
Vale muito a pena ler, na penúltima edição da revista The Economist, um longo artigo sobre a forma como a crescente facilidade e barateza da obtenção de informação genética sobre os indivíduos alterará, quando não invialibizará, o negócio dos seguros de saúde. (infelizmente, não consegui encontrar esse artigo online.) É que, cada vez mais, vão sendo descobertos genes que propiciam doenças muito vulgares, como a diabetes tipo 2 ou o cancro da mama, ou então doenças mais raras mas de tratamento muito caro, como a Alzheimer ou a Crohn. Crescentemente, de forma cada vez mais rápida e barata, os indivíduos poderão fazer análises genéticas a si mesmos e descobrir a sua propensão para diversas patologias. A longo prazo, os seguros de saúde, que se baseiam - como todos os seguros - na incerteza e na partilha de riscos desconhecidos, tornar-se-ão crescentemente uma forma inviável de assegurar a saúde das pessoas. O The Economist diz, claramente, que, num tal ambiente, só haverá duas opções: ou um Serviço Nacional de Saúde que assegura de foma igual e cega a saúde (ou um mínimo dela) a todos os cidadãos, ou Contas Poupança-Saúde individuais, nas quais cada cidadão se responsabiliza pela sua própria saúde.
Comentários
O problema
O problema é que tudo está bem com a conta individual se tens bons genes ou genes mais ou menos. No entanto, tudo vai mal, se nasceste com genes errados. É que não há dinheiro que te salve.
Sinceramente, considero que as contas individuais são óptimas para as despesas do dia-a-dia, género dentista, constipações, entorces, oculista, e outras doenças relativamente pouco dispendiosas. Agora quando fales em Cancro de Mama e Alzheimers, bem podes esquecer a conta individual.
No entanto, mesmo com conhecimento total do teu código genético, a seguradora pode continuar a fazer seguros de saúde. Basta para tal que o seguro seja de aceitação obrigatória por parte da companhia de seguros e de preço máxima (para serviços mínimos), garantido. O efeito é o mesmo que um serviço nacional de saúde.
"quando fales em Cancro de
"quando fales em Cancro de Mama e Alzheimers, bem podes esquecer a conta individual"
O cancro da mama é uma doença que se trata. Se fôr apanhado cedo, o tratamento não é muito caro e tem sucesso garantido. Sob esse ponto de vista, o conhecimento dos genes é uma vantagem, pois permite terapêuticas preventivas e rastreios mais cuidadosos. Por exemplo, uma mulher que saiba que tem os genes que favorecem o cancro da mama, fará rastreios mais cuidadosos e mais frequentes, e então apanhará a doença bem cedo e terá muito boas hipóteses de cura.
Neste caso, acho que um seguro individual de saúde é uma coisa boa. O cancro da mama é uma doença grave, mas não crónica.
A Alzheimer é totalmente diferente. Trata-se de uma doença crónica, que exige tratamento contínuo, aliás sem hipóteses a longo prazo. Aqui sim, um seguro individual de saúde de nada vale.
"Basta para tal que o seguro seja de aceitação obrigatória por parte da companhia de seguros e de preço máxima (para serviços mínimos), garantido. O efeito é o mesmo que um serviço nacional de saúde."
Claro, se o seguro é de aceitação obrigatória e de âmbito obrigatório, o efeito é o mesmo que um SNS. Pergunta-se então qual é o interesse de haver seguros de saúde: será só para serem os privados a gerir um sistema que é, de facto, público?
Há no entanto um problema se o seguro não fôr de âmbito obrigatório: uma pessoa que saiba que tem um mau código genético fará seguros com grandes coberturas, uma pessoa que saiba que tem bons genes não fará seguro nenhum, ou fará um seguro com coberturas mínimas. No fim do dia, as seguradoras ficam só com maus clientes - aqueles que têm maus genes - e vão à falência. É por isso que esta coisa do código genético sabota os seguros de saúde.