O dono da bola

Retrato de Hugo Garcia

A figura do dono da bola é um mau pretendente a arquétipo ou a figura social. Apenas a estou a utilizar porque é algo que todos podemos entender.

Se recuarmos uns anos atrás lembramo-nos de quando havia apenas um miúdo que levava bola para a escola e esse passava a ter o título dignatário de “o dono da bola”. Na verdade, não lhe era reconhecido qualquer mérito ou legitimidade, mas ele podia sempre dizer “é como eu quero porque eu sou o dono da bola”. Quando se jogava à rodinha-bota-fora ele nunca ficava de fora porque ele era o dono da bola. Também era ele que decidia quem fazia as equipas, quem escolhia primeiro, quem fazia as regras e no limite, se tinha ou não sido golo. Ao longo do dia ia se vangloriando da sua posição de poder, apesar de esta não conter qualquer mérito.

Curiosamente, enquanto vamos crescendo, não se perde esta figura e todos querem continuar a ser os donos da bola. Seja por se ser o mais forte numa luta, homem branco heteressoxual num mundo de discriminação, o mais rico, o que tem o carro maior num cruzamento, o patrão, o que tem uma cunha política ou administrativa ou qualquer outra característica que permita a um indivíduo levar a sua adiante sem tomar a postura ética.

Aqui dividem-se os liberais em dois. Os que acham que por ele ser o dono da bola tem todo o direito de exercer o seu poder e aqueles que acham que por uma conduta ética e por estado de direito o seu poder deve ser limitado.

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Retrato de Luís Lavoura

O dono da bola não pode ter

O dono da bola não pode ter um poder absoluto, claro. Mas tem sempre o direito de dizer que um outro menino qualquer não tem o direito de tocar naquela bola.

Luís Lavoura

Retrato de Igor Caldeira

Bolas

Há dois problemas.
Um é quando as bolas pertencem a outras pessoas mas alguém dela se apropria (isso acontece todos os dias na Administração Pública e em todas as empresas privadas que tenham vários donos).
Outra questão é, mesmo em empresas privadas detidas por só uma ou duas pessoas, as figuras tipo "filho do patrão". O patrão tem todo o direito de ter um filho incompetente à frente da empresa se isso o deixar feliz - a propriedade é dele. O problema é se o filho do patrão se aproveitar do trabalho alheio para se promover. Aí não deixa de ser eticamente censurável, embora não haja volta a dar-lhe. Quem estiver a ser prejudicado tem duas opções, ou sai ou aguenta.

Retrato de André Escórcio Soares

Excelente forma de colocar

Excelente forma de colocar as coisas.
De facto alguns liberais que apregoam o mérito acima de tudo (e atenção que sou a favor de uma base meritocratica) são os primeiros a querer ter a bola e a defenderem inclusivé quem a tem.

Excelente post Hugo.

Um liberal não se pode opor

Um liberal não se pode opor à propriedade privada nem fazer juízos de valor em relação ao uso que o dono faz da sua bola. Qualquer outra consideração "progressista" sobre a bola dos outros revela uma incómoda dor de cotovelo.

Um liberal não se pode opor

Um liberal não se pode opor à propriedade privada nem fazer juízos de valor em relação ao uso que o dono faz da sua bola. Qualquer outra consideração "progressista" sobre a bola dos outros revela uma incómoda dor de cotovelo.

Retrato de Igor Caldeira

Liberalidade

"Um liberal não [...] pode [...] fazer juízos de valor em relação ao uso que o dono faz da sua bola."

Eu pensava que acima de tudo um liberal defendia a liberdade, sendo que a liberdade de pensamento é uma liberdade. Será que é preciso autorização de algum Conselho dos Guardadores das Verdades do Liberalismo para ter uma opinião?
E essa opinião, só é proibida se for um juízo de valor, ou se for um juízo de facto também é proibido (estilo "O filho do dono da empresa X acabou com a empresa ao gastar o dinheiro num Lamborghini e numa vivenda no Algarve")? E quem é que definirá a diferença entre o juízo de valor e o de facto? O mesmo Conselho dos Guardadores das Verdades do Liberalismo?

