o blogue de Luís Lavoura

Retrato de Luís Lavoura

A irrelevância europeia

Guy Verhofstadt, presidente do grupo parlamentar liberal no Parlamento Europeu, enviou uma carta aberta a Herman van Rompuy, presidente do Conselho Europeu. A carta está disponível na íntegra aqui. Deixo apenas alguns extratos:

It would be an understatement to say that the Union is not faring well. The number of setbacks are piling up. We need only refer to the dramatic result of the Copenhagen conference where an agreement was concluded without the European Union, the lack of a coordinated response to the relief effort in Haiti, or the descending spiral that the eurozone has been drawn into following the difficulties encountered by Greece. As it is meaningful that US President Obama doesn't think it's worthy to attend the EU-US Summit in Madrid.

We both know that these setbacks are not accidental. You need only to take the plane to Beijing or Shanghai to discover that a multipolar world is being created, in which Europe's role is in decline. After 9/11 and the financial crisis of September 2008, a new world order has been created that has destroyed (outdated) national illusions of many Member States.

[...]

The reason for this failure is easy to understand. For many years, experts have maintained that the Lisbon Strategy is too restrictive. The open method of coordination does not allow for pressure to be exerted on Member States. It reduces the role of the Union from an economic locomotive to a quasi think tank that compares one Member State economy with another. On the basis of these results it formulates non-binding recommendations. This is a task already carried out by the OECD. [...] Member States are in the driving seat, rather than European institutions. In other words, the European economy is not seen as a unit that must overcome serious obstacles in comparison to China, the United States, and India but as a collection of distinct national administrations, that must each put their house in order and decide how best to act. In today's globalised world, this is an absurd and untenable situation.

[...]

This is even more pertinent to the eurozone, where participating countries are inextricably linked by a common currency.

[...]

Whether we are dealing with Haiti, Greece or the dramatic conclusion of Copenhagen, the reason for failure is always the same: it is because Member States continue to keep a tight hold of the reins, and that Europe has neither the power nor the tools to create a single approach, much less to impose it. The tragedy that struck Haiti gave rise to generous responses from Member States. This is undoubtedly a good thing. However, "EU-Fast" i.e. a common, European humanitarian force would have been quicker and more efficient. The idea of coordinating European civil protection forces in Member States is not new. It was first put forward in April 2003: Jacques Chirac, Gerhard Schröder, Jean-Claude Juncker and I proposed the idea of EU-Fast (European Union First Aid and Support Team). In 2006, further to a request by the Commission, the idea was taken over and further elaborated by Michel Barnier. However, in 2003, as in 2006, some Member States were not keen on an "EU-Fast" or a "Europe Aid" as it was called in the Barnier report. Officially their arguments against such an organisation were based on their opposition to using military resources for civilian ends. In reality it was because they were keen to maintain the illusion of their influence and prestige in the countries concerned, and in the specialised international institutions.

Copenhagen may well have had a different outcome had Europe been represented by a single person, instead of eight [...] The World Trade Organisation is a good example of how matters could be organised. Europe is able to make her voice heard because she is represented by a single spokesman, a single person who can take decisions on behalf of 27 Member states. [...] Europe must become more realistic and stop confusing its desires with reality. In the new multipolar world, Europe is no longer able to impose its wishes on others, not even when it's working with the USA. The western world is not a global hegemon.

[...]

Europe needs more unity and more integration, otherwise the Union will cease to play its role on the global chess board. [...]

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Grave

Aquilo que ontem se passou foi muito grave.

O Estado português vai, de 15 em 15 dias, à banca internacional, de mão estendida, pedir dinheiro, isto é, vender obrigações do tesouro. Ontem, quando mais uma vez o fez, os juros pedidos pela banca internacional para emprestar dinheiro ao Estado português foram tão elevados - superiores a 4% ao ano - que o Estado português decidiu desistir a meio da sua venda de obrigações, tendo vendido obrigações no valor de 300 milhões de euros em vez dos 500 milhões que tinha planeado.

Isto quer dizer que já hoje a capacidade do Estado português se financiar internacionalmente está severamente diminuída pelos juros altos que os credores estão a pedir, resultado da falta de credibilidade financeira do Estado português.

