O Estado favorece a nova construção

Retrato de Luís Lavoura

Diz-se muitas vezes, e em minha opinião com toda a razão, que as cidades portuguesas deveriam deixar de se desenvolver através de novas construções, novos prédios em áreas até então desocupadas, concentrando-se em vez disso na recuperação dos edifícios existentes e na sua adaptação às novas exigências dos tempos modernos.

Deveria deixar de se falar tanto do assunto, e concentrarmo-nos em vez disso em eliminar as distorções fiscais através das quais, de forma descarada, o Estado favorece a construção nova.

Essas distorções são, pelo menos, as seguintes - e bem fortes:

1) Quem compra uma casa antiga paga o mesmo imposto (IMT) que quem compra uma casa nova. Ora, enquanto que numa casa nova há valor acrescentado, numa casa antiga tal valor não existe. Note-se que a lei para casas é totalmente diferente de, por exemplo, a lei para automóveis: se eu comprar um automóvel a outra pessoa não preciso nem sequer de declarar o valor pelo qual o comprei, muito menos preciso de pagar imposto pela compra - só se paga imposto quando se compra um automóvel novo.

2) Existe IVA de 21% (leram bem: vinte e um por cento) sobre as obras de requalificação de uma casa, enquanto que a compra de uma casa nova não é sujeita a IVA, mas sim ao tal IMT, o qual tem taxas extremamente mais favoráveis, de apenas 5% ou cerca disso.

Com tão brutais distorções fiscais, não admira que as pessoas prefiram comprar uma casa novinha em folha em vez de comprarem - pagando o mesmo IMT - uma casa velha e depois - pagando um IVA brutal - fazer obras de recuperação.

É altura de as pessoas e de o Estado deixarem de falar tanto sobre a requalificação do edificado, e passarem em vez disso a eliminar as inqualificáveis distorções fiscais que a prejudicam.

Comentários

Opções de visualização dos comentários

Seleccione a sua forma preferida de visualização de comentários e clique "Gravar configuração" para activar as suas alterações.

Círculos viciosos

Luís,

Há uma série de círculos viciosos e concêntricos:

mais construção privada nova -> mais património tributável -> estado recebe mais IMIs -> Estado/Câmaras autorizam mais construções novas (e as existentes, mesmo que sub-avaliadas, continuam a pagar IMI) -> mais construção nova

mais construção em geral -> construtores têm mais dinheiro -> financiam campanhas dos partidos grandes -> há aprovação de mais construção pública (não necessária muitas vezes) e privada -> mais construção em geral

lei do arrendamento + problema que mencionaste -> prédios nos quais não se fazem obras de recuperação -> escassez artificial de habitação/terrenos nos centros das cidades -> diferença enorme entre os preços dos centros e das periferias -> construção nova nas periferias -> manutenção das leis/estrutura tributária

Isto vai acontecer até ao dia em que não houver mais ninguém para comprar casas, ou os centros das cidades estejam completamente vazios.

Opções de visualização dos comentários

Seleccione a sua forma preferida de visualização de comentários e clique "Gravar configuração" para activar as suas alterações.