Não preciso ir muito longe e falar da diferença entre os conservadores (que defendem doutrinas aristocráticas) e os liberais (que devem defender o mérito). Isso seria estéril porque remete-nos para a diferença a que o Hugo Garcia alude. Com a diferença de o Hugo ao menos conceder que possa haver liberais que pensem distintamente dele, ao passo que tu, como deves pertencer ou pelo menos ter uma cunhazita no Conselho dos Guardadores das Verdades do Liberalismo, arrogas-te o direito de dizer o que cada um deve ou não pensar.

De facto, não precisamos imiscuir-nos na questão da propriedade, que como afirmei levanta questões que por muito injustas que possam parecer, são assim. Isso não implica que não haja mecanismos que não só garantam igualdade à partida como garantam que ao longo da vida a ascendência ou o poder económico não sejam fonte de sucesso em si mesmos.
Vamos colocar a coisa nestes termos: imagina um professor universitário (e até pode ser uma universidade privada, que para este efeito é igual ou, mais provavelmente, pior) que é do PS e que consegue meter uma cunha para o filho ir dar aulas, apesar de o tipo ser assim-assim de bestunto. Ou então imagina um autarca do PCP que mete o filho numa empresa de um pato bravo local em troca de favores políticos.

Tens aqui dois casos de ascensão por via da ascendência com os quis de certeza não concordas. Quanto mais não seja porque (fiz de propósito para te forçar a esta conclusão) são dois tipos de esquerda e portanto tens de estar automaticamente contra eles.

Retrato de Igor Caldeira

Complicações

Poderia complicar um pouco mais a coisa.

A maior parte das grandes empresas (se não todas) é detida por milhares de pessoas. Nelas, como em todos os outros locais (empresas mais pequenas, administração pública) a cunha existe e existirá sempre. Ou seja, haverá sempre pessoas que se aproveitam da sua posição de poder organizacional, embora não sejam proprietárias, para favorecer um familiar ou um amigo. Esse familiar ou amigo passa a gozar de um estatuto diferente e tem a ascensão facilitada.

Compreendo que este tipo de exemplos possa fazer confusão a pessoas que imaginam o capitalismo como se estivéssemos ainda no século XVIII e estivéssemos a falar de trocar vacas ou de vender cerveja. No entanto, algum realismo não faria mal. Os marxistas tendem a ver o mundo como se vivessemos em plena Revolução Industrial. Os conservadores liberais fazem melhor: imaginam-se nos seus alvores.

De facto, a questão que o Hugo levantou é pertinente e para mim um verdadeiro liberal deveria colocar esta questão: será admissível que alguém utilize a propriedade alheia (a dos accionistas) para promoção pessoal ou familiar? Até onde vai o respeito pela propriedade aqui?
Dúvidas?

Acho encantadora a simplicidade com que os libertarianos (acho que encontrei a expressão apropriada para a espécie, a meio caminho de libertário e marciano) analisam o mundo e dão as suas respostas. Mas a dado momento temos de ver as coisas como elas são e não como os nossos autores de eleição as viveram ou as imaginaram.

Gostaria de saber o que o Conselho dos Guardadores das Verdades do Liberalismo terá a dizer a respeito disto. Não se trata de uma questão eminentemente política, mas os seus efeitos são-no. Para lá das considerações éticas e económicas.

Será que é preciso

Será que é preciso autorização de algum Conselho dos Guardadores das Verdades do Liberalismo para ter uma opinião?

Não é precisa autorização nenhuma. Simplesmente, a partir do momento em que alguém tiver como objectivo castrar a auto-estima ou o ego de alguém que detenha (leia-se no post: MESMO que legitimamente) uma bola, este deixa de ser liberal. Penso que o argumento é fácil de entender.

Em relação à empresa detida por um pato bravo do PCP, a resposta é muito fácil: gostaria muito que esse administrador pusesse em cargos de direcção muitos indivíduos bestuntos, como descreves. A empresa ia ter o que merece. E devido à antipatia que descreves, gostaria muito de ver tal acontecer.