E enquanto esta coisa de extrema gravidade se passa, os deputados de todos os partidos da oposição, sem uma única honrosa exceção que seja, continuam a congeminar formas de o Estado português ir ter que dispender ainda mais dinheiro para alimentar o soba da Madeira. Metem-me nojo, todos eles!

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Proposta impopular (3)

Carlos Santos argumenta aqui que o equilíbrio do Orçamento de Estado não deve passar por uma subida do IVA e que poderá antes ter de passar por uma diminuição dos salários dos funcionários públicos, pelo menos os de topo. E eu concordo plenamente.

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A inexistente inconstitucionalidade

Diversos pessoas têm afirmado ou sugerido que a lei dos casamentos homossexuais é, evidentemente, inconstitucional, e que ela irá, quase inevitavelmente, ser recusada pelo Tribunal Constitucional. Essas pessoas baseiam a sua sugestão de inconstitucionalidade na norma que proíbe casais homossexuais de adotar. Segundo elas, essa norma é duplamente inconstitucional, primeiro porque distingue entre dois tipos de casais - os que podem adotar e os que não podem -, criando portanto uma discriminação, e segundo porque retira um direito - o direito de adotar - a quem se case com uma pessoa do mesmo sexo.

Eu acho esta argumentação extremamente surpreendente. Acho tão surpreendente, que a única forma que eu encontro para explicar estas repetidas afirmações, é que essas pessoas estão a tentar pressionar o Tribunal Constitucional para que este recuse a lei.

De facto, e não sendo eu, de forma nenhuma, um entendido em constituições, nem sequer em leis, parece-me que ambos os argumentos apresentados são redondamente falsos. Primeiro, porque não existe qualquer direito a adotar, e, mesmo que esse direito existisse, ele não estaria constitucionalmente protegido. Ou seja, ninguém pode argumentar que, ao negarem-lhe a possibilidade de adotar, lhe estão a retirar um direito - e muito menos um direito fundamental, constitucionalmente consagrado. Nada há na lei, muito menos na constituição, que afirme ou sugira que qualquer adulto tem o direito de (tentar, pretender) adotar uma criança. Segundo, porque a igualdade de direitos que a constituição estabelece é entre pessoas, não é entre casais. Ou seja, a constituição diz que todos os cidadãos são iguais perante a lei e que todos eles gozam de certos direitos; a constituição não diz que todos os casais são iguais perante a lei e gozam dos mesmos direitos. (Duvido, aliás, que a constituição atribua seja que direitos fôr a casais.)

Uma outra razão para a minha surpresa é o facto de que, se a lei do casamento homossexual fosse inconstitucional por esses motivos, já a lei da adoção atualmente em vigor o seria - e nunca ninguém se queixou da possível inconstitucionalidade dessa lei! De facto, a lei da adoção afirma que só os casais que estejam casados há mais de quatro anos podem adotar. Daí decorre que, quando uma pessoa se casa, perde ipso facto o direito de adotar durante os próximos quatro anos. Ademais, a lei da adoção também afirma que uniões de facto de pessoas de sexo oposto podem adotar, mas uniões de facto de pessoas do mesmo sexo não podem - distinguindo portanto, discriminando, entre os dois tipos de uniões de facto. Ou seja, a lei da adoção já de si é discriminatória. Por que motivos, então, ninguém se queixa de que ela seja inconstitucional? Note-se, ademais, que a lei da adoção não apenas discrimina entre diversas uniões de facto, ela também discrimina entre cidadãos - ela afirma que ninguém com idade superior a 60 anos pode adotar. Trata-se, claramente, de uma discriminação. Não é inconstitucional?

Perante estes factos, parece-me evidente que as pessoas que argumentam a pretensa inconstitucionalidade da lei do casamento homossexual estão a ser desonestas, estão a pretender pressionar o Tribunal Constitucional (TC) para que este entre numa chicana política, utilizando a constituição como arma de arremesso, para aquilo para que ela não deveria servir. Oxalá o TC tenha bom senso e não as satisfaça.

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Nem mais um tostão para o Alberto João!

