Má remodelação

Retrato de Luís Lavoura

Estou entristecido e apreensivo com a mini-remodelação governamental ontem efetuada, ou antes, com a remodelação efetuada no Ministério da Saúde.

A atuação de Correia de Campos, nos seus anos no governo, foi boa e esclarecida, tendo enfrentado com sucesso os inúmeros lóbis que se movimentam no setor da saúde, incluindo o lóbi de uma população pouco esclarecida e mais dada a simbolismos do que à apreciação de um serviço real.

Premonitório considero ser que quem vai substituir Correia de Campos seja uma médica. Arriscamo-nos que a política de saúde passe novamente a estar submetida a um dos mais poderosos lóbis do setor, o lóbi dos médicos. É altamente provável que a nova ministra, sendo ela própria médica, se adapte mais aos interesses da Ordem dos Médicos e aos interesses sindicais dos médicos, e menos aos interesses dos utentes.

Felizmente não caiu também a ministra da educação - outra que tem vindo a desenvolver reformas cruciais, ao arrepio das corporações do setor, nomeadamente da corporação dos professores - ao contrário daquilo que Paulo Portas se apressou a pedir.

Comentários

Opções de visualização dos comentários

Seleccione a sua forma preferida de visualização de comentários e clique "Gravar configuração" para activar as suas alterações.
Retrato de Filipe Melo Sousa

sim e nao

O ministro da saúde era o único elemento do executivo de Sócrates que me agradava. Infelizmente foi saneado. O facto de ser substituído por uma médica é péssimo agoiro. É por demais óbvio que a racionalização do sistema não agrada à ordem dos médicos. Portugal não tem médicos a menos. Tem sim, demasiados médicos alocados em zonas com pouca procura, o que provoca escassez de recursos no resto do sistema. A ordem dos médicos sempre se bateu por reduzir o número de médicos formados. Veja-se como a un. catolica foi impedida de abrir o curso de medicina. E depois há certos modos de vida dos quais as pessoas não querem prescindir. Quantas horas extraordinárias não são pagas pelo orçamento de estado a médicos que estão em "banco". Banco que consiste a estar a dormir em casa, a receber por cada hora de sono. E uma vez por mês lá ter de se levantar para alguém que aparece no centro de saúde, quando a enfermeira lhe liga para o móvel.

Já quanto à ministra da educação, luís, fala com professores e alunos e pergunta-lhes o que acham de:
- a demagogia dos exames do ano passado para subir as notas. facilitismo melhora as estatísticas
- a avaliação dos professores feitas pelos alunos
- os critérios de avaliação que premeiam a progressão do longo do ano, logo o professor começa o ano a dar notas baixas, para subir nos períodos seguintes
- o aumento dos horários dos professor em tarefas inúteis, em vez de lhes atribuir mais turmas
- a proibição de dar notas negativas aos alunos

Retrato de Luís Lavoura

educação

É verdade que ainda há muita coisa que está péssima nas escolas, em particular o facilitismo e o incentivo aos professores para que passem os alunos de ano.

No entanto, a atual ministra realizou progressos significativos, se não nesse ponto, pelo menos noutros:

- colocou os professores nas escolas durante três anos, em vez de lhes permitir andarem a saltar de escola em cada ano;

- introduziu uma avaliação (se bem que provavelmente ainda muito imperfeita) de professores, e diferentes graus na carreira de professor, em vez de os igualizar a todos;

- está a introduzir uma gestão profissionalizada das escolas, com intervenção da comunidade envolvente, em vez de permitir que as escolas sejam governadas como se fossem cooperativas de professores.

Em todos estes três passos a ministra enfrentou a inimizade da corporação dos professores. Enfrentou-a com coragem e determinação.

Mais seria desejável da ministra. Mas já fez, mesmo assim, muito mais de positivo do que qualquer outro antes dela.

Luís Lavoura

Retrato de Pimentel

Atenção que as novas

Atenção que as novas medidas da educação são uma completa vergonha.
É tal como o Filipe diz, e mais:
Uma avaliação pelos alunos (ou encarregados de educação) é obviamente errada. Não é preciso explicar. Não é só imperfeita, é a pior possível.

Os diferentes graus na carreira são por quotas: Só 5% é que podem estar no escalão máximo, mesmo que muitos mais sejam igualmente bons. Não acredito que alguém por aqui goste desse tipo de distribuições.

O presidente do concelho executivo da escola passará a ser escolhido por um conselho de gestão, composto por:
40% professores
20% encarregados de educação
20% autarquia
20% comunidade (lojas, etc... também não sei porque raio)
O candidato eleito escolherá toda a equipa do concelho executivo. (Neste momento o coordenador de cada departamento é eleito pelos professores desse departamento)
Tira-se portanto poder decisivo aos professores.

