Portugal até tem um projecto político - que é o projecto europeu. Por um lado, as tais elites que se lamentam da falta de projecto não reconhecem à Europa esta categoria; a Europa é a ditadura de Bruxelas sobre Lisboa, o governo dos grandes países europeus sobre os pequenos (como se nós, vizinhos de Espanha e aliados históricos de Inglaterra, não soubéssemos que os grandes mandam nos pequenos!), o politicamente correcto, o Big Brother, e o ateísmo de Estado. Para esses, paciência.
Tivemos e temos, contudo, elites que pressionaram o Portugal dos anos 60 e o marcelismo no sentido europeu.
Preocupa-me o projecto europeu, não por causa das elites do império, mas por causa do projecto em si. O projecto europeu sofre neste momento de uma crise de representatividade; apesar do relativo sucesso do euro (até o dr. Arroja já reconheceu implicitamente que Portugal beneficia da moeda única), os povos europeus enfrentam uma série de problemas e não sentem a Europa como uma ideia capaz de os enfrentar. Num certo sentido, assistimos a um divórcio entre o povo e as elites, que caminham em sentidos diferentes.
Impõe-se uma reflexão profunda sobre o futuro da Europa, que neste momento é um projecto mais vivo nos novos países aderentes da Europa de Leste do que nos membros mais antigos. As elites de Bruxelas terão de compreender que, ao contrário de um projecto imperial, o projecto europeu tem de ser feito com a adesão dos povos, ou falhará. A oportunidade é agora: não existem movimentos europeus sérios de regresso ao nacionalismo dos anos 30, mas apenas muita inquietação em relação ao futuro do projecto. Uma discussão europeia em torno do Tratado de Lisboa seria uma oportunidade magnífica de começar a construir uma opinião pública europeia, e não apenas uma soma de opiniões públicas nacionais concertadas.
Esta discussão europeia seria especialmente útil para aqueles países com menor tradição de discussão pública e com mais dúvidas sobre si próprios. O papel de Portugal na construção de uma nova Europa deve ser relançado.
Tudo isto é tão mais lamentável se reconhecermos que Portugal não tem apenas a receber (€) do projecto europeu, mas também a contribuir.