A propósito do debate interblogues que se deu acerca de ditaduras/religião vs. liberalismo gostava de dar aqui uma achega.
- Li num comentário que o liberalismo do século XIX ibérico assentava no jacobinismo e não na tradição liberal. Isto é um erro histórico clamoroso, em especial no que respeita ao lado de cá da fronteira. A tradição liberal portuguesa de novecentos pouco deve ao jacobinismo, ou nós não tivéssemos tido ideólogos como Alexandre Herculano, Almeida Garrett (cuja obra "Doutrinação Liberal" [Alfa] ainda hoje tem aspectos de uma actualidade impressionante), Mouzinho da Silveira (que elaborou quase toda a legislação da expropriação e extinção das Ordens Monásticas e dos terreno baldios e comunitários) cuja formação ideológica e filosófica era eminentemente inglesa.
- Liberalismo social é o liberalismo de esquerda. Se me querem empurrar para a esquerda que tal faça bom proveito a quem quer ser dono e senhor da direita e dono da verdade acerca do liberalismo. Não sou de esquerda por ter preocupações sociais. Até o PP as tem. Partilho com a esquerda a defesa das liberdades individuais que no entanto há uma nova direita que também as assume sem complexos.
- Há infelismente uma visão distorcida do Opus Dei assim como já houve e ainda há da Maçonaria. Em relação a esta última as balas que lhe eram dirigidas vinham precisamente dos que agora se queixam e com razão de serem vistos de forma deturpada, exagerada, e mesmo caluniada. Tudo se paga neste mundo, não é...
- Pinochet foi um tirano, um general deformado, malformado e ideologicamente ultramontano. Soube rodear-se das pessoas certas quanto à economia? Sim. Teve mérito nisso? Talvez algum.
No entanto, a culpa principal de Pinochet ter assumido o poder no Chile não é dos americanos como muitas cabecinhas pensadoras julgam. Os americanos perante o caos escolheram aquele que mais garantias lhes parecia dar, segundo a política do relativismo cultural conservador típica de Kissinger. Engraçado que esse relativismo cultural agora é assumido pela esquerda que culpa os Americanos da sua intervenção. Deixar cair o Chile em mãos soviéticas seria incompetência e inconsciência. Se calhar a emenda foi pior que o soneto. Mas só os chilenos é que têm o direito de julgar os seus líderes e aqueles que intervieram no processo. E os Chilenos ainda hoje não são tão pobres como Argentinos e Brasileiros, pois quem conduziu a sua ditadora teve uma política económica mais eficiente. Apenas isso.
- Aliás como esta semana Pedro Arroja refere numa entrevista na Sábado nem sempre as democracias garantem resultados económicos mais eficientes. O Estado Novo teve períodos de crescimento económico superiores a qualquer época pós-25 de Abril. Só não diz Arroja é se foi mérito de Salazar ou mérito do regime ou fruto das circunstâncias do pós-guerra. Mas assegura que prefere de longe o pós-25 de Abril, pois Arroja não é parvo bem pelo contrário. Aliás a sua entrevista creio ser de leitura obrigatória para quem se diz liberal, social ou não. Gosta-se ou não de algumas... Blasfémias.
Confesso que este não é um dos meus temas preferidos, mas não fico indiferente ao desfazamento da realidade por parte das comissões da nossa magistratura.
Na TSF, hoje de manhã (http://www.tsf.pt/online/vida/interior.asp?id_artigo=TSF176309):
"Associação Juízes descarta crime de violência doméstica entre homossexuais
A Associação Sindical de Juízes considera que não pode existir crime de violência doméstica num casal homossexual porque a lei não prevê casamentos de pessoas do mesmo sexo. O parecer da Associação já foi contestado pela APAV.
(...)
A tese consta de um parecer da Associação Sindical de Juízes, divulgado esta quarta-feira pelo jornal Diário de Notícias.
Pedro Albergaria, um dos autores do parecer, diz que não estando previsto no Código Civil o casamento de pessoas do mesmo sexo, não se pode estabelecer no Código Penal que a violência entre casais homossexuais constitua um crime específico dos relacionamentos conjugais ou paraconjugais.
