Geração Rasca, Geração Obscurantista

Retrato de Filipe Melo Sousa


É bem evidente que é a desigualdade, mais do que a pobreza, ou mesmo em vez da probreza, a causa do sentimento de revolta entre aqueles que infelizmente têm dado um triste espectáculo pelas ruas francesas nos últimos dias. Como argumento, veja-se como é junto dos imigrantes de segunda geração, e não dos seus pais, que surge a exteriorização da revolta em larga escala. Precisamente a geração que recebeu todo um leque de oportunidades (saúde, alojamento, educação gratuita, estágios profissionais), ao contrário do que foi a realidade uma geração acima. Apesar da discrepância de meios, o modo como souberam encontrar o seu lugar na sociedade francesa, e integrar-se na nação de acolhimento teve o resultado oposto. Talvez não reflectido nos números de facto, mas é essa a percepção de toda uma geração de filhos de imigrantes, muitos de nacionalidade francesa. Ségolène prometeu, e instigou por motivos oportunistas, e a sua base eleitoral cumpriu. Só na noite em que Sarkozy foi eleito, mais de 700 carros foram incendiados. Um número que infelizmente se vai tornando banal, mas dá bem a dimensão do conflito social que a França vive. Resta perante este facto qual das duas posturas assumir:
- que se deve sancionar as pessoas que cometem estes actos
- que se deve diminuir a desigualdade, legitimando assim os actos, e dando razão a quem os cometeu

Proponho-me contradizer o argumento de que a desigualdade é um problema por razões morais. Sob que moral se argumenta? De forma repetida, tenho lido o apelo ao pragmatismo que visa legitimar essa moral. O que é uma razão pragmática? Sendo o pragmatismo por definição uma aplicação correctiva a contra-princípio (a constatação do falso dilema entre teoria e prática), como se pode falar de pragmatismo em termos de razão? Pois precisamente o pragmatismo é uma prática em termos de evolução do raciocínio que leva a questionar a formulação teórica existente, e a agir de modo realista, aplicando aquilo que se chama o bom senso para resolver um problema de curto prazo. Deveria levar de seguida a uma reformulação das premissas. A acção pragmática pede uma reformulação em termos de princípios. Foi o caso do pragmatismo da política de Mikhail Gorbachev. À glasnost seguiu-se a perestroika. À refutação da física newtoniana seguiu-se a teoria da relatividade. O que sustenta portanto a moral igualitária?

Afinal quem defende um código moral, de certo o achará coerente. É essa coerência que se pretende entender, e não a lacónica constatação de que a inadequação dos modelos per si servem de modelo moral, caminhando de forma errónea, numa política de compromissos em que se procura atingir o centro sem saber: o centro de quê? Uma política de compromisso social em que se tenta conciliar as posições à esquerda e direita, leva cada um dos intervenientes a adoptar a seguinte estratégia: extremar ao máximo as suas posições. Pois numa sociedade em que a virtude se quer ao centro (independentemente de ser o centro do umbigo ou o centro da terra), a estratégia de sucesso é extremar a posição de modo a trazer o consenso o mais próximo possível da sua posição.

Também tem sido aqui referido que a desigualdade representa um enorme potencial de insegurança para todos. Sim, certamente representa, então sejamos francos, e chamemos as coisas pelos nomes. Reconhecemos que estamos perante uma chantagem social. Pode existir conveniência em ceder à violência, à força de uma arma para atingir paz social, mas isso não significa de modo algum que os indivíduos com mais riqueza tenham interesse sem motivo algum em ceder o seu património. Significa antes que são coagidos a tal.

Até que ponto é que a segurança é preferível à insegurança? Entre a segurança de ficar sem nada, e o risco de perder algo, prefiro claramente o risco à segurança. A mentalidade latina, e sobretudo a portuguesa é avessa ao risco. A publicidade no crédito à habitação, apelando a aderir à taxa fixa é disso um exemplo. O Jean-Claude Trichet é descrito num anúncio do BES como uma mula teimosa que sobe ou desce a colina, por capricho. Bom, não é essa a opinião que tenho do senhor. Pelo contrário, tenho a percepção de que as taxas vão continuar a subir, e que ele vai continuar a alegar pressões inflacionistas para continuar a subir a taxa de referência. Apesar disso tudo, é essa aversão ao risco que levará uma pessoa a fazer um contrato de taxa fixa em vez de usar a taxa variável, pagando inclusive os piores cenário (5,5%) em vez de incorrer no “risco” de pagar 4%, 4,25%.. até alcançar eventualmente os 5,5%. O mesmo se aplica em relação à segurança, e ao dito tecido social. Cai-se no sentimento de que mais vale prescindir de tudo em nome da segurança e da paz social.

