Armar-se em Herói por um Dia

Retrato de Filipe Melo Sousa

Todos os anos se vão repetindo histórias como esta Notícia no JN. Desta vez foi na faculdade de Coimbra, que dois caloiros foram agredidos em "Tribunal" de Praxe académica, ao ponto de necessitarem de assistência hospitalar. Seguiu-se queixa crime, motivo pelo qual esta história veio a público.

O que me espanta é as faculdades tolerarem em larga escala o recrutamento à força dos caloiros por parte das comissões de praxe, movimentos organizados que fazem o que querem dos estudantes que acabam de chegar à faculdade, e não têm como recusar estes estranhos rituais. É muito hipócrita na verdade dizer que sequer é feita a pergunta, se a pessoa quer aderir ou não o ritual. É claro que num ambiente em que não se percebe de maneira clara as consequências de tal recusa, e pelo próprio modo intimidatório como a pergunta é feita, não existe lugar para recusar qualquer tipo de tratamento que esta comissão queira dar. Acaba por se assinar uma carta em branco para o que der e vier. Até porque nada garante a boa fé de uma pessoa que não se conhece e nos coloca a pergunta em tom de ameaça. Tanto se pode seguir um acto de confraternização, como um abuso de qualquer espécie. Tal como foi aqui o caso: "Nove caloiros receberam documento de contra-fé (notificação para o julgamento) e compareceram na expectativa de passarem por mais um ritual "entre amigos e que serve para cimentar o companheirismo (...) O ritual terá, no entanto, ultrapassado "o espírito de brincadeira". Para além de unhas negras, resultantes do apanhar com a colher de pau, um dos caloiros acabou "espetado no crânio" com uma tesoura com que lhe estariam a cortar o cabelo, o que motivou a queixa apresentada às autoridades policiais . O outro caloiro queixoso ficou com as costas e o pescoço marcados com hematomas e nódoas negras, resultantes de cachaços. De resto, terá sido a brutalidade das palmadas que mais o feriram do que propriamente a lesão no escroto, alegadamente na sequência do corte dos pêlos púbicos".

Trata-se aqui de um caso extremo, mas praticam-se claramente abusos em larga escala, não tão graves como este. Eu tenho dificuldades em acreditar que ninguém se deixa alegremente esmagar ovos na cabeça, juntamente com uma mistura de farinha. Também o ritual de se rebolar na lama não é certamente feito de livre vontade por parte daqueles que têm de se sujar na íntegra. Temos todo os tipos de simulacros de julgamento e jogos sexuais que podem ter muita piada, não fosse o pormenor das pessoas serem coagidas a tal. E gostava também referir o facto das pessoas ficarem retidas naquela(s) tarde(s), até receberem "permissão" da comissão de praxe.

Depois claro, que se pode arranjar outro tipo de exemplos mais soft, desde o "baptismo" pelas fontes públicas das nossas cidades, com água toda badalhoca, as marchas com cânticos muito inteligentes e didáticos. E levar com a cara pintada com marcadores, o que demora 1-2 dias a sair. Tudo isto, parece-me muito mais divertido para quem faz, do que para as cobaias. Apesar disto tudo, sei que há muitas faculdades que conseguem fazer da recepção ao caloiro uma coisa muito divertida. Tenho muito boas recordações do arraial do caloiro, da semana de recepção ao caloiro, das eleições do mr and mrs caloiro, dos jantares de curso. O problema como sempre, não são as pessoas com discernimento, mas sim os indivíduos a quem é dada carta branca, sem nenhum tipo de controlo dentro dos recintos universitários.

Comentários

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Retrato de Filipe Brás Almeida

Subscrevo.

Baseando-me na minha experiência pessoal de caloiro, discreto mas conformado com a situação, sempre achei piada como todos os objectivos (sem excepção) que os entusiastas da Gestapo praxe pretendem com ela atingir, poderiam ser mais facilmente conseguidos sem a praxe.

exactamente

Bom, o problema das praxes é mesmo o de alguns seres terem carta branca para fazer o que bem entendem. As praxes, em algumas universidades, são mesmo um modo de integração num ambiente que em pouco é parecido ao ambiente que se vive no secundário. Contudo, noutras, e em especial fora das áreas metropolitanas do Porto e Lisboa, essas tais pessoas que usam um traje académico (o qual para mim cheira a velho e a mofo) pensam que envergam um símbolo de autoridade. Muitos, dada a sua escassez de pensamento, fazem o que querem e bem entendem com os novos estudantes, uma vez que fora deste contexto não exercem, nem conseguem exercer, qualquer tipo de comando sobre qualquer situação. Com tudo isto, e em meu ver, ao usarem o velho traje, estã a envergonhar aqueles que realmente acreditam no espírito académico. Mas, quem continua a sofrer são os caloiros, muito por culpa das reitorias, as quais não se impõem a este tipo de comportamentos. A humilhação não é integração.

exactamente

Bom, o problema das praxes é mesmo o de alguns seres terem carta branca para fazer o que bem entendem. As praxes, em algumas universidades, são mesmo um modo de integração num ambiente que em pouco é parecido ao ambiente que se vive no secundário. Contudo, noutras, e em especial fora das áreas metropolitanas do Porto e Lisboa, essas tais pessoas que usam um traje académico (o qual para mim cheira a velho e a mofo) pensam que envergam um símbolo de autoridade. Muitos, dada a sua escassez de pensamento, fazem o que querem e bem entendem com os novos estudantes, uma vez que fora deste contexto não exercem, nem conseguem exercer, qualquer tipo de comando sobre qualquer situação. Com tudo isto, e em meu ver, ao usarem o velho traje, estã a envergonhar aqueles que realmente acreditam no espírito académico. Mas, quem continua a sofrer são os caloiros, muito por culpa das reitorias, as quais não se impõem a este tipo de comportamentos. A humilhação não é integração.

Retrato de Luís Lavoura

É preciso apontar que, se

É preciso apontar que, se estes disparates são autorizados a ocorrer DENTRO das universidades, ou NO RECINTO das universidades, isto se deve ao facto de as associações de estudantes terem um papel de relevo e de muito poder na gestão das universidades. Como consequência desse papel de poder, os reitores e os conselhos diretivos acobardam-se perante as associações de estudantes, tolerando todos os desmandos que elas promovem.

A situação só será terminada, em boa parte, com a introdução de um novo modelo de gestão das universidades, no qual as associações de estudantes sejam remetidas ao papel que deveria ser o delas - o de estruturas representativas e reivindicativas dos estudantes, mas sem qualquer poder efetivo de governação da universidade. Tal e qual como os sindicatos e as comissões de trabalhadores uma empresa.

Luís Lavoura

Retrato de Filipe Melo Sousa

Para além da Verba

Começo por denunciar dentro da "minha casa"

70.000 € anuais para a AEIST em 2001, para subsidiar, adivinhem lá que actividades?
Ninguém soube! Esta associação esteve durante 3 anos sem apresentar contas. Provavelmente serviu para financiar os arraiais, borgas, tunas, praxes, viagens para os amigos, seja o que for. É um perfeito disparate passar um cheque em branco a este tipo de entidades. E concordo com o Luís, deveriam ser remetidos ao seu lugar.

http://www.rtp.pt/index.php?article=147927&visual=16

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