O parecer defende, também que por não haver uma relação de superioridade física não existe crime de violência doméstica."
O que significa para esta associação sindical que:
- Nas uniões de facto não há violência doméstica ou se há não devem ter intervenção por parte da justiça.
- Segundo este sindicato, para haver violência doméstica tem de haver superioridade física por parte de um dos cônjuges. Logo um homem que seja maltratado pela sua companheira a título de chantagem ou de outra forma de manipulação, casos que já se têm verificado, não tem a justiça do seu lado.
- Entre homossexuais nunca há superioridade física para estas luminárias. Quer dizer que a relação entre um indivíduo de 1,60 m de altura e 55 kg com outro com o dobro de peso e altura bem superior está plena de equidade física ao contrário de um homem e uma mulher com relativamente a mesma relação de forças. Brilhante.
Assim sendo não é de surpreender o estado da Justiça neste país.
Ontem Eduardo Prado Coelho, na sua coluna habitual do Público, dedica uma das alíneas ao facto de Filipe La Féria ter obtido a gestão do Teatro Rivoli no Porto, declarando-se "estarrecido", "embora nada tenha contra Filipe La Féria" e classificando de "rasteira" a política cultural do executivo camarário do Porto, sendo a passagem do teatro para a gestão de Filipe Lá Féria "uma machadada no tipo de espectáculos que o Rivoli vinha exibindo até então".
Gostaria de comentar o seguinte:
1. Tenho muito respeito por Eduardo Prado Coelho, não só pelo seu notável currículo académico como pelo seu espaço de opinião que, concorde-se ou não com ele, é um espaço de qualidade.
2. Não pude ficar indiferente à coragem a que já nos habituou Rui Rio, quando decidiu pôr cobro a uma situação injusta pela qual um grupo vastíssimo de mais de 30 elementos eram subsidiados com o dinheiro dos contribuintes sem que estes fossem compensados com espectáculos a seu gosto. Compreendo no entanto o papel destes elementos que convencidos que estão de produzirem espectáculos de qualidade acham injusta a perda do seu ou de um dos seus sustentos. Aí não terão eles culpa, mas sim quem lhes atribuiu antes esse mesmo sustento.
3. Não posso concordar com Eduardo Prado Coelho quando ele chama de "rasteiro" a quem tem de gerir um espaço público e ter a batata quente de decidir a quem vai entregar a gestão desse mesmo espaço e decide por quem apresenta resultados e garantias melhores. Para a área política e para a sensibilidade cultural de EPC os subsídios públicos não devem olhar a lucros desde que determinado tipo de espectáculo seja exibido e corresponda aos seus parâmetros de qualidade. Por muito que isso custe a nós contribuintes. Mal eles se lembram que antes de existir política de subsídios públicos também existiam espectáculos de qualidade indiscutível, quer quando agradavam ao público quer quando era o mecenato a proteger determinados artistas. A política de mecenato cultural em Portugal quase não existe devido ao papel do Estado que praticamento o substituiu.
4. Ignora também EPC que a vinda de espectáculos que mobilizem multidões e tragam dinheiro à Invicta ajuda também a mobilizar a decrépita Baixa Portuense e acabem por atrair pessoas para outro tipo de espectáculos, menos comerciais.
5. O único espectáculo teatral a que fui assistir no Rivoli saí a meio e paguei mais de 10€ pelo bilhete. Na sala poucos ficaram, e desses poucos tinham pago bilhete pois eram convidados - facto que desde o Porto 2001 é corrente em diversas salas de espectáculo no Porto (não sei se em Lisboa também não será assim mas isso já é offtopic). Por isso nada me surpreende que a gestão desse espaço estivesse de rastos antes da intervenção de Rui Rio.
6. Os slogans grotescos que os activistas anti-Rio encetaram pelo Rivoli voltam-se contra eles próprios: RIVOLIVRE é um conceito óptimo que designa precisamente um Rivoli livre da tutela do Estado, dos arranjinhos político-partidários, nas mãos de uma gestão privada, independente e competente.
