
Aqueles - entre os quais não me conto - que defendem a transição para um sistema de capitalização nos fundos de pensões de reforma, como por exemplo os "pandits" do Compromisso Portugal, não se coíbem de afirmar que uma das suas motivações é a disponibilização de atraentes somas financeiras para o mercado de capitais. Os fundos de pensões de reforma são atraentes, não somente porque movimentam avultadas somas financeiras, como sobretudo porque essas somas podem ser investidas na sua quase totalidade em aplicações de muito longo prazo, dado que elas só podem ser levantadas quando o aforrador atinge a sua idade de reforma, e não em qualquer momento anterior. Os fundos de pensões de reforma têm portanto poucas necessidades de liquidez, e essas necessidades são perfeitamente previsíveis antecipadamente, o que faz com que possam conceder crédito barato a quem dele necessita - nomeadamente as empresas - beneficiando, presumivelmente, a economia.
Mas será isto, de facto, benéfico, no momento atual, para a economia? Tenho sérias dúvidas. A economia atual carateriza-se por empresas com elevados níveis de lucros, logo com elevadas capacidades de auto-financiamento das suas necessidades de investimento, logo com pequena necessidade de recorrer a crédito. O crédito é cada vez mais um crédito ao consumo, e não ao investimento. Ora, o crédito ao consumo dá crescentes sinais de estar a ser concedido ao desbarato, a pessoas muito pouco dignas de crédito e já sobre-endividadas. Cada vez mais os bancos emprestam sem olhar a quem, porque dispõem de capital em excesso e têm que emprestar esse capital para procurar, talvez debalde, rentabilizá-lo.
Nestas condições, disponibilizar as maciças quantias financeiras dos fundos de pensões para empréstimos a longo prazo dificilmente poderá beneficiar a economia, podendo até, de facto, prejudicá-la seriamente. Com boa probabilidade, grande parte desse dinheiro seria emprestado a um prazo de 30 ou 40 anos (!) para compra de habitação própria - ou de segunda ou terceira habitação... - a consumidores já sobre-endividados, com efeitos negligíveis na competitividade do país na produção de bens transacionáveis, e boa probabilidade de o empréstimo nunca ser pago de volta. Ou seja, os aforradores acabariam sem dinheiro para gastar na sua reforma.
Comentários
Sinceramente, acho que nem
Sinceramente, acho que nem as pessoas que dizem que os fundos privados vão significar mais dinheiro para o mercado de capitais, nem os que, como o LL, dizem que isso pode ser negativo, têm razão.
Se as pessoas deixam de descontar um dado valor para a SS pública para o aplicarem em fundos privados, isso quer dizer que a SS pública vai ficar sem esse valor. Logo, das duas uma, ou vai ter que pedir emprestado esse valor (para fazer face aos seus compromissos), ou vai deixar de aplicar esse valor no seu fundo de poupança (composto por titulos de divida pública, o que quer dizer que o Estado vai ter que vender esses títulos a outros investidores).
Ou seja, a quantidade de dinheiro que vai entrar a mais no mercado de capitais vai ser compensado por pedidos de empréstimo do Estado em igual valor, e a situação global do mercado de capitais manter-se-á exactamente igual.
Tem em parte razão
O Miguel Madeira tem parcialmente razão: numa fase de transição do sistema atual para um sistema de capitalização, o efeito no mercado de capitais é praticamente nulo. O único efeito (perverso) que se obtem é que o Estado (i.e. todos os contribuintes) fica (ainda mais) crivado de dívidas, pois que tem que cumprir os compromissos da Segurança Social à custa da emissão de dívida pública.
No entanto, a longo prazo, i.e. daqui a 30 ou 40 anos, o que os defensores de um sistema de capitalização pretendem é que a Segurança Social pública perca muitas das suas atribuições. Nessa altura sim, o mercado de capitais ficará com muitíssimo mais capital - e capital de melhor qualidade, por permitir aplicações de longo prazo - à sua disposição. Com os potenciais efeitos perversos que aponto no meu post.
Luís Lavoura