
Já disse antes que gosto de evitar falar do tema educação (no sentido mais estrito) porque tenho tendência a exaltar-me e mesmo quando estou calmo exprimo opiniões para as quais a maioria das pessoas ainda não está preparada. (imagino eu que no futuro muitos pensarão como eu).
Mas como este blog só é lido por pessoas muito à frente, hoje venho propor-vos o fim das aulas de educação sexual de uma vez por todas. Aquelas coisas da sida e dos preservativos fala-se em biologia. Mas educação sexual não, porque sexo não se ensina.
E para acabar de vez com a disciplina de educação sexual proponho já a substituição pela disciplina de “conversas de sexo”. Exactamente, uma cadeira onde se fala de sexo.
Chamo-lhe conversas porque o professor não vai ensinar nada e digo de sexo, porque o sexual deixa espaço para andarmos à roda sem falarmos do tema. Para que não haja dúvidas chama-se “conversas de sexo”.
A idade dos alunos não é problema pois são os alunos que escolhem o nível de maturidade conceptual da conversa, enquanto os professores estão lá para moderar, pedir coerência e chamar a atenção para qualquer ponto mais obstinado. Mas apenas para chamar a atenção.
Naturalmente o objectivo desta disciplina é criar “awareness”- perdoem-me a incapacidade de traduzir esta palavra.
O desafio desta aula seria conseguir falar abertamente sobre os vários temas sem tabus, mas simultaneamente conseguir que os vários alunos respeitassem os colegas, o professor e o objectivo da cadeira.
Ao longo das aulas iríamos abordar os temas: fantasias, traição, impotência, ejaculação precoce, curtes, violação, tendências sexuais, violência sexual, pornografia, pedofilia, sexismo, incesto, complexo de édipo, tamanhos, perversões, swing, morangos com açucar, posições, sado-masoquismo, etc.etc.etc.
E sim, iamos falar muito de amor, que curiosamente é um tema que não se aborda em nenhuma disciplina da escola. Não, nem mesmo em religião e moral.
Ao contrario do que possa parecer o meu objectivo não é que andemos todos só a pensar em sexo, mas sim criar esse algo tão valioso que é a “Awareness”.
A cultura portuguesa ignora de tal forma este conceito, basilar da ética e da vida em sociedade, que nem sequer possuímos uma palavra para ela.
Sem diálogo não há empatia. Sem empatia não há awareness. Sem awareness não há conhecimento, responsabilidade ou respeito. E naturalmente que sem conhecimento, responsabilidade e respeito não pode haver liberdade.
Perdoem-me a minha falta de humildade, mas eu queria que percebessem a minha tristeza e frustação num sistema de ensino obsoleto, que ainda assim vai avançando aospoucos a pulso de muitos professores que não se conformam.
Comentários
Educação, ponto
É um pouco indiferente o nome da disciplina (ou se a matéria se divide entre disciplinas) e o método usado. Desde funcione e que as crianças aprendam o mínimo necessário para prevenir contra comportamentos de risco e para alargar a compreensão a manifestações amorosas diferentes do que quer que elas tenham na cabeça.
O problema é que, digo eu,
O problema é que, digo eu, é capaz de ser complicado para as crianças falarem assim tão abertamente de tantos temas relacionados com sexo. Só se esses assuntos forem sugeridos pelo professor, e mesmo assim não sei se será fácil para elas discutirem sem tabus. Não se pode esperar grande discussão de ideias entre pessoas que dêem uns risinhos quando o professor diz "pénis".
Excelente post. Queria
Excelente post.
Queria salientar algo importante e que o Hugo até referiu, o objetivo destas aulas deveria ser criar um espaço onde as crianças e jovens possam perguntar. Mais que um espaço onde o professor (ou técnico de educacional) vai debitar "matéria" acerca da vida sexual dos humanos, deverá ser um espaço interactivo onde os alunos perguntem, respondam e discutam sempre moderado por um professor que deverá não só intervir para que a discussão corra com normalidade mas também para esclarecer eventuais dúvidas.
Não creio que seja complicado os alunos falarem desta tema pois eles falam entre eles, o grande problema é que o único aconselhamento que têm é dado pelos seus pares e por isso por pessoas por vezes também mal informadas. As risadas quando se diz palavras como pénis são coisas normais em algumas idades, é importante que elas ocorram para serem "corrigidas", para os alunos perceberem que é uma palavra comum e que não há motivo para risadas.
palavras e idades
De facto as risadinhas são normais em certas idades, mas infelizmente não ocorrem só nessas idades.
Eu assisti às mesmas risadinhas na faculdade quando professores falavam em segmentação por sexo. Enfim....
mas parece-me que este é um argumento muito forte a favor da disciplina de "conversas de sexo" ou outra vertente de educação sexual mais moderna.
O nome não é de facto o mais importante, mas o método é muito. Temos que ir mais além da aula sobre o preservativo e a sida
Conversas e aulas
Concordo que a educação sexual deve ser preferentemente dada nas aulas de biologia. Nessas aulas dá-se a reprodução das plantas. Deve dar-se também a reprodução dos animais, incluindo dos mamíferos, e dos humanos. Não faz sentido outra coisa. É ridículo que se ensine às crianças os órgãos reprodutores da rosa ou do castanheiro, mas não da vaca. As crianças têm também que saber que há reprodução assexuada e sexuada, e por que é que a segunda é melhor que a primeira.
Mas há outras noções mais particulares, como as de vida sexual, e das doenças sexuais, que talvez constituíssem um desvio nas aulas de biologia.
Quanto às conversas sobre sexo, eu não sei que estatuto elas teriam na escola, nem quem participaria nelas... seriam como as aulas de educação moral e religiosa católicas, nas quais alguns alunos participam enquanto os outros são forçados a ficar uma hora livre no recreio? E quem conversaria - um professor pago para esse fim? Mas os professores são pagos para ensinar, não para conversar com os meninos...
Sejamos claros: educação é uma coisa, instrução é outra. A escola deve fornecer instrução: verdades incontestáveis, saber objetivo. As conversas, que fazem parte da educação, são mais apropriadas para ter com a família e @s amig@s.
Luís Lavoura
Luís, "conversar com os
Luís, "conversar com os meninos" como tu dizes, é um metodo de ensino, promover a discussão é um método de ensino, ensinar não é algo unidireccional, não é só colocares um professor a falar 2h em frente a 20 alunos, isso nem sequer é ensinar é transmitir.
Se houver professores a recusarem-se óptimo, dá lugar aos professores desempregados e que realmente querem ser professores. Se bem que esta disciplina não tem que ser leccionada por um professor de biologia, ou qualquer outro. Pode ser leccionada por um psicologo ou um técnico de desenvolvimento comunitário ou por outro qualquer técnico que esteja dentro da àrea. Arrisco-me inclusivé a afirmar que e estes técnicos estão mais preparados para assumir este papel.