Está bem instalada a crise em torno da modificação da Lei das Finanças Regionais, mais propriamente da Lei das Finanças Madeirenses. Essa lei foi aprovada pelo PS, contra toda a oposição, em 2007; agora toda a oposição prepara-se para se vingar, modificando a lei. Estamos de volta, portanto, ao tempo da Viradeira (*).

A minha posição sobre o assunto é simples, e está expressa no título do post. Nem a Lei das Finanças Madeirenses deve ser relaxada, nem os limites de endividamento da Madeira devem ser relaxados. Não se pode ceder um milímetro ao Alberto João. O tipo se quiser que declare a independência da sua Região Autónoma e que a ponha a vogar, pelos mares fora, à procura de quem melhor tome conta dela (talvez o emir do Kuwait aceite comprá-la, quem sabe). Portugal não precisa da Madeira para nada - se quiserem continuar na sua via de despesismo, que procurem outro dono.

(*) Chamou-se assim ao reinado de D. Maria I, filha de D. José. Era uma pessoa muito católica, que tratou de desfazer tudo aquilo que o pai (e o seu primeiro-ministro, o marquês de Pombal) tinha feito para retirar poder à Igreja. O povo chamou-lhe a Viradeira, precisamente porque virou ao contrário a política do seu pai.

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Um escândalo

Aplaudo de pé este post de Carlos Santos.

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A moção de censura construtiva

Diz a constitucionalista Isabel Moreira:

Boa ideia seria aproveitar uma revisão constitucional para introduzir mecanismos simples que permitem que o Governo governe, ainda que minoritário. Se a oposição apresentar uma moção de censura e a votar, tem de assumir funções governativas, o memo acontecendo no caso de chumbo de leis fundamentais como a Lei do Orçamento.

Isabel Moreira partilha da preocupação, já manifestada por outro estudiosos do sistema político português, por exemplo Marina Costa Lobo, com a instabilidade da governação em Portugal, nomeadamente a instabilidade de governos minoritários, e com a consequente difícil governabilidade do país.

Infelizmente, eu não creio, ao contrário das duas pessoas acima referidas, que esse problema, bem real, possa ser resolvido recorrendo a esse truque das "moções de censura construtivas" - isto é, moções de censura que necessariamente dão lugar à formação de novo governo por parte de quem as aprove.

Imaginemos que, no presente, PSD, CDS, BE e PCP resolviam, todos eles, votar contra o Orçamento de Estado, de tal forma que este não era aprovado. De acordo com o mecanismo da moção de censura construtiva, o governo imediatamente cairia e os partidos da oposição seriam obrigados a formar um outro governo. Acontece, porém, que CDS e PSD não fazem sozinhos a maioria, nem se conseguem entender politicamente com BE e PCP. Pelo que, a formação de um governo alternativo seria de facto impossível.

A moção de censura construtiva é um mecanismo útil num sistema político normal, como aqueles que existem na generalidade dos países europeus. Num sistema político normal, há um grande partido da direita (partido conservador), um grande partido da esquerda (partido socialista), e depois há um ou mais partidos pequenos, ao centro (partidos liberais, ecologistas, regionais, dos agricultores, etc), os quais tanto se podem aliar com o partido conservador como com o socialista. Num tal sistema político, diversas alianças e coligações são em geral possíveis, ou baseadas no partido conservador, ou baseadas no partido socialista.

Acontece que o sistema político português não é normal, em diversos sentidos. É anormal no sentido de não haver em Portugal partidos de centro, liberais ou ecologistas por exemplo. Mas é também anormal, e isto é que é crucial neste ponto, pela grande força em Portugal de dois partidos comunistas, o PCP e o BE, os quais têm muito poder eleitoral mas com os quais ninguém se consegue coligar.

É este o problema crucial do sistema político em Portugal. Temos em Portugal dois partidos comunistas que, embora disponham (em conjunto) de cerca de 15% dos deputados eleitos, não podem fazer parte do governo. Esses 15% de deputados constituem um peso morto no nosso sistema político, dificultando terrivelmente a formação de qualquer governo, pois que as maiorias possíveis são assim muito escassas.

