
Foi já promulgada pelo Presidente da República a lei aprovada por larga maioria na Assembleia da República sobre a despenalização da IVG. Como seria de esperar Cavaco Silva tomou a atitude democraticamente mais acertada, mas o seu instinto político lá fez com que enviasse à Assembleia uns "reparos" para que o seu eleitorado conservador não desgoste totalmente dele.
O aborto será sempre uma decisão livre, consciente e responsável da mulher. Foi isso que os portugueses quiseram e que a Assembleia decidiu por maioria mais do que absoluta.
Mas será certamente agora que os defensores do "não" no referendo podem demonstrar que realmente estão preocupados com a defesa da vida desde a concepção, utilizando toda a energia que empregaram na campanha: actuar junto das populações mais pobres para prevenir e informar, fazer com que a educação sexual nas escolas seja uma realidade de modo a evitar a gravidez na adolescência, disponibilizar informação no sistema de saúde público sobre as alternativas que podem existir ao aborto, e muito mais.
Agora, em liberdade, é que os defensores do "não" têm que demonstrar o que verdadeiramente valem. O dogma, o obscurantismo e a repressão nunca foram nem nunca serão solução.
Comentários
"Em liberdade", mas a que preço?
Caro Miguel,
Antes de mais, congratulo-o pelas excelentes ideias que deu ao povo pró-vida (onde me incluo) a nível de prevenção desse flagelo chamado aborto. Apenas faço um ligeiro reparo: para mim, a Educação Sexual não deve ser uma disciplina autónoma ou isolada, mas inserida numa disciplina mais alargada de Educação para a Cidadania (creio que esta até já existe). Considero que a sexualidade humana, quando vivida num ambiente de respeito mútuo e afecto, é parte integrante de uma cidadania mais responsável.
Agora, isso da "decisão livre, consciente e responsável da mulher" é que ainda me faz espécie. Não porque elas não saibam em absoluto o que fazem. Longe disso. Simplesmente, muitos abortos representam fugas para a frente e para longe da responsabilidade face à progénie, e creio que não se levou isto a sério durante a campanha. E não acredito numa liberdade para matar. Lamento, mas essa comigo não pega. Até porque, em meu entender, a mulher que tem um filho e a mulher que o aborta não estão no mesmo patamar de dignidade humana. Quando a mesma faz as duas coisas em fases diferentes da vida, considero que acertou à primeira e falhou na segunda.
Fora isso, não acho que se deva preocupar em demasia. As associações pró-vida têm já algum historial em apoio a grávidas, e não será agora que vão parar.
Cordialmente,
Fernando Barragão.