a sua obra A riqueza das nações, foram várias as teorias que vieram complementar essas falhas. Vantagem relativa, informação assimétrica, teoria dos jogos, entre outros, mas vários outros.
Para aqueles que atacam os liberais dizendo que a teoria de Adam Smith falhou, lamento que só agora o reconheceram. Pois os liberais há muito que sabem que, pelo menos desde David Ricardo, da insuficiência no sistema que Adam Smith propõe.
Mas não podemos esquecer que o princípio que Adam Smith traçou foi um bom princípio orientador, e que ainda o seguimos. E foi este o princípio que permitiu o enriquecimento das nações que o seguiram.
Concordo
Concordo com o que tu disseste, e nem precisavamos de estar já no sec.xxi para o afirmar.
Julgo que o mesmo se aplica ao outro lado oposto que é o socialismo.
Julgo que os dois movimento cunharam a nossa sociedade com dois valores basilares do nosso desenvolvimento e da nossa cultura: a liberdade e a solidariedade.
Microcrédito e consumo
Confundir o mercado do microcrédito com o mercado do crédito à habitação é abusivo.
No microcrédito temos crédito ao investimento. Trata-se de um crédito considerado de risco, geralmente com taxas de juro muito altas, prazos de pagamento muito curtos, e em que se empresta pouco a cada cliente. No caso de alguns clientes não pagarem as quantias perdidas são pequenas. As taxas de juro altas compensam o risco que o banco corre.
No crédito à habitação temos um crédito ao consumo. A quantia emprestada é muito grande, pelo que, se o cliente deixa de pagar, o banco fica com um grande "buraco". A taxa de juro é baixa e a própria casa é aceite como um valor que serve de garantia ao banco. Só que, se a casa estiver sobre-avaliada pelo banco, ou se o mercado de casas entrar em colapso, essa garantia de pouco serve.
Não se pode tratar os dois mercados da mesma forma. Nenhum regulador avisado trata da mesma forma crédito ao investimento e crédito ao consumo, em particular.
Luís Lavoura
Crise de vocação, Luís?
Não te preocupes: quem iniciou a 1ª guerra foram os impérios centrais belicistas, não os livres fluxos económicos.
E quem criou a bolha especulativa que degenerou na crise do subprime não foi a livre circulação de capitais, mas antes a instância reguladora e monopolista que gere e gera o dinheiro fiduciário. Mas isso sou eu um porco neoliberal a falar. Se a tua crise de vocação estiver mesmo implementada, não vais claro acreditar em nada disto. Certamente achas que o capitalismo falhou, e foi ideologicamente derrotado. E os sete jogadores cubanos raptados pelo MLS querem mais é voltar para Cuba.
E a crise da grande depressão foi culpa dos comunistas!
"na crise do subprime não foi a livre circulação de capitais, mas antes a instância reguladora e monopolista"
Atribuir esta crise apenas a uma entidade é tapar o sol com a peneira. Como o titulo aponta é o equivalente a dizer que a grande depressão foi consequencia dos comunistas.
O liberalismo tem falhas, falhas graves que julgo devem de ser evitadas sob pena de toda a teoria cair teorica e empiricamente.
O fruto do liberalismo muitas vezes é como o fruto do Darwinismo é uma incógnita nada mais...
Culpa do Fed?
É errado atribuir a presente crise financeira apenas aos Bancos Centrais e à sua criação excessiva de dinheiro.
É verdade que os Bancos Centrais, nomeadamente o Fed, têm enormes culpas no cartório. Criaram excessiva massa monetária e mantiveram os juros ridiculamente baixos durante muito tempo.
Mas as entidades privadas também têm culpas. Porque os bancos privados também criam massa monetária, através do crédito. Quando se fornece crédito está-se, ao fim e ao cabo, a criar dinheiro. Ao conceder demasiado crédito, as entidades privadas construíram uma pirâmide de cada vez mais dinheiro.
O sistema precisa de ser regulamentado. Por exemplo, há as célebres regras que exigem que um banco tenha um mínimo de capitais próprios. São regras que são impostas por uma entidade reguladora, isto é, pelo Estado. Sem Estado e sem regulação, o sistema financeiro já teria colapsado há muito tempo.
Neste caso, a regulação falhou, na medida em que não soube regulamentar a criação pelo sistema financeiro de complexos mecanismos de alavancagem e de venda de produtos estruturados a partir de dívida hipotecária, os quais produtos aumentaram a opacidade do mercado e levaram a uma crise de confiança, a qual agora mina todas as instituições financeiras.
Luís Lavoura
É mais grave do que eu pensava
- Já não acreditas no marxismo
- Já não acreditas no liberalismo
- Já não acreditas no keynesianismo regulamentador
Estou com uma crise de valores...
Também não sou religioso. E também não sou vegetariano.
É como na canção de John Lennon: "I just believe in me".
Luís Lavoura
essa é que foi essa
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