O "genuíno liberalismo" de Pacheco Pereira

Retrato de Igor Caldeira

Pacheco Pereira (JPP) parece ser daquelas pessoas que fareja a História. Para onde soprarem os ventos, assim vai ele. Em trinta e cinco anos já foi maoísta, socialista liberal, social-democrata, de há uns anos a esta parte é liberal mas começa a fechar o círculo de volta ao totalitarismo e já dá uns passinhos de dança com o neonazismo.

É brilhante a sua frase incitar ao ódio racial, algo que em países genuinamente liberais não é crime, nem sequer delito de opinião. Ficará para sempre guardada no meu coração. Aprecio o interesse que um hectare de maçarocas merece da sua parte e o desprezo que a dignidade de minorias raciais, sexuais ou adversários políticos lhe merecem.
A sua defesa de Mário Machado é de certa forma um regresso ao passado, ainda que mascarado de defesa do genuíno liberalismo. Um totalitarista demonstra o seu amor por outro. Mais ainda, subscreve inevitavelmente tudo o que o dirigente dos Portuguese Hammerskins já disse e fez. De facto, JPP não acha grave nem criminoso as seguintes frases e actos:
  • P... de m..., não voltas a escrever sobre mim! E tem cuidado a andar na rua, parto-te todo. Um dia ainda te arranco a cabeça, meu p...
  • Mário Machado, Veríssimo, Paulo Florência, Amorim, Isaque e Rogério invadiram o bar Loukuras, em Peniche, Abril de 2005. Enquanto os outros agrediram um estrangeiro ao soco e pontapés, Machado segurou o dono do bar com uma faca.
  • “Todos os nacionalistas são portadores de armas de fogo e estão preparados para tomar de assalto as ruas quando for necessário”, anunciou Mário Machado na RTP, Junho de 2006, enquanto exibia a sua shotgun.
  • Em Janeiro deste ano, Mário Machado e 12 skins invadiram o Jumbo da Maia, Porto, numa perseguição pessoal. Falharam o alvo mas acertaram num Porsche que viram na estrada. Seguia um negro ao volante.

Tudo isto e muito mais está aqui. Para mim é escandaloso que haja pessoas que usem o liberalismo para defender a posse de armas, a revolução armada e a tomada violenta do poder, o tráfico de droga e agressões consecutivas. Inclusivamente houve ataques à propriedade privada. Se a dignidade da pessoa humana não convence certo tipo de "liberais", então vejamos o Porsche que Machado e os seus amigos vandalizaram por ser conduzido por um negro. Vale bem mais que um hectare de milho.

Aproveito para deixar um cartaz que a República Popular Democrática do Abrupto (via Arrastão) deve estar neste momento a imprimir, bem como uma canção que o próprio JPP (aqui com as barbas um pouco mais compridas que o normal e disfarçado de taliban para depois culpar os gajos do BE) estará a ensaiar para cantar em frente da prisão onde Mário Machado estará detido.

Comentários

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Retrato de Filipe Melo Sousa

Liberalismo Auto-Imune

Igor, os teus argumentos são legítimos. Apenas trata-se de um caso de uma pessoa isolada. Quem agride uma outra pessoa deve ser punida pelo crime que cometeu. Na verdade a motivação discriminatória por detrás do acto é perfeitamente irrelevante. Quem sou eu para me intrometer na psique do criminoso. Limito-me a defender que seja feita justiça.

Os movimentos neonazis em portugal são minúsculos e folclóricos. Preocupas-te muito com a posição liberal de Pacheco Pereira, ao defender que a liberdade de expressão ou incitamento ao ódio seja descriminalizado. O precedente no entanto já existe. Afinal é sob o mesmo princípio de liberdade de expressão que é tolerado o culto islâmico em portugal.

Para ti é escandaloso que haja pessoas que usem o liberalismo para defender a posse de armas, a revolução armada e a tomada violenta do poder, o tráfico de droga e agressões consecutivas. O que dizer então do facto de se tolerar a existência de uma mesquita em Lisboa? Para mim é escandaloso, e uma ameaça muito mais real que usem o liberalismo para defender a submissão da mulher, a intolerância, o ódio, o anti-semitismo, a perseguição aos gays, o terrorismo em larga escala, a censura.

Retrato de Igor Caldeira

Islamofobia

Pretender que o islamismo seja em si mesmo uma doutrina que propaga o ódio e que todos os muçulmanos defendem a violência até para um anticlericalista radical como eu é excessivo. Até porque isso já nada tem que ver com anticlericalismo, tratando-se simplesmente de ódio a uma religião em particular.