Queria contradizer o argumento segundo o qual os países mais pacíficos neste aspecto são mais ricos. A opção não é entre escolher o nível de vida Sueco ou o nível Brasileiro. A opção é entre escolher ou não de abdicar de uma parte da sua vida a troco de diminuir o risco de ser agredido. Tal como Atila pedia a Roma, a troco de não a invadir e saquear. A própria existência desta chantagem social demonstra nada mais, que o estado falhou no seu papel de garantir a segurança e os direitos fundamentais, pedindo um tributo acrescido. Pergunto-me então qual a legitimidade desse mesmo estado para colectar impostos em nome de um serviço que não presta.

O apelo reiterado ao pragmatismo mais nada é do que um apelo a uma solução que não se consegue de modo algum racionalizar. Não passa de uma declaração de intenções que não se consegue justificar. Não é nem um desejo, nem uma conclusão lógica. É, pior do que um dogma, é um dogma para o qual se aceita a aceitação alegando falta de lógica à partida. Apelos à abdicação intelectual recordo-me apenas do tempo do fascismo italiano, em que se pretendia uma revanche do instinto sobre o intelecto. Segue-se o apelo à violência generalizada. É um pensamento que ao longo do tempo apenas tem levado à ditadura e ao obscurantismo. É essa atitude bem-pensante que vai despojando a sociedade do seu intelecto, num acto de capitulação intelectual de retorno aos dogmas. Assistimos a uma reforma contra-iluminista.

Comentários

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Retrato de Ricardo Francisco

Muito bem.

Muito bem.

Mas que grande confusão de

Mas que grande confusão de comentário...
Começa por bradar contra o "pragmatismo" para acabar a avisar contra o risco de ascenção do pensamento dogmático. Se o Fiipe parasse para pensar um pouco constataria que não há meio-termo entre "pragmatismo" (ou utilitarismo) e pensamento dogmático. Se calhar acha que há um "coisa" diferente que provavelmente designa por "princípios". Pois tenho uma notícia para lhe dar: princípio=dogma. Tudo aquilo que se defende porque sim, é dogma.

O texto pode-se ainda encontrar uma interessante passagem em que o Filipe se insurge contra os apelos à violência generalizada... estranho, de quem defende o uso (e abuso) da violência nas relações internacionais. Será um daqueles casos em que o uso da violência só é admitido como "legítimo" quando é favor de quem a condena?...

??

Se o Pedro "parasse para pensar um pouco" talvez compreendesse o que o Filipe escreveu.

Se para o Migas é tão

Se para o Migas é tão claro, ficava agradecido que me resumisse então o que o Filipe diz ou quer dizer com o seu texto.

Muito bom texto. Filipe, se

Muito bom texto.

Filipe, se possível, responde-me a uma coisa:

Tomando como bom o argumento "insegurança resultante da desigualdade = chantagem social", não te parece, à luz das recentes discussões (neste blog e no nosso), que te auto-categorizas como um liberalóide?

Sem ironias, estou a usar os exactos termos aplicados em mais que uma caixa de comentários.

Pergunto-te porque me parece ter sido uma das diferenças consideráveis que se pode estabelecer entre a blogosfera liberal-social e a restante (de tendência liberal) - a abordagem política à desigualdade.

Caro Cirilo, Como já deve

Caro Cirilo,

Como já deve ter reparado existem várias correntes dentro do mls.

Eu falo como:
1. Blogger alinhado com a carta de princípios.
2. Indivíduo que dá muito valor à força de iniciativa do Miguel Duarte ao promover um movimento político assumidamente liberal (independentemente de concordar ou não com muitas das linhas programáticas)
3. Indivíduo que respeita o Filipe por tentar fazer do mls um movimento mais à medida do que acredita, por dentro.

Os liberais deste país, mais ou menos liberais ou whatever, estão tão preocupados em definir-se ideologicamente que se esquecem de se definir como agentes práticos e reais de mudança. É que "falar" é fácil, ser fiel a ideias, enquanto estamos no campo das ideias também é fácil. O probema é quando queremos passar das ideias à prática. Aí temos de aplicar do tal pragmatismo de que fala o Filipe. Opções difíceis. E parece que muito poucos liberais blogosféricos têm a força para irem lutar para a realidade.

E Cirilo, contra mim falo. Acredita.

Pragmaticamente

Pragmaticamente, se os membros do MLS quisessem fazer algo pelo liberalismo em Portugal, alistavam-se todos no PS ou no PSD.

Retrato de Ricardo Francisco

Já agora, qual é o

Já agora, qual é o racional dessa afirmação?

Ricardo:

Concordo plenamente. E também aceito a crítica.