Mais parece que a ministra está a experimentar coisas, e logo vê o que dá.

E qualquer ministro (agora falo da saúde) que faça o que fez ao outro médico por causa do tal papel afixado, não é claramente um bom ministro. (Tipo Zé Socrates àquele professor do coméntário jocoso, ou àquele outro blog)

Retrato de Luís Lavoura

Quotas, etc

A avaliação tem que ser por quotas, porque caso contrário todos os professores receberiam a nota máxima. É assim que as coisas são feitas em Portugal, foram assim durante muitos anos.

Já há muito tempo que, aqui no Instituto Superior Técnico, os professores são supostos, anualmente, avaliar o trabalho do pessoal auxiliar (secretárias, etc). A prática geral era (não sei se ainda é) dar nota máxima a todo o pessoal em todos os items. Todos os professores eram cúmplices neste sistema. Se algum indivíduo não recebia nota máxima em todos os items, queixava-se ao avaliador, dizendo que assim ficaria prejudicado perante os colegas em termos de promoções na carreira (o que é verdade). E nenhum avaliador tinha a coragem de prejudicar ninguém. Por isso, todos eram corridos a nota máxima. Eram todos funcionários topo-de-gama.

Portanto, se queres ter uma verdadeira avaliação dos professores, uma avaliação em que uns sejam melhores do que outros, tens que impôr quotas para as notas máximas.

Quanto aos conselhos executivos das escolas, é assim mesmo que deve ser feito. O poder deve ser todo dado a um indivíduo, o presidente do conselho, e esse indivíduo deve ter total poder e, consequentemente, ser totalmente responsável. No sistema atual, em que a escola é gerida como se fosse uma cooperativa de professores, não há ninguém a quem assacar culpas se a escola fôr mal gerida - são todos co-responsáveis na bandalheira. No sistema que o ministério agora impõe, haverá um responsável - o presidente do conselho executivo. Se alguma coisa correr mal, põe-se esse presidente na rua, e com ele vão todos os seus colegas. A responsabilidade fica clara.

É impossível que um professor, escolhido pelos restantes professores, ponha na ordem esses professores que o escolheram. Isso não funciona, em Portugal. Tem portanto que haver um conselho executivo que seja independente dos professores e claramente superior a eles.

A título de exemplo, veja o Pimentel a pouca-vergonha que se passava nas escolas portuguesas com o fumar nas salas de professores. Era impossível os professores porem-se de acordo sobre a proibição de fumar e, portanto, estava sempre a sala dos professores cheia de fumo. Porquê? Porque não havia uma autoridade, acima dos professores, que desse ordens claras e que fosse capaz de pôr os senhores professores a andar todos na linha. Se alguns professores não se entendiam com outros - por exemplo, a propósito do fumar nas salas de professores - o impasse persistia e nada se fazia.

Luís Lavoura

Retrato de Pimentel

Há escolas que têm uma

Há escolas que têm uma sala anexa à sala de professores, para fumadores. Mas com a nova lei já nem essa sala é permitida. Pelo menos na minha antiga escola assim é. Secalhar depende do concelho executivo que é eleito.
Mas ser a autarquia, os encarregados de educação e a comunidade a escolher o gestor da escola... não me parece que sejam eles quem melhor conhecem os candidatos, ou que saibam o que é preciso para uma escola onde não trabalham.

Retrato de jvaldoleiros

Nem boa nem má, é só a aproximação das eleições

Na minha opinião a motivação desta remodelação tem mais a ver com a aproximação das eleições (e os maus resultados nas sondagens do PS) do que qualquer alteração de política ou má actuação de um Ministro em particular.
O facto é que este governo (tal como os governos anteriores) quando se aproximam as eleições tendem afastar as pessoas que porventura tenham menos "sorte" na avaliação do seu trabalho pelos média ou pelos grupos de pressão que existem na sociedade portuguesa.
O Ministro Correia de Campos teve a infelicidade de ser apanhado em alguns comentários infelizes, a reação das populações às reformas na sua área tem sido muita, as reformas tocam muito forte em alguns grupos de pressão (tais como a Ordem dos Médicos) e por fim acabou por ser uma presa fácil dos média.
Por exemplo, o caso da senhora que morreu em Setúbal, afinal não estava a DEZ minutos dos hospital? O pai e o marido terão ou não dito que afinal ela não precisava do INEM? E não existia a alternativa de eles se deslocarem à urgência num transporte alternativo, nem que fosse de táxi. Passaram duas horas!

Opções de visualização dos comentários

Seleccione a sua forma preferida de visualização de comentários e clique "Gravar configuração" para activar as suas alterações.