Para rematar: no caso de ume empresa privada, também não tinha nada contra a promoção de alguém mesmo que não tivesse mérito. São assuntos de gestão privada, e nisso não tenho nada que me intrometer. Se o gerente de uma grande empresa cotada em bolsa, género BCP, promovesse alguém sem mérito, teria de prestar contas. Vou explicar como funciona: existe algo que se chama assembleia de accionistas, onde os donos da dita empresa podem decidir do seu futuro. Se uma promoção indevida passar ao lado, tanto melhor para o promotor, foi mais esperto que os accionistas. É trabalho destes preocupar-se com o caso, não meu. Eu não tenho acções do BCP. Tu tens, Igor?

Retrato de Igor Caldeira

It's the Ethics

"Se uma promoção indevida passar ao lado, tanto melhor para o promotor, foi mais esperto que os accionistas."
Já me tinha esquecido das tuas opções éticas.

"Eu não tenho acções do BCP. Tu tens, Igor?"
No BCP, nem acções, nem contas. Não dou o meu dinheiro a fascistas.

Retrato de Hugo Garcia

mérito e infantilidades

Qual foi a minha surpresa ao ver que vários dos pseudo-liberais ou ultra-liberais cairam na esparrela..... ?
Até noutros blogs vieram comentar este post.

Quando um grupo de adultos vai jogar à bola, o dono da bola não insinua que "se eu ficar chateado pego na bola e vou para casa"
Só assim pode haver méritocracia e o jogo ser justo.
Fazer esse tipo de interferência seria de uma infantilidade extrema.

Naturalmente, não era meu objectivo defender que devia existir uma bola para cada um. Não sou comunista.
Apenas pretendo defender que apenas com uma bola, podemos ter um jogo como adultos, com regras e princípios e que ganhe o melhor. Desde que exista ética, respeito e regras bem definidas (entenda-se estado de direito).

Portanto, acho que agora podemos fazer uma ligação entre certas ideias políticas e o pensamento "amanhã eu trago a bola e as coisas vão ter de ser como eu quero"

não sou um gigante

não sou um gigante intelectual como o parecem ser os comentadores deste post. não leio enormes canhanhos de teoria económica nem tampouco sigo as publicações da moda.

mas acho que não preciso de ir muito longe para perceber que grande parte de vós, liberais, andam com uns óculos cor-de-rosa.

como alguém escreveu em algum comentário, é necessário ver o mundo como ele é e não como gostariamos que fosse.

"Desde que exista ética, respeito e regras bem definidas (entenda-se estado de direito)."

esta frase é simplesmente uma estrofe de um poema. ética e respeito não entram nos vocabulários de quem, em nome do mercado e do lucro, arruina (ou pactua da sua ruina) povos inteiros. e regras? então o mercado não se regula a si próprio? que regras? quando sou eu que tenho a arma na mão, não me convém que regras limitem a minha vontade.

em relação ao mérito. já acordavam. não existe mérito. existe berço ou então, à falta de berço existe a sorte de se ter beijado o rabo da pessoa certa. de resto, neste mundo, compensa ter andado no colégio x, ter o apelido y, ser amigo de infância de z. e o resto é treta. quando há dinheiro e poder não interessa o mérito. afinal quantas empresas afundou o bush junior antes de ter o "mérito" de ser eleito presidente dos estados unidos?

Retrato de Igor Caldeira

Utopias

Sérgio, podes ter razão em muito do que dizes. Agora, há três alternativas. Uma de "Direita" que é aceitar que tudo isso é muito correcto. Outra de "Esquerda" que pode ser muitas coisas, desde a colectivização da propriedade ao genocídio de quem tenha nascido um pouco melhor. E outra de "Centro" que é, colocando-nos no mundo que existe, tentar torná-lo um pouco mais justo.

De facto, não acredito nem em céus nem em infernos. Acredito no que temos e na nossa capacidade de o melhorarmos. Se isso é utópico não sei. Sei que é menos irrealista que alguns projectos que no passado recente colapsaram vergonhosamente. Se não crês no que digo, não precisas de canhanhos teóricos: pega numa sebenta de História Europeia século XVIII/ século XX. Creio ser bastante esclarecedor.

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