Deixaram de falar no Darfur

Retrato de Luís Lavoura

Há muitos meses que não se ouve falar no Darfur e na necessidade urgente de a União Europeia / a NATO / os EUA intervirem militarmente nessa região do Sudão para prestar ajuda humanitária ao seu povo, martirizado pelos crueis janjauid apoiados pelo governo do Sudão.

Ontem soube-se no telejornal que afinal um dos movimentos rebeldes separatistas do Darfur obteve grande sucesso militar, tendo até avançado até à própria capital do Sudão, Khartum, dentro da qual há já violentos combates.

Então o povo do Darfur eram uns pobres infelizes martirizados por um governo cruel, ou são afinal rebeldes bem armados capazes de invadir o Sudão central?

A intervenção humanitária que a União Europeia / a NATO / os EUA desejavam mostra afinal a sua verdadeira face: uma intervenção militar numa região com o fim de apoiar o seu movimento separatista e desmembrar um país pouco amigo.

Mais ou menos como fizeram na Sérvia.

Comentários

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mudanças no terreno

Sendo a primeira vez que ouvimos falar em tal coisa desde 2003, isso pode significar uma série de coisas;
- que o Ocidente (por exemplo, a França através do Chade) está a prestar efectivo apoio militar aos rebeldes;
- que o governo sudanês estará a sofrer efeitos de embargo;
- que a China, num momento em que precisa desesperadamente de boa publicidade internacional, deixou de apoiar o governo sudanês como o tinha feito até agora.
Tudo isso causa mudanças efectivas no terreno. O facto de os rebeldes terem agora a vantagem não significa que, ao longo dos anos anteriores, não se tenham sucedido uma série de atrocidades.

Retrato de Luís Lavoura

França

"que o Ocidente (por exemplo, a França através do Chade) está a prestar efectivo apoio militar aos rebeldes"

Eu suspeito fortemente que seja precisamente isso que se está a passar.

E suspeito fortemente que as atrocidades cometidas no passado foram utilizadas apenas como desculpa para que se prestasse este "efectivo apoio militar aos rebeldes", que era o fim último que se pretendia alcançar

Luís Lavoura

Atrocidades

"suspeito fortemente que as atrocidades cometidas no passado"

Mas então... devemos duvidar da existência dessas atrocidades? por terem sido usadas como desculpa para?

Retrato de Luís Lavoura

Sim

Precisamente porque as atrocidades eram usadas como desculpa para uma intervenção pseudo-humanitária, podemos duvidar, se não da sua existência, pelo menos da sua dimensão e natureza.

É como no Kosovo. Disseram-nos que os sérvios estavam a cometer horríveis massacres sobre a população albanesa. Depois da guerra e da ocupação do Kosovo, constatou-se que era tudo falso. Tinha de facto havido alguns massacres de populações civis, mas tinham sido pontuais e cometidos no contexto de uma guerra, de uma insurreição contra as tropas sérvias. Não havia qualquer evidência de um qualquer plano deliberado de matança da população albanesa, ou da execução de um tal plano.

Suspeito que no Darfur se passou basicamente o mesmo.

Luís Lavoura

Gato escaldado

Dada a história europeia recente e ultra recente, a soberania dos Estados passou a contar menos que a defesa de Direitos Humanos em situações deste género, aos olhos da opinião pública europeia. Houve, efectivamente, e apesar do que disser o ministério britânico da Educação, massacres em grande escala contra os Judeus na década de 40. E houve massacres na Bósnia durante os anos 90, quando a opinião pública europeia pensava que isso não poderia voltar a acontecer. Esses massacres foram tendencialmente cometidos pela Rep. Jugoslava, que passou a ser a "má da fita" aos olhos dessa mesma opinião pública.
A mim não me espanta nem me choca que tenha havido uma pronta intervenção de forças da NATO contra a Sérvia, em 1999, quando havia indícios de que o mesmo poderia repetir-se - e tão pouco tempo depois da guerra da Bósnia.
Serão os indícios exagerados? Talvez. Mas se se trata de uma predisposição da opinião pública europeia para ser determinante contra esse tipo de situações, eu não creio que se trate de uma questão desagradável. Qualquer governo pensará duas vezes antes de tomar decisões que possam ser interpretadas como causadoras de massacres ou genocídios. E isso é uma boa forma de evitar "massacres pontuais de populações civis, em contexto de guerra."
Não tenho pena nem simpatia pelo governo de Cartum, especialmente dado o seu histórico face aos seus cidadãos do sul do país.

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