A moção de censura construtiva proposta por Marina Costa Lobo e por Isabel Moreira dificilmente pode trazer qualquer melhoria à governabilidade de Portugal. Essa governabilidade não melhorará substancialmente enquanto a sociedade portuguesa não se tornar mais matura e não adoptar um sistema político normal por padrões europeus. Isso implica deixar de votar em partidos comunistas (por sua natureza revolucionários e anti-sistema) e passar a votar em um ou mais futuros partidos centristas, flexíveis e pragmáticos - liberais, ecologistas, regionais, e tutti quanti.

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A derrota do PSD

O orçamento de Estado para 2010 configura uma derrota em toda a linha - melhor seria dizer uma rendição incondicional - do PSD. Esse partido defendeu durante a campanha eleitoral uma recusa das grandes obras públicas, nomeadamente do TGV. Pois bem, o orçamento planeia avançar com todas as grandes obras públicas. O TGV avança a todo o vapor, não somente em direção a Espanha como também em direção ao Porto e já a estudar uma linha para Faro. O novo aeroporto de Lisboa - num momento em que muitas companhias aéreas europeias se estão a ver atrapalhadas por falta de clientela - começa a ser construído. Para o financiar privatiza-se a ANA - trocando um monopólio público por um monopólio privado, o que dificilmente poderá ser bom para os consumidores. Autoestradas e novas estradas são uma dúzia por todo o país. É um verdadeiro regabofe de obras públicas. Tudo isto vai ser aprovado com a abstenção do PSD. Custa a crer nesta rendição completa e incondicional. Que mosca terá mordido o PSD?

Na minha opinião, este orçamento é um desastre para o país. Portugal afunda-se em obras públicas desnecessárias e que jamais terão clientela que as pague. A pretexto de estimular a economia para a fazer sair da crise, o Estado faz aquilo que vem fazendo desde há 25 anos: betão e mais betão. Vai ser um festim para as empresas de construção civil. A economia portuguesa vai concentrar-se ainda mais num setor não transacionável e depender cada vez mais do apoio do Estado. Portugal estava à beira do abismo; com este orçamento, dá um grande passo em frente.

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Burca

A França prepara-se para proibir o uso de vestimentas que cubram o rosto, nomeadamente o niqab árabe ou a burca afegã, em espaços públicos.

O uso destas vestimentas nada tem a ver com o islamismo, mas apenas com uma interpretação dele em termos de certos hábitos culturais prevalecentes em determinadas regiões. A imensa maioria das muçulmanas por este mundo fora não tapa o rosto e nada no Corão obriga a que o façam. Proibir estas vestimentas não é, portanto, uma agressão à liberdade religiosa.

Trata-se, indubitavelmente, de uma restrição à liberdade individual. Em princípio, as pessoas são e devem ser livres de se vestirem como quiserem. Mas mesmo essa liberdade não é total - as pessoas não são livres de andar nuas, ou com vestimentas reduzidas, em público, exceto em locais e situações especiais - na praia, em particular. Ou seja, já hoje há códigos de vestimenta impostos pelo Estado.

A mim parece-me que a proibição que o Estado francês se prepara para impôr é legítima e, de facto, conveniente. As pessoas devem estar minimamente identificáveis quando num espaço público, o que impõe o rosto descoberto. Isto é verdade até por razões de segurança.

Trata-se, também, de forma indireta, de colocar limites à dominação do espaço islâmico pela pregação integrista (salafista) financiada pela Arábia Saudita. Aquilo que algumas (cerca de 2.000) mulheres usam em França é o niqab, uma vestimenta típica da Arábia, em particular do Golfo Pérsico. Essa vestimenta tem a assinatura da sua origem - não se trata de uma marca do islamismo, mas da marca de um islamismo de influência saudita.

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8,3%

Parece que o governo prevê que o défice das contas do Estado de 2009 seja de 8,7% do PIB, e aponta no Orçamento de 2010 para um défice de 8,3% do PIB.

A previsão para 2010 é horrivelmente, inaceitavelmente alta. 8,3% do PIB é uma monstruosidade. Há o risco de que o governo, pura e simplesmente, não consiga extrair isso dos mercados financeiros - ou seja, de que não haja suficientes pessoas dispostas a emprestar ao Estado português o dinheiro de que ele necessitará. Há também o risco de que os bancos privados portugueses sejam penalizados e não consigam obter do estrangeiro o dinheiro que os privados portugueses necessitam de pedir emprestado.

