
Na sexta-feira passada, por volta das três da tarde, andei de metropolitano, algo que raramente faço. A carruagem estava medianamente cheia. Junto a uma porta, duas moças, dos seus vinte anos de idade ou pouco menos, abraçavam-se carinhosamente e repetidamente - digamos que paravam um pouco de cada vez que as portas se abriam e, mal o combóio arrancava novamente, retomavam a meiga marmelada.
As outras pessoas que iam na carruagem, eu incluído, arvoravam total indiferença. Toda a gente as via - era impossível não as ver - e toda a gente fazia como se nada de anormal se passasse. Não se viam risinhos, olhares de lado, nem conversas em surdina.
A sociedade portuguesa está muito mais tolerante do que o que eu pensava.
Comentários
Bem, tu não ficaste indiferente. :P
Se tivesses ficado indiferente não terias escrito nada aqui.
Agora a questão é que provavelmente até achaste a imagem interessante. ;)
Sabes, acho que as questões relativamente à sexualidade geralmente não têm nada a ver com tolerância ou não, mas sim, com a segurança de cada um relativamente à sua sexualidade.
Quem fica mais perturbado com cenas LGBT são geralmente aqueles que gostam mais de exibir a sua "virilidade", porque precisamente, são inseguros relativamente à mesma. E isto, adicionado ao sentimento de culpa relativamente à sexualidade que o catolicismo criou em Portugal (mesmo para muitos não católicos que são influenciados pela sociedade católica), não ajuda nada.
O mesmo se passa no mundo Islâmico relativamente às mulheres. Aqueles tipos obrigam as mulheres a taparem-se porque são extremamente inseguros nos seus relacionamentos e na sua capacidade de auto-controlo. No fundo, são uma versão exagerado dos portugueses que não gostam que as suas companheiras exibam os seus "dotes".
Clap, clap, clap
"acho que as questões relativamente à sexualidade geralmente não têm nada a ver com tolerância ou não, mas sim, com a segurança de cada um relativamente à sua sexualidade"
"Aqueles tipos obrigam as mulheres a taparem-se porque são extremamente inseguros nos seus relacionamentos e na sua capacidade de auto-controlo"
tolerância
Luis,
tenho sentido o mesmo que tu.
Acho que nos últimos anos tem existido uma evolução nítida.
Agora não ando de metro, mas quando andava também já sentia alguns sinais de mudança.
Principalmente no que diz respeito a mulheres homossexuais que se sentem à vontade para demonstrar o seu afecto publicamente.
Penso que entre homens homosexuais é que ainda não existe tanta segurança e/ou conforto para o fazer.
Enfim, tenho esperança que seja um trabalho de poucos anos.
Miguel,
devo concluir que quem vem reclamar contra a religião, mais uma vez, completamente fora de contexto, é porque não está seguro quanto ao seu ateísmo ?
Três questões diferentes
"devo concluir que quem vem reclamar contra a religião, mais uma vez, completamente fora de contexto, é porque não está seguro quanto ao seu ateísmo?"
Aí não será uma questão diferente? Em regra, não discutimos aí a tolerância. Pode haver três tipos de discurso:
- o proselitismo ateu, que tem tanto direito de existir quanto o proselitismo religioso;
- a defesa do laicismo, que não implica um ataque à religião mas uma defesa da neutralidade política da religião e da neutralidade religiosa do Estado;
- a defesa da oficialização do ateísmo, que tal como qualquer outro ataque ao laicismo coloca realmente um problema de tolerância.
Pela minha parte, enquanto ateu laicista e por conseguinte absolutamente contra um Estado ateu, mesmo quando falo contra a religião (contra a ideia de deus(es)) não creio que esteja a ser intolerante e portanto inseguro: estou a usar a mesma liberdade de expressão que permite que um católico, ou um muçulmano, ou um luterano, ou budista fale das suas crenças.
Religião
Hehe, bem, eu não tenho quaisquer intenções de proibir a religião. E se tivesse tais intenções seria apenas porque as religiões têm uma tendência terrível para o radicalismo e para ferir a liberdade dos outros (particularmente das mulheres, o que também tem muito que se lhe diga, porque razão é que achas que são as mulheres que se têm que tapar da cabeça aos pés e não os homens?).
Apenas disse que os portugueses na generalidade têm um sentimento de culpa relativamente à sua sexualidade devido à religião católica, ah, e que o problema dos muçulmanos em mandar cobrir as suas mulheres é falta de segurança (experimenta teres discussões sobre estes temas em casa com uma Turca e rapidamente chegarás à mesma conclusão que eu - quem vem de terras de maioria islâmica e é laico, é o primeiro a denegrir os seus concidadãos). Aliás, o Corão não prescreve propriamente que as mulheres se tapem todas, nem os muçulmanos radicais cumprem exactamente o Corão. Geralmente cumprem as partes do Corão que lhes interessam.
E assumidamente, sim, culpo a religião por vários dos problemas que nos afligem e sinto-me perfeitamente no direito de a criticar por tudo aquilo que considero ser influências negativas da religião na sociedade. Aliás, nunca viste uma guerra em nome do ateísmo, pois não? Ou ataques terroristas em nome do ateísmo, pois não? Ou atacar o próximo só porque não é ateu? Ou obrigar o parceiro do lado a vestir-se de uma certa forma ou a não ter determinadas acções só porque o livro sagrado do ateísmo diz que essa é a forma correcta de se comportar?
E por outras paragens...
Um líder dos escuteiros que lutou contra a obrigação na Califórnia de os escuteiros aceitarem membros gay e/ou ateus, foi acusado de abusar sexualmente de rapazes do grupo de escuteiros que liderava.
A vida é irónica, não é?
Uma pergunta inevitável
as miúdas eram giras?
Sim
Eram perfeitamente aceitáveis. Mas já conheci lésbicas muito mais giras do que estas.
Luís Lavoura
Se fossem três lésbicas a
Se fossem três lésbicas a terem essas manifestações de afecto entre elas se calhar as pessoas já não ficavam indiferentes! Talvez seja o próximo passo...