Quanto aos crimes de ódio, é uma discussão em si própria. Pessoalmente, sou a favor, da mesma forma que sou a favor que um juiz veja em cada caso as agravantes e atenuantes para a realização de um crime. A alternativa é simpática porque simples: quer se tenha atropelado sem querer, quer se tenha morto e esquartejado uma criança por prazer, ter-se-á a mesma pena. No entanto não seria "justa".

Retrato de André Escórcio Soares

Queria desde já esclarecer

Queria desde já esclarecer que nunca fui admirador de Pacheco Pereira.
No entanto parece-me abusivo apresentar uma frase totalmente descontextualizada. Ontem ouvi com muita atenção todas as intervenções do programa "Quadratura do Circulo" e nunca, em momento algum Pacheco Pereira defendeu Mário Machado, o que aconteceu foi que PP condenou o aceleramento do processo que pendia sobre MM para que este não ficasse ao abrigo do novo código de processo penal. Desta forma acusou a justiça de não ser sempre cega e eu, que até tenho o máximo repúdio por MM, não posso de deixar de concordar. Acelerar um processo especifico para que este siga os trâmites que melhor convêm não me parece nada correcto e levanta suspeições acerca dos intervenientes da justiça.

Retrato de Igor Caldeira

Um pouco diferente

JPP afirmou que em nenhum país genuinamente liberal alguém pode ser preso por delito de opinião. Sucede que MM não está preso por delito de opinião, mas por uma série infindável de delitos, que vão desde a perseguição e ameaça de morte (crime cá e na Cochinchina) até ao tráfico de droga ou posse ilegal de armas. A questão é que JPP assume a defesa cega de um extremista de direita apenas porque é um extremista de direita. Porque acha que vivemos num regime de Leste (daqueles que ele adorava antigamente) que persegue a Direita e protege a Esquerda. Sucede que vivemos num país com uma democracia liberal, com leis similares à de qualquer outro país ocidental. Mas isso para ele não interessa.

Aquando do caso Verde Eufémia JPP teve a lata de afirmar que se o que estivesse a ser atacado fosse não um campo de milho mas um grupo de imigrantes ilegais, então aí apareceriam não sei quantas associações, como a SOS Racismo que ele abomina - lá saberá porquê - a defendê-los.
Bom, cada um falará por si. Pessoalmente creio que uma vida humana não é igual a uma maçaroca.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Islamofobia

Nunca como hoje o termo islamofobia (do grego fobos = medo) fez tanto sentido na sua génese etimológica. Não se trata do ódio, mas sim do medo, de uma fobia a uma religião em particular, que revela ser a religião mais intolerante do mundo. Mais do que uma religião é uma ideologia totalitária, e não tenho problema nenhum em condena-la moralmente como algo de mau.

O ódio ao islão já é outra dimensão, consequência da primeira. Considero legítimo manifestá-lo tal como o fez Patrick Declerck: Cette haine de l'islam, je revendique publiquement le droit de l'exprimer. Publiquement. Quitte éventuellement à transgresser, oui, les lois de la République. Car dénoncer aujourd'hui les féroces imbécillités des croyances religieuses est plus qu'un plaisir, c'est un devoir. Et un honneur. Celui de montrer qu'il est possible d'exister debout, sans béquilles et sans illusions.

Retrato de Igor Caldeira

Esse tipo de atitudes não

Esse tipo de atitudes não podem trazer nada de bom. Em primeiro lugar, desviam a atenção do essencial: o mal não está no Islão, está na religião. Não há religiões boas. Só há religiões adormecidas. Esse tipo de atitudes ou mascaram um mero ódio de, por exemplo, cristãos, que neles vêm um concorrente à altura, alguém que lhes vai roubar a coutada mas que invejam pela sua dinâmica, ou então redundam numa rendição a outras religiões, a outros extremismos, como a direita evangélica americana, o catolicismo reaccionário da Polónia, etc., etc.. Esse tipo de comportamentos são os que têm mantido a Irlanda do Norte em guerra/guerrilha/paz podre ao longo de décadas. Curioso que tenha sido o desenvolvimento económico de ambos os países (RU e principalmente Irlanda) a trazer possibilidades reais de pacificação.

Pela minha parte, não adiro a nada que tresande a dramas dreyfusianas. Tenho um grande respeito pela memória histórica e uma verdadeira fobia à irresistível tendência para a repetição de erros passados.

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