O Orçamento de 2010, se prevê um défice de 8,3%, é uma tragédia inaceitável.

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PSD

É difícil de compreender a atuação política do PSD perante o próximo Orçamento de Estado.

A apresentação deste à Assembleia da República está marcada para a próxima terça-feira. O PSD foi convidado a negociar com o governo a sua elaboração. Recusou, aparentemente - e essa é uma opção legítima. Porém, à última da hora, parece ter mudado de orientação, e pediu à pressa umas reuniões com o ministro das Finanças, tão à pressa que a última dessas reuniões teve que ter lugar num domingo. Essas reuniões, porém, note-se, não serviram para o PSD negociar nada - serviram apenas para que ele fosse informado, antecipadamente - e por quê? Não poderia o PSD aguardar mais dois dias para saber o que o governo tinha preparado? -, do conteúdo do Orçamento. E para, no final dessa informação, vir dizer que sim, que estava satisfeito e que o Orçamento oferece garantias!

É de facto difícil de compreender esta desorientação, este andar para trás e para a frente, esta indecisão.

Veremos agora que posição objetiva toma o PSD na próxima quinta-feira, na anunciada revisão da Lei das Finanças Locais, a qual objetivamente serve para dar mais dinheiro a Alberto João Jardim (o tal que se declara social-democrata e keynesiano). Se o PSD fôr um partido sério, recusará dar-lhe mais dinheiro. Mas, como o PSD não tem uma orientação consistente, parece-me impossível fazer previsões.

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Internet

Nos tempos de António Guterres - o tempo da bolha das dot-com - o Estado propagandeou as maravilhas da nova economia baseada na internet. Todas as pessoas eram supostas ir passar a fazer o essencial das suas compras pela internet. Lembro-me de uma iniciativa patrocinada pelo Estado, na qual 15 pessoas foram fechadas durante dois meses num barco ancorado algures, sem qualquer contacto com o mundo exterior exceto a internet e os seus cartões de crédito, para demonstrar como essas pessoas podiam, a partir do barco, comprar tudo aquilo de que necessitassem.

Hoje ficamos a saber que o Estado português está muito preocupado por, aparentemente, 6% dos portugueses comprarem medicamentos pela internet. O Estado diz que isso é um perigo para a saúde, que os medicamentos são frequentemente contrafeitos, etc. Isto deixa-me perplexo. Então nós não éramos supostos passarmos a fazer todas as nossas compras pela internet? Se podemos comprar na internet camisas (possivelmente contrafeitas), salsichas (possivelmente contrafeitas), máquinas de barbear (possivelmente contrafeitas), ou Corn Flakes enriquecidos com cálcio (possivelmente contrafeitos), por que motivos não haveremos também de comprar pela internet vitaminas ou antidepressivos, igualmente possivelmente contrafeitos?

Cheira-me que há aqui uma não pequena dose de protecionismo, não só do Estado português, mas dos Estados a nível mundial. A favor do negócio dos médicos e das farmácias.

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Ernâni Lopes disse bem

Falando ontem sobre os estímulos governamentais à economia, Ernâni Lopes aconselhou o governo a pensar sete vezes antes de embarcar numa qualquer grande obra - do tipo autoestrada, TGV ou aeroporto - mas elogiou a execução de pequenas obras, espalhadas pelo país, nomeadamente a renovação de escolas. A mim parece-me claro que Ernâni Lopes tem 100% de razão. Todas as grandes obras - novo aeroporto de Lisboa, TGV (seja lá o que isso fôr), novas estradas e autoestradas - devem, no momento atual, ser congeladas. Obras como a renovação de escolas e hospitais, pelo contrário, podem avançar.

