Liberalismo e partidos liberais

Retrato de André Escórcio Soares

Citações de partidos liberais retiradas dos seus sites na internet:

" Partido Liberal Grego- Liberal ideology is the basis of all the proposed reforms. Liberal Alliance will define anew the much- slandered ideology of Liberalism in Greece by promoting freedom, democracy, prevalence of the individual over the state, individual responsibility, equality of opportunities, equality against the law. Of the indivisible trinity of the political, social and economic liberalism."

"Partido Liberal Britânico- The Liberal Democrats exist to build and safeguard a fair, free and open society, in which we seek to balance the fundamental values of liberty, equality and community, and in which no-one shall be enslaved by poverty, ignorance or conformity."

"Partido Liberal Australiano- We believe in equal opportunity for all Australians; and the encouragement and facilitation of wealth so that all may enjoy the highest possible standards of living, health, education and social justice."

Tenho tido várias discussões com "liberais" portugueses junto dos quais defendo que as pessoas só são totalmente livres quando têem igualdade de oportunidades. Uns chamaram-me socialista, outros até comunista. No entanto, apesar de me sentir muitas vezes isolado em Portugal não me sinto no mundo liberal.
O facto dos liberais portugueses não assumirem frontalmente a defesa da igualdade de oportunidades tem sido, provavelmente, um dos maiores factores de insucesso do liberalismo em Portugal. A acompanhar o atraso do país, estão muitos dos nossos pensadores liberais, ainda temos um caminho muito longo a percorrer até estarmos alinhados com o liberalismo existente outros países.

Comentários

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Torniquete

Caro André Escórcio Soares,

Obrigado por exprimires aberta e frontalmente aquilo que considero ser a doença infantil do recém-renascido liberalismo Português.

Muitos dos que se aproximam pela primeira vez do liberalismo em Portugal fazem-no de dentro da dicotomia exclusiva da esquerda-direita, sem perceber que ser liberal é precisamente emancipar-se de uma lógica dentro da qual o liberalismo não passaria de uma quimera exótica com apêndices sócio-morais de esquerda e um corpo económico de direita. Não creio que o liberalismo possa ou deva ser reduzido a dogmas ou a ideias feitas desta ordem (aliás, julgo que isso é matá-lo). Por exemplo, o Estado português é de facto demasiado grande, pesado e invasivo. Daí não decorre que para ser liberal o Estado deva ser tendencialmente inexistente. Um Estado liberal não é um Estado minúsculo mas sim um Estado que ajuda quem precisa sem tomar a sua função social como um pretexto para asfixiar a sociedade. A liberdade e a dignidade das pessoas pode requerer menos Estado aqui, mas também pode necessitar de mais Estado ou, mais provavelmente no caso Português, de melhor Estado ali.

Trinta e quatro anos depois da revolução de 74 a nossa sociedade ainda está presa no torniquete de que um dos braços é uma direita marialva e assustada que defende o direito dos mais fortes (e que se aproveita, para isso, da defesa liberal dos direitos das pessoas, subvertendo-os), e uma esquerda ressentida das boas intenções e da carreira de Estado financiada pelos contribuintes. Há felizmente outras esquerdas e outras direitas, e muita gente sensata e inteligente de um lado e do outro. Não deixa todavia de ser verdade que é esta esquerda-direita caricatural que, no fim do dia, marca e polariza o campo político Português.

Internacionalmente, o espectro liberal é amplo e, segundo os efeitos de óptica da polarização esquerda-direita de cada país, ora é visto mais à esquerda (como nos EUA), ora mais à direita (como entre nós). Isso só demonstra, para além das diferenças inegáveis entre os liberalismos segundo os climas políticos e culturais em que se desenvolvem, que pensar o liberalismo em termos de esquerda ou de direita é um erro de perspectiva em que, infelizmente, muitos pretensos liberais incorrem, e de que muitos não-liberais se aproveitam, fazendo-se passar pelo que não são (outro dia fui abordado por um desses alegados liberais que na realidade evoluía num curioso caldo de monarquismo, elitismo, individualismo agressivo e discreto cripto-catolicismo...)

Tu dás uma sacudida inteligente e pela positiva a este abraço mortal e, por isso, te saúdo.

Cordialmente,

Miguel Montenegro

PS - Desculpa lá o comprimento excessivo do comentário.

Retrato de André Escórcio Soares

Obrigado pelo teu

Obrigado pelo teu comentário Miguel.

Retrato de Igor Caldeira

Liberalismo real

O choque com a realidade é das melhores coisas que pode haver para confrontar os nossos caros "classical".

Já agora, a respeito da Austrália (como em vários outros países), há mais que um partido liberal. O Australian Liberal Party que referes é um partido liberal conservador, tal como o Country Liberal Party. Os Australian Democrats são liberais sociais.

Retrato de André Escórcio Soares

Tens razão Igor, obrigado

Tens razão Igor, obrigado pelo reparo. De qualquer forma esta frase em concreto podia perfeitamente ser retirada de um qualquer documento dos Australian Democrats.

Ver: http://www.democrats.org.au/

compartimentação

As pessoas, todas as pessoas, têm tendência a catalogar e compartimentar toda a informação que têm.

Infelizmente em Portugal, e na política portuguesa essa compartimentação resume-se a esse dualismo direita/esquerda. Talvez seja fruto da tradição judaico-cristã, ver em tudo essa luta eterna entre o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas. Ao mesmo tempo isto leva a uma visão redutora do mundo onde tudo é bidimensional e a preto e branco.

Tudo o que fica a meio, na zona cinzenta é visto com desconfiança, como alguém que não soube escolher o lado da luta.Assim, é visto com muitos maus olhos alguém que defende a liberalização disto e daquilo em termos de economia e mercado, e, ao mesmo tempo, fala em causas sociais e igualdade de oportunidades. Dos três valores base daídos da revolução de 1789, aquele que mais eco teve em Portugal terá sido o da Igualdade. Alguém há tempos, a propósito do Maio de 68, afirmava que tanto franceses como portugueses facilmente abdicariam da Liberdade e da Fraternidade desde que tivessem Igualdade. Ninguém quer fazer parte dos "diferentes", isso requer uma certa coragem e capacidade de encaixe. Haverá sempre esta dualidade "nós" versus "os outros"(à lá Lost)?

Caberá de certa forma aos liberais, libertar as pessoas da prisão dualística, levando-as a ver a tridimensionalidade e todas as maravilhosas cores que compõem a realidade.

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