
"A maior surpresa é esta: porque é que há tanta gente sem cartão de utente?"
Comentário de Pimenta Marinho da ARS do Norte, devido à descoberta que 1,3 milhões de portugueses não estão sequer inscritos no Serviço Nacional de Saúde.
Será porque, o SNS não presta e quem pode ter seguro privado nem lá põe os pés? Pessoalmente, não me lembro qual foi a última vez que usei o SNS. Felizmente tenho um bom seguro privado e não tenho que sujeitar-me a horas de espera no hospital do SNS, ou meses de espera por uma consulta num centro de saúde.
No entanto, Pimenta Marinho deveria era agradecer a esses 1,3 milhões de portugueses que não estão inscritos no SNS, mais a outros tantos que estão inscritos mas não põem lá os pés (o meu caso). É que se a coisa é como é, imagine-se como seria se todos os que contribuem para o SNS o usassem!
Comentários
O SNS é o caixote do lixo
O SNS é o caixote do lixo para quem não tem outro recurso.
Um pouco como se está a fazer com as escolas públicas, em que não é preciso estudar para passar. Os pais que colocam os filhos no privado deviam ter o direito a 100% do montante equivalente em retorno de impostos.
Inadaptação
O SNS foi pensado para o país de há 30 anos e serviu-nos muito bem, atendendo ao facto de a Saúde ser provavelmente o único ranking mundial onde estamos no topo. Actualmente é um monstro com pés de barro e sofrerá cada vez mais uma sangria. Uma das coisas em que isso melhor se vê são as limitações geográficas: cada pessoa ter de estar agregada a um centro de saúde e não poder escolher onde ir (mesmo que dentro apenas do SNS) é escabroso.
Filipe, esqueces-te que os gastos com escolas privadas excedem largamente o dinheiro gasto com o Estado nas escolas estatais por aluno, sendo que muitas das primeiras ainda têm financiamentos estatais bastante apreciáveis (rácio de €1370 por aluno do privado, quando no público - financiado apenas com impostos sem propinas - o rácio de financiamento estatal é de €3506), em particular os colégios religiosos. E isto, já esquecendo o dinheiro perdido em benefícios fiscais com gastos de educação, que à partida serão superiores entre quem tem filhos no privado e quem os tem no público.
Portanto estarias a criar uma espécie de subsídio regressivo, obrigando a classe média (quem efectivamente sustenta o Estado) a pagar as escolas das classes mais abastadas.
Igor eu apenas constatei que
Igor eu apenas constatei que as escolas estatais estão-se a tornar refugo, não estava a preconizar nada. O objectivo era rebater as estatísticas de pretenso sucesso escolar por parte da ministra, quando na verdade a menor taxa de reprovações é apenas sinal de que se baixou a fasquia. Não estava a fazer juízos de valor quanto ao financiamento.
Mas falando do financiamento do ensino, constato que existe uma dupla injustiça, porque quem paga uma boa educação para os filhos é obrigado adicionalmente a pagar o financiamento - caro - de um mau serviço prestado pelo estado, do qual não vai usufruir.
"as escolas estatais
"as escolas estatais estão-se a tornar refugo"
Eu tenho o meu filho mais velho numa escola estatal, se bem que apenas no 2º ano, e não tenho a noção de que aquilo seja refugo. Até tenho a impressão de que ele está a aprender muito, e muito depressa, e que tem uma professora bastante exigente. A turma é bastante boa, tão boa que a professora se vê obrigada a ensinar coisas do 3º e 4º anos para manter os alunos motivados e sempre a aprender. E vejo que bastantes colegas do meu filho são filhos de pessoas com um nível cultural relativamente alto, embora também haja outros colegas de um nível sócio-cultural mais baixo. Não tenho, em todo o caso, nada a noção de que aquilo seja um refugo. Não é elite, mas também não é refugo.
Em compensação, uma prima minha tem a neta no Liceu Francês do Porto, e eu verifico que a miúda está a anos-luz do meu filho em todas as matérias, tanto em leitura como escrita e aritmética. Está numa escola supostamente de elite, mas o seu desempenho prático é muitíssimo pior do que o meu filho que está no "refugo".
"quem paga uma boa educação para os filhos é obrigado adicionalmente a pagar o financiamento - caro - de um mau serviço prestado pelo estado, do qual não vai usufruir"
Isso não é argumento. O Estado presta milhentos serviços dos quais eu não usufruo e que sou, não obstante, obrigado a pagar. Alguns desses serviços eu até os considero indesejáveis, mas tenho que continuar a pagá-los.
Se fôssemos aceitar este tipo de argumentos, pois bem, um podia recusar-se a pagar para o exército, outro recusava-se a pagar para a polícia, outro não pagava para os tribunais, etc. As pessoas só pagavam os serviços à la carte.
Luís Lavoura
Acontece que quando se paga
Acontece que quando se paga a um exército estatal, não existe qualquer outra alternativa para uma pessoa de proteger. O estado chama a si o monopólio do uso da força para a protecção do cidadão. Assim, não se pode recurrer individualmente à sua. O que se torna problemático em certos casos em que se quer despejar um inquilino e espera-se anos, mas isso levar-nos-ia a outra discussão.
No caso da educação e da saúde, o cidadão é obrigado a pagar uma taxa que acaba por não usufruir, porque o serviço prestado é mau. Existem ainda escolas boas, e que continuam a ser de elite. Friso bem: ainda. Imagino que existe restrições geográficas, socioeconómicas e de desempenho dos alunos para uma criança ser aceite nessas escolas. São precisamente esses últimos redutos que estão a ser desmantelados, para nivelar por baixo.
Quando a reforma estiver concluída, falamos.