Para além dos motivos financeiros, no entanto, eu gostaria de chamar à atenção também os motivos energéticos e ambientais. Não podemos ter ilusões - o preço da energia vai subir, inexoravelmente, ao longo dos próximos anos. Subir, e subir muito. O petróleo escasseia (já teremos provavelmente atingido o pico da sua produção, estaremos já eventualmente na fase descendente) e os povos asiáticos entram, poderosamente, na competição pelo existente. Portugal é um país altamente dependente do exterior em matéria energética. A energia vai-nos custar os olhos da cara - já custa, aliás. Não tenhamos ilusões. Ora, as grandes obras têm uma coisa em comum - servem para meios de transporte que gastam muita energia. E que, portanto, vão ser cada vez mais difíceis e caros de utilizar. Tendencialmente, haverá cada vez menos gente a andar de avião e de automóvel, porque o carburante para esses veículos será cada vez mais proibitivamente caro. Esta tendência, aliás, já hoje se vai observando. Portanto, a prazo, as grandes obras - as novas autoestradas, aeroporto, linhas férreas - correm o sério risco - eu diria mesmo que é uma certeza - de não servirem para nada. De se transformarem, todas elas, em elefantes brancos. (Os quais o país, aliás, não terá dinheiro para manter em funcionamento.)

Nos edifícios temos o problema contrário. Portugal gasta brutalidades de energia devido à má conceção dos seus edifícios. Isso é observável, em particular, em escolas e hospitais. Edifícios pessimamente isolados, mal orientados, com vidraças em excesso, etc. O Estado, tal como os particulares, tem que investir para combater este problema - para renovar os edifícios de tal forma a que estes se tornem mais confortáveis gastando menos energia. O investimento em escolas, se fôr bem feito, pode ser um bom investimento - ou seja, pode ser gastar dinheiro hoje para o poupar amanhã.

É tudo questão de o investimento ser bem feito, em edifícios bem concebidos. Será?

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A proposta imensamente estúpida do Bloco de Esquerda

O Bloco de Esquerda (BE) repetiu ontem a proposta que, com roupagens diferentes, já por várias vezes anteriormente fez, de iniciar um grande programa de reabilitação urbana das cidades portuguesas. Segundo o BE, tal reabilitação daria emprego a muita gente e faria as cidades ficar com muito melhor aspeto. Eu penso que, nestas duas coisas, o BE tem toda a razão. Infelizmente, no entanto, a proposta do BE parece-me imensamente estúpida e, socialmente e economicamente, positivamente criminosa.

A questão que deveria afligir o BE é: quem paga? E para que paga? A quem serve que os prédios e casas das cidades portuguesas sejam reabilitados? Quem está disposto a pagar para isso?

O BE deveria ter consciência de que Portugal já hoje tem casas a mais. E que já hoje há, nas cidades portuguesas, montes de casas em bom estado disponíveis para vender ou arrendar. Não faltam casas nas cidades portuguesas para quem tenha dinheiro para pagar a sua manutenção. E o problema é que não há - não há compradores nem inquilinos para todas as casas que estão disponíveis - compradores ou inquilinos com dinheiro para pagar aquilo que elas custam a construir e a manter, que é o que interessa.

O programa d BE consiste em o país ir enterrar dinheiro a reabilitar casas que depois ninguém quererá ocupar ou, sobretudo, pagar. Consiste, de facto, em aumentar um problema que já hoje o país tem - o problema da ocupação e manutenção das construções existentes. Num país no qual a construção civil teve ao longo das últimas décadas um peso económico desproporcionado, o BE quer prolongar esse problema. Chama-se a isto - manter um modelo económico esgotado. Pecisamente aquilo que Francisco Louçã tanto gosta de criticar!

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Alegre

O poeta na reforma Manuel Alegre mostrou disponibilidade para se voltar a candidatar à presidência da república. O mundo político e blogosférico anda muito excitado com esse facto.

A minha opinião sobre o assunto é similar à dos opositores ao casamento homossexual há uns meses atrás - acho que, no momento em que o país tem tantos e tão graves problemas económicos para enfrentar, estar a debater as eleições presidenciais de daqui a um ano é uma perda de tempo e uma estupidez. O país deveria atualmente ter bem mais com que se preocupar do que com quem será o próximo Presidente da República.

Em todo o caso, posso já adiantar que em caso algum - nem na primeira, nem na segunda volta - votarei em Alegre. Não concordo com a sua ideologia socialista nem com a sua ideologia nacionalista, e eu não voto em pessoas com quem não concordo. E também não voto em pessoas da idade de Alegre, que me parecem fazer parte de um grave problema deste país - o problema de ter políticos demasiado idosos e fixados em ideias políticas ultrapassadas.

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