Partilho contigo a admiração pelo esforço do Miguel.

A certa altura achei que já não se justificava essa mudança "por dentro". Ou não se conseguia, melhor dito.

Acho que o trabalho se poderá estar a diluir em objectivos mal definidos. E algo penalizado por algumas influências não liberais (também defino o Miguel como liberal).

E acho que já dei a entender que me parece mais relevante pensar como liberal em todas os domínios, embora me falte especificar o grau de relevância dos mesmos.

Mas vou escrever sobre isso. Agradeço que possas acrescentar os teus comentários.

Segurança

“Quando a Justiça escasseia, temos que saltar para a Liberdade, quando a Liberdade exagera, temos que saltar para a Justiça. Mas a Segurança e a Liberdade só estão no Guélanismo”

Quitéria Barbuda

Retrato de Filipe Melo Sousa

Liberalóides

Caro Cirilo,

não me parece pelo teor dos textos que te conheço que tenhas como propósito ironizar. Mas sei perfeitamente que no mundo virtual é difícil detectar certas nuances de linguagem que é impossível transpor da oratório comum. Expressões, entoações, tónica, tudo isso desaparece. Na blogoesfera tende-se a escrever como se fala, dada a dinâmica da comunicação, e no entanto há a limitação fonética.

Respondendo portanto à tua pergunta, digo-te que sim. Existem dentro do MLS várias sub-espécies ideológicas. Podemos encontrar-lhe vários taxonomias. Dividir-nos em domínios, reinos, filo, classe, ordem, família, género, espécie. E se quisermos acrescentar ainda subfilos, interclasses, coortes, subordens, sub-espécies. Relembro-te que estamos a movimentar-nos dentro do mundo liberal, excluindo assim mais de 90% das orientações políticas portuguesas. É desse facto que não nos apercebemos. Como será possível gerir um movimento, se não conseguimos gerir uma questão como o tamanho do estado, entre liberais que precisamente advogam a sua redução? A crispação da discussão vem precisamente da estratégia óptima que descrevi: extremar a posição de modo a trazer o consenso mais perto de si. Se quiseres ser um agente prático da mudança, como diz o Ricardo, nada ganhas em salamizar a classificação do liberalismo. Ao associar-te com outros indivíduos assumes a diluição da tua identidade num objectivo comum. Ao mesmo tempo ganhas a oportunidade de incutir o teu cunho pessoal nos restantes.

O que é portanto um liberalóide? Que eu sou daqueles que defende um estado mais reduzido, digo-te que sim. Que defendo a sanção dos infractores em vez da sua legitimação? Sem dúvida. Que é necessária a paz social? Sim, mas chamemos as coisas pelos nomes. Coação não é opção.

Bom, acrescento ainda que a desinência nominal -óide é frequentemente utilizada para designar algo que "se assemelha a". Acontece que esse sufixo tem sido utilizado, em vários domínios com uma conotação pejorativa. O termo liberalóide é assim uma arma de arremesso desprovida de argumento. Apenas isso. Em termos de teor informativo, apenas diz que me assemelho a um liberal. O mais possível, e com todo o gosto :)

Filipe:

Mesmo que te pareça que coloquei uma tricky question, asseguro-te que não foi com intenção cisória.

Parece-me que desempenhas bem o papel que definiste pra ti e costumo concordar contigo.

O problema que quis colocar tem duas vertentes:

1. - Aproveitar uma expressão com intenção negativista (vinda, ainda por cima de um habitué) e marcar território com este tipo de ideia "pra lá de nós, são liberais que não querem redistribuição" parece-me um péssimo acto de gestão, sabendo das diferentes correntes que há no mls, tal como já explicaste.

2. - Logo a seguir à serie de posts "social do liberal" percebe-se algo clivagem de enfoque, nomeadamente comparando com os teus. Como tentei afirmar em tempos, este mix faz mais mal à causa liberal do que discussões abertas entre blogs liberais não alinhados politicamente.

Boa sorte, em todo o caso.

Comentário no

Comentário no Small-Brother.

Segurança e Risco

"Entre a segurança de ficar sem nada, e o risco de perder algo, prefiro claramente o risco à segurança"

Irrelevante, porque no caso da segurança e da redistribuição o que está em causa é outra coisa - "o risco de ficar sem nada versus a certeza de perder alguma coisa" (isto, a certeza de pagar uma percentagem relativamente maior do seu rendimento em impostos versus a possibilidade de ter perdas substanciais (talvez da própria vida) num ataque criminoso.

Retrato de Filipe Brás Almeida

Humpf

É um texto interessante mas o FMS está a fazer aqui uma simplificação, a meu ver errada, e a colar-se à ideia de que todo o mecanismo social ou do estado serve apenas ou principalmente para reduzir o crime e que é fruto de uma cedência perante uma chantagem entre os «haves» e os «havenots».

