Dá-me o telemóvel - um caso de bullying

Retrato de Hugo Garcia

Um pouco já fora de agenda gostaria de dar um input sobre o famoso caso do telemóvel.

O que se passou entre aluna e professora foi uma transferência de bullying, ou talvez, um caso de bullying.

Bullying são os comportamentos sociais, muito comuns nas escolas em que um aluno ou vários agridem (física ou verbalmente) outros alunos com o intuito de marcar uma posição através da humilhação da vítima.
Todos nós testemunhámos casos e a maioria de nós foi vítima ou praticou bullying.

A rapariga como os outro alunos, no sentido de ascenderem socialmente sentem uma necessidade de se impor perante outros. Naquele momento a professora tornou-se a vítima e a aluna quis mostrar que era a superior, assim como os outros alunos. Note-se que eles foram agressores porque provavelmente noutros momentos foram agredidos.
Até me arrisco a dizer que o rapaz que filmou enquanto mandava comentários foi já ele próprio vítimas de bullying muitas vezes. Digo isto porque geralmente os “engraçadinhos” o foram.

Este tipo de comportamento tem uma origem social muito clara.
A origem reside exactamente naquela imagem conservadora de que numa sociedade deve sempre existir alguém acima e alguém abaixo.

Curiosamente, em nome deste caso vieram atacar o estatuto do aluno.
Ataca-se o estatuto do aluno porque supostamente ao dar direitos e dignidade ao aluno, estamos a retirar autoridade aos professores.
Custa-me a acreditar mas ainda existe quem pense assim no sec. XXI.

Enquanto não se transmitir que as pessoas devem ser respeitadas porque sim. Apenas porque são pessoas.
Os professores não devem ser respeitados porque são professores ou porque são mais velhos. Devem ser respeitados porque são pessoas.
Assim como os colegas alunos.

A ideia de ser o próprio sistema educativo a dizer que há umas pessoas mais dignas que outras e depois estar a instaurar políticas de medo, para que os professores possam “ensinar com disciplina” só vai gerar cada vez mais indisciplina, violência e uma sociedade sem humanidade nem respeito.

Comentários

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Retrato de Igor Caldeira

Pessoas

"Enquanto não se transmitir que as pessoas devem ser respeitadas porque sim. Apenas porque são pessoas."

É exactamente o que penso.

Retrato de Miguel Duarte

Bonito

Mas como propões resolver o problema neste momento.

Ou seja, actualmente tens uma situação em que a generalidade dos pais nem sequer educam os filhos para respeitar as pessoas (o problema começa em casa, não nas escolas), aliás, se calhar, os filhos nem sequer respeitam os próprios pais, quando estão em casa.

Cada vez que converso com professores, os casos de indisciplina são cada vez maiores e as agressões a professores têm vindo a aumentar. Muitas vezes até os contactos com os pais para falar sobre os alunos são impossíveis, pois os pais nem sequer se deslocam às reuniões com os professores nas escolas.

Por isso, a única questão é, qual efectivamente a tua proposta?

Retrato de Hugo Garcia

soluções

Porque este é um problema social e não individual são necessárias várias soluções.

Para começar, baseado em livros de pedagogia, posso afirmar que a casa não é o melhor sítio para se dar educação.
A escola e os espaços de ensino complementares é que o são, combinados com toda uma sociedade.

Primeiro começava por fazer turmas mais pequenas. É impossível dar educação numa turma com mais de 30 alunos.

Segundo, um programa de acompanhamento psico-pedagógico para os alunos, sendo que aqueles que demonstram mais necessidades deverão consultar mais estes profissionais. Há muitos profissionais destas áreas no desemprego, por isso não é caro.

De seguida, dar formação em "acabar com o bullying nas escolas" a todos os profissionais de educação. As livrarias estão neste momento com imensos livros sobre este tópico.

E por último, ensinar exactamente essa filosofia de que "o respeito deve-se a todos e não se deve basear numa hierarquia".

Mostrem-me uma criança, dêem-me um livro de pedagogia e eu transformarei o mundo.

Retrato de Miguel Duarte

onde educar

"posso afirmar que a casa não é o melhor sítio para se dar educação."

Então acho que os nossos professores andam todos ao engano, pois os comentários que oiço são geralmente no sentido que a "boa educação" e as "boas maneiras" ensinam-se em casa. Que sem o apoio dos pais, não há escola que valha.

Retrato de Hugo Garcia

de facto

"Então acho que os nossos professores andam todos ao engano, pois os comentários que oiço são geralmente no sentido que a "boa educação" e as "boas maneiras" ensinam-se em casa."

Podes ter a certeza disso.
Tirando o caso das boas maneiras. Educação dá-se, enquanto boas maneiras ensinam-se. E é sempre importante que os pais tenham algo para ensinar.

"Que sem o apoio dos pais, não há escola que valha."

