
A mentalidade socialista abomina os mecanismos de mercado, mesmo quando é óbvio que eles atuam no sentido correto. Para a mentalidade socialista, as pessoas devem ter um comportamento virtuoso sempre em obediência aos ditames, as leis e aos condicionalismos impostos pelo Estado, mas nunca em resposta aos estímulos financeiros do mercado.
Vem isto a propósito das recentes subidas dos preços dos carburantes. É óbvio que essas subidas são, no seu essencial, impostas pelo mercado. Uma vez que ninguém, evidentemente, anda a acumular em depósitos secretos grandes reservas de petróleo, só se pode concluir que o alto preço do petróleo - em euros, não em dólares - é resultado de uma real escassez. A especulação carateriza-se pela criação de uma escassez artificial de um bem, através da acumulação e retirada do mercado de grandes quantidades desse bem; como ninguém anda a retirar do mercado nem a acumular grandes quantidades de petróleo, só se pode concluir que não está a haver especulação, que a escassez de petróleo sentida pelo mercado é real e não artificial.
Uma outra indicação neste sentido é o facto de o preço do gasóleo estar a subir muito mais rapidamente do que o da gasolina. Torna-se evidente que as políticas estatais de favorecimento ao gasóleo, através do imposto mais baixo que sobre ele recai, estão a ter como consequência uma preferência exagerada por esse carburante, com a consequente incapacidade de as refinarias o fornecerem em quantidade suficiente e a consequente escassez de gasóleo e subida do seu preço relativo. O facto de o gasóleo subir de preço muito mais rapidamente do que a gasolina tende a eliminar o favorecimento introduzido pelo Estado, e demonstra claramente que a subida do preço é causada por uma escassez real e não por especulação ou cartelização.
A subida do preço do petróleo aplica à economia estímulos corretos em todos os sentidos. Sugere às pessoas que deixem de alimentar o aquecimento global com a queima de combustíveis fósseis. Estimula as pessoas a trocarem o automóvel por deslocações a pé ou de bicicleta. Obriga as pessoas a refazer as suas contas sobre o acerto de comprar uma casa na ultra-periferia das cidades. Diminui o congestionamento dos céus e dos aeroportos ao tornar mais caras as viagens de avião.
Mas para a mentalidade socialista isto não serve. Para um socialista, as pessoas devem deixar de queimar combustíveis fósseis porque o Estado cria um esquema burocrático de venda de direitos de emissão; as pessoas devem largar o automóvel porque o Estado bloqueou estradas; devem comprar casa no centro da cidade porque o Estado eliminou o direito de construir na periferia.
Senhores socialistas de todos os partidos: deixem-se de lamúrias e protestos por causa do aumento do preço dos carburantes. Esse aumento é muito doloroso, mas vamos ter que nos habituar a ele. E aplica à economia estímulos corretos no sentido da poupança de um bem finito.
Comentários
Curto prazo
Certo, mas aquilo que preocupa o governo são os efeitos de curto prazo, nomeadamente o impacto que tal subida pode ter na economia e num resultado eleitoral. Além de que, apesar de tudo, quando existem indícios de cartelização, deverão ser investigados...
refinarias
"quando existem indícios de cartelização, deverão ser investigados..."
Sem dúvida. Mas eu creio que em Portugal o principal problema prende-se com a existência de apenas duas refinarias, ambas elas pertencentes à GALP. Os carburantes, seja qual fôr a marca sob a qual são vendidos, provêm quase todos dessas duas refinarias, pelo que a GALP controla sempre os preços. A situação de Portugal é desfavorável comparativamente à situação na Europa Central, na qual as petrolíferas se podem abastecer de carburante junto de diversas refinarias, pertencentes a diferentes companhias.
Luís Lavoura
Não é bem assim
O poder da Galp não é ilimitado. Não te esqueças que se pode importar por mar e por terra combustível. E Espanha, por exemplo, tem imensas refinarias, algumas não tão longe da nossa fronteira assim.
A própria Galp é exportadora de Gasolina para os Estados Unidos e importadora de Gasóleo (sim, existe um desequilíbrio em Portugal, produzimos gasolina em excesso e gasóleo a menos).
Muito bem!
Concordo perfeitamente. O sentido de subida dos preços do crude é positivo para a economia global e para o nosso planeta no longo prazo.
Foi pena é não ter acontecido mais cedo.
Graças a este aumento, as energias alternativas (geralmente não poluentes) vão ser cada vez mais competitivas, vai existir um incentivo à melhoria da eficiência energética e também, um incentivo ao desenvolvimento de novas formas de produzir energia e de a armazenar.
comentários
"as energias alternativas vão ser cada vez mais competitivas"
Esperemos que os governos reparem nesse facto e deixem de as subsidiar. Os subsídios à energia eólica são apenas uma forma de os contribuintes financiarem as empresas produtoras de energia, uma vez que elas não precisam desses subsídios, dado que já hoje a energia eólica é mais barata do que as restantes.
"um incentivo à melhoria da eficiência energética"
Torna-se rentável fazer investimentos sérios em, por exemplo, isolar melhor as nossas casas, por exemplo substituindo a caixilharia de alumínio por caixilharia em PVC, substituido as janelas deslizantes por janelas batentes, verificando bem se entra ar na casa pela caixa das persianas, etc.
Luís Lavoura
Pode não ser...
"...demonstra claramente que a subida do preço é causada por uma escassez real e não por especulação ou cartelização."
Julgo que essa demonstração não é assim tão clara quanto isso.
Que condições é que explicam os sucessivos aumentos conjuntos:
- todos têm os mesmos fornecedores, e os mesmo contractos e efectuam a compra exactamente na mesma data?
- qual o valor real dos contratos que têm e o seu aumento (visto que muitas vezes têm contractos directos com o fornecedor e não no mercado de futuros)?
- ontem ouvi um administrador da galp falar no custo do barril de crude entre 7 a 20 eur (salvo erro), qual a diferença entre este barril e o transaccionado no mercado de futuros?
- Sendo o crude matéria-prima o seu aumento não influência todos os postos (nacionais e estrangeiros) e caso isto aconteça o aumento em Portugal também é reflectido em Espanha p.e.?
- Sendo a previsão de aumento qual é o estado das reservas das empresas? estão no máximo? ou não se precaveram e no fundo o consumidor está a pagar um erro de gestão?
Quanto à análise do efeito destes aumentos concordo. No entanto falta ver qual o efeito que pode ter na inflacção e o seu impacto no crescimento económico.
Uma recessão levará a que haja menos capital para investir a quem está fora das grande petroliferas e estas vão demorar muito tempo até ter efectivos incentivos a mudar de forma de energia. É que existe uma caracteristica nesta forma de energia que as alternativas não têm: estas são escassas e limitadas geograficamente, em que poucos é que têm a capacidade de a produzir. Mudar de uma fonte de energia para uma outra em que exista menos barreiras à entrada parece-me um forte desincentivo à mudança. Talvez seja aqui que possa aparecer o odioso Estado!
Bem...
"Mas eu creio que em Portugal o principal problema prende-se com a existência de apenas duas refinarias, ambas elas pertencentes à GALP"
Parece-me que obtive já uma resposta às minhas duvidas.
"O sentido de subida dos preços do crude é positivo para a economia global e para o nosso planeta no longo prazo."
Concordo