Eu até posso ser um «have», e ao mesmo tempo desejar que existem estruturas sociais que me ajudarão a manter-me vivo e digno, se por acaso perder o emprego, casa, ou faculdades mentais e físicas.

A situação na França é o reflexo várias situações problemáticas. Para além de obvias falhas de urbanização e o consequente racismo institucionalizado que delas advém, é sobretudo um problema de desemprego que atinge taxas absurdas. O melhor programa de integração cultural e social é um emprego.

excelente food-for-thought.

excelente food-for-thought.

Ficamos a saber que para o

Ficamos a saber que para o Filipe, que se auto-denomina de liberal, o liberalismo mais não é do que a defesa do status quo - afirma ele que é pura coacção e atentatório da liberdade da classe rica e abastada toda e qualquer redistribuição de riqueza (mesmo sendo as regras do jogo conhecidas a priori - lógica redistribuidora na sociedade, atendendo ao benefício que uns - os ricos - retiram da vivência em sociedade ser sobejamente superior ao proveito para outros (pobres).
Sendo assim, e atendendo a este ponto de vista, defendido pelo Filipe, de que o liberalismo assenta na preservação do status quo, então podemos encontrar um rol elevado de exemplos em que seria atentatório da liberdade dos interessados a alteração de certas práticas outrora criadas:
1 -é contra a liberdade de um monopolista, decretar um fim de um monopólio
2 - foi contra a liberdade de um conjunto de famílias portuguesas o fim do proteccionismo e privilégios conferidos pelo Estado Novo, e que lhes permitiu terem acumulado fortunas e serem hoje os representantes portugueses do capitalismo (coitadinhos, foram coagidos a perderem as benesses de outrora, a abdicarem de direitos adquiridos no tempo de Salazar, não há direito)

Enfim, podiamos continuar com outros exemplos, mas acho que o importante ficou captado: para o Filipe existe um dogma claro: ele vê a propriedade privada como um direito absoluto em si mesmo, descurando a génese da propriedade privada - contrato social com direitos e obrigações conferidos ao proprietário - achando legítimo que os ricos possam rasgar esse contrato social ma parte que lhes convém - obrigações - mantendo inalterados os seus direitos -, ao invocarem o direito a uma política não redistribuidora da riqueza.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Gonçalo

Garanto-te que não defendo o status quo. O status quo hoje não é de certeza uma sociedade liberal. Existem dois países dentro de Portugal:
- o país daqueles que se levantam cedo e trabalham (contribuintes líquidos)
- o país daqueles que são assistidos pelos primeiros

Precisamente por serem as regras do jogo defendidas à priori se assiste a uma evasão das elites pensantes e trabalhadoras no início da sua carreira contributiva. O que acaba por ser obviamente pior para todos no geral. Mas não é por princípio de bem geral que defendo o direito de cada um ao seu corpo. É meramente por uma questão de justiça individual. Eu defendo liberdades individuais, não liberdades colectivas. Para aqueles que ficam em Portugal resta-lhe seres prisioneiros do seu amor à vida. Se quiserem ter uma vida digna, por amor a si ou à sua família, pensando no futuro dos seus filhos, não têm opção senão consentir no despojo. O estado socialista tem estes cidadãos precisamente acorrentados ao amor à sua família e a uma vida digna para si e para os mais próximos. A assimetria de amor, e a assimetria de amor-próprio são para o estado um instrumento de extorsão.

Agora Gonçalo, algo que já tenho repetido por aqui: quem defende um código moral de certeza o acha coerente. Ainda não percebo à luz de que moral defendes a redistribuição coerciva. Em vez disso lanças pretensas incoerências sobre principios liberais. Argumentos que eu me proponho desde já rebater:
- Tens toda a liberdade de acabar com um monopólio. Basta prestar o mesmo serviço que ele a um preço inferior.
- O proteccionismo é um princípio conservador, não um princípio liberal. Nunca o defendi. Durante o estado novo não se podia comprar coca-cola, de modo a proteger a compal. Tu sabes muito bem, que eu não viveria sem essa deliciosa bebida :P

A tua noção relativista da propriedade é uma visão tua, com um propósito do qual discordo. Advogas um contrato social coercivo, e abstrais-te das origens da propriedade em si. O dinheiro é um instrumento de liberdade, que te possibilita restringir as horas de trabalho para um terceiro. Liberdade que deixas de ter, e acredito que sintas essa falta de restrição na pele. Um meio de troca que te propões corroer para fins a meu ver imorais: a servidão de um sujeito em detrimento do outro.

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