Aqui já é outro assunto. Concordo completamente que é necessário o apoio dos pais.
Aliás, como disse na última AG:
Neste momento o "milagre" da educação que existe em algumas escolas, é a colaboração dos pais no sistema educativo, reunindo-se frequentemente com os professores e participando activamente nas actividades da escola.

Há duas grandes razões que fazem com que a escola seja o sítio certo para se dar educação e a casa o sítio errado.

A primeira tem a ver com a falta de formação dos pais (que não têm obrigação de ter uma formação elevada) e com capacidades que por vezes são limitadas porque não somos todos iguais.

A outra razão está relacionada com a educação estar dependente do ensino e ser incompatível (em muitas situações) com o amor.
Enfim, isto é uma tecnicalidade de pedagogia.

Se houver interessados podemos organizar uma tertúlia sobre o espaço para dar educação, onde poderão ser dadas as devidas explicações sobre este tema.
Se preferires posso indicar um bom livro sobre o tema.
Que foi aquele que eu li quando trabalhei como professor e educador, sendo que a maioria dos pais os colocavam à minha guarda pedindo ajuda com problemas específicos.

Retrato de Filipe Melo Sousa

Eu também gostava de viver

Eu também gostava de viver numa sociedade em que os meninos são todos disciplinados e bem-comportados. Gostava de viver numa cidade em que não tenho de trancar a porta de casa, nem fechar o carro. Como gostaria que isso fosse possível, vamos desde já tirar os polícias da rua. Os gatunos vão imediatamente perceber que têm de nos respeitar.

Educação e casa

"Para começar, baseado em livros de pedagogia, posso afirmar que a casa não é o melhor sítio para se dar educação."

Ouvi algures (não me recordo agora) que grande parte da formação de caracter aparece dos 0 aos 2 anos (após isto são apenas correcções). A solução então seria retirar os filhos aos pais?

Julgo que a casa é onde grande parte da educação, pois por mais que queiram ninguém substitui os nossos pais.

Retrato de Hugo Garcia

temas diferentes

Stran, estamos a falar de coisas diferentes.

É claro que ninguém substitui os pais. Dar amor e suporte emocional é o papel mais importante de todos. Este é feito pelos pais. Nada do que eu digo diminui o papel dos pais. Até porque os pais são os primeiros modelos.

O carácter ser formado dos 0 aos 2 parece-me duvidoso. Ainda que muito seja aprendido nessa altura. Por exemplo, esta altura é muito importante para que a criança se venha a tornar num adulto feliz.

Mas dar educação é algo extremamente complexo. É algo que requer bastante conhecimento técnico, imensas competências e uma abordagem adaptada a cada indivíduo.

Quando eu dava aulas costumava dizer que "A única verdadeira obrigação dos pais é dar amor incondicional. Esta é a única coisa em que eu não os posso ajudar. Com todos os outros problemas eu posso ajudar."

Problemas com relacções, respeito, paciência, força de vontade, atenção, preserverança, humildade, auto-confiança...
Tudo isto são problemas que educadores e psico-pedagogos conseguem resolver (com excepção de patologias agravadas).

Contudo, se olharmos para muitos problemas de violência, criminalidade e comportamentos anti-sociais, devemos ter em consideração que a maioria deles não é falta de educação. É falta de amor.

Concordo

" Dar amor e suporte emocional é o papel mais importante de todos. Este é feito pelos pais."

"Contudo, se olharmos para muitos problemas de violência, criminalidade e comportamentos anti-sociais, devemos ter em consideração que a maioria deles não é falta de educação. É falta de amor. "

Concordo plenamente com estes dois comentários. E julgo mesmo que grande parte dos problemas nasce daqui. No entanto não sei se os limites se aprendem na Escola ou se já não é tarde demais existindo apenas a possibilidade de uma pequena correcção. Julgo que és muito optimista para afirmares que "A única verdadeira obrigação dos pais é dar amor incondicional. Esta é a única coisa em que eu não os posso ajudar. Com todos os outros problemas eu posso ajudar." (julgo que o financeiro também não poderias ajudar). Mas ainda bem que tinhas essa actitude que era de louvar.

No entanto julgo que existe muito crédito aos psico-pedagogos e educadores, eles ajudam não resolvem. E se a pessoa não quiser ajuda então ninguém a vai poder ajudar...

Retrato de Maribel Sobreira

Hugo,

Penso que não se deve confundir (apesar de estarem relacionados) educação com instrução, o primeiro conceito centra-se na esfera familiar enquanto que o segundo na esfera escolar.

Retrato de Hugo Garcia

educação e ensino

Aí é que está.

Educação está dependente do ensino.
Se tentares dar educação a uma criança ou jovem sem lhe estares a ensinar algo em simultâneo, apenas poderás agir por meio da repressão.

Por outro lado, se estiveres a dar ensino a criança ou jovem irá deparar-se com obstáculos e é ai que consegues contribuir para o seu crescimento como pessoa.

Esta afirmação não é minha, apesar de que eu concordo a 100% com ela.
Esta afirmação é de Johann Friedrich Herbart, o "pai" da pedagogia científica.

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