Peço desculpa a quem não é do Porto e não conheça bem a Invicta por chamar aqui a este espaço um longo post sobre algo que é digamos algo localizado no tempo e no espaço, mas não deixa de ser emblemático acerca da política cultural deste país e do rumo que no meu entender deve seguir: Rui Rio é no geral, um político liberal e quem dera ao PSD tê-lo como líder (algo que também referiu EPC como sendo uma hipótese escandalosa. Porquê a preocupação deste intelectual militante do PS em quem vai liderar o partido rival?).
No Público de hoje vem a citação do presidente do Irão, Mahmud Ahmadinejad, "O estado de Israel vai desaparecer em breve", proferida numa conferência que infelizmente foi realizada longe demais (no Irão), logo inacessível...
A douta sapiência deste chefe de Estado não só profetiza o desaparecimento, extinção (ou será genocídio?) de uma nação como lhe determina a brevidade. Ou seja é uma profecia a curto prazo. Perdoem-me a heresia, de declarar profecia, pois o termo mais exacto será desejo, antevisão, aviso ou ameaça. Ou então mero bluff de mais um fanfarrão que quer agradar a esquerda ocidental em conjunto com os fanáticos do Médio Oriente e tenta afrontar assim o "Grande Satã".
Escusado será referir a teoria brilhante sobre o Holocausto, que por sua vez une enternecedoramente as espécies protegidas do costume: neonazis, extrema-esquerda e islamitas fanáticos. Pois então esta teoria defende que este dito holocausto foi uma invenção dos costumeiros conspiradores judeus (ver o site da Radio Islam sobre os protocolos dos Sábios de Sião e outras pérolas que lá estão), para legitimar o estado de Israel. Não há dúvida que a História é uma ciência tão relativa que está constantemente sujeita a revisionismos. Eu cá para mim deixava de a estudar e limitava-me apenas a prestar atenção a estas sumidades, tal como faz quase toda a imprensa mundial. Entre estas há outras pérolas, se calhar o próprio Hitler foi contratado pelos judeus para fundar o III Reich e simular o genocídio... Eu já acredito em tudo.
Enquanto isso, há um povinho de gentinha que deve ser muito insignificante, pois os holofotes dos média pouco neles incidem que é os povos Dinka e os Nuba do Sul do Sudão. O governo árabe muito amigo de Mahmud Ahmadinejad, entretém-se a dizimá-los - seja à fome seja pelo método tradicional da arma em punho - pois estes povos para além do defeito de serem negros demais continuam a insistir em não seguir o Islamismo. Realmente perante gente teimosa como esta há que ser implacável!
Assim vão as glórias do mundo!
Até já.
Para quem ainda não reparou, não foram os EUA que evitaram ou ilibaram Pinochet do julgamento.
Para quem ainda não reparou, os julgamentos de Milosevic e de Saddam não foram feitos pelos EUA.
Para quem ainda não reparou, não há nenhuma nação europeia com vontade de ser a tal "potência democrática" ou dar origem em conjunto com outras de ser a dita-cuja. A Europa possui um património intelectual e de inestimável valor, mas treme de medo a cada ameaça e desde as guerras mundiais que anda a pedir ao Tio Sam dinheiro e ajuda militar sempre que a Alemanha e/ou a Rússia "levantam a crina". Quando os EUA tomam decisões controversas e difíceis aí os europeus julgam-se os donos da verdade e toca a atacar o Tio Sam. Se um dia acontecer aquilo que se tem tentado evitar e as agressões por parte do expansionismo islâmico começaram a ocorrer, volta a Europa a gritar´"ó tio, ó tio". E aí eu vou querer saber o que têm a dizer os antiamericanos arautos dos direitos humanos... Se calhar vão culpar os EUA da situação enquanto os respectivos estados não têm outro remédio se não pedir ajuda.
Desculpem-me, mas há comentários e certo tipo de análises com os quais eu não posso estar de acordo. Há certos discursos provenientes de uma certa esquerda que eu me limito a rir, pois quem os profere é igual a si próprio. Num espaço no qual me encontro inserido, denominado de liberal, não posso limitar-me a rir. Quando muito posso é ir pregar para outra freguesia, se for caso disso...