A Utilidade da Religião

Retrato de Miguel Duarte

Muito interessante este artigo no The Economist sobre os últimos trabalhos científicos na área da religião.

Parece que a nível evolutivo a religião é vantajosa para um determinado grupo de indivíduos, ao incentivar a cooperação entre esses indivíduos. Os membros dos grupos religiosos parece que têm menos tendência a enganar-se mutuamente e estão mais disponíveis a sacrificar-se pelo grupo. Tal leva a um processo de selecção natural, onde sociedades/grupos onde a religião tem um papel relevante têm no longo prazo uma vantagem competitiva sobre grupos onde a religião não está presente.

Um exemplo interessante, são os estudos que foram feitos comparando a duração de comunidades religiosas e não religiosas de Comunas nos Estados Unidos e de Kibutz em Israel. Parece que as comunidades com maior sobrevivência no tempo foram precisamente as religiosas (as comunas não religiosas duraram no máximo 40 anos, já algumas das religiosas duram até aos dias de hoje, tendo já 149 anos a mais antiga). O que me faz reflectir, que, em termos de sobrevivência no tempo, provavelmente o maior problema do Comunismo foi ter como religião oficial a não religião. É que o "ópio do povo" é na realidade necessário para manter o povo na ordem e trabalhador.

Já os sinais de auto-sacrifício religioso, parece que têm uma utilidade. Quanto mais difíceis são esses rituais de cumprir, melhor assinalam que um determinado membro acredita no grupo e está disposto a cooperar no mesmo e que também, é merecedor dos benefícios proporcionados por esse grupo.

Por outro lado, as comunidades que são mais fundamentalistas em termos de religião, tendem a ser aquelas que se sentem mais ameaçadas (quer a nível de grupo, quer a nível individual). O que explicar curiosamente, quer o maior nível de religiosidade nos EUA (onde por ter menor protecção do Estado a vida é bem mais dura para muitos indivíduos, e até, parece-me, a religiosidade é maior nos Estados mais liberais economicamente), face à Europa, quer o nível de fundamentalismo em alguns países do Médio Oriente, como o Irão e o Afeganistão, que são sociedades que além de terem elevados níveis de pobreza estão em profunda crise no que toca à erosão rápida dos seus valores tradicionais em confronto com a modernidade (valores "ocidentais"). Esta explicação também é óptima para justificar a evolução dos níveis de religiosidade na Europa e no nosso país desde a revolução industrial.

Curiosamente, um dos benefícios que a religião proporciona, a honestidade, deve-se ao facto de quem acredita num deus, sentir que está a ser observado (algo que foi quase humoristicamente abordado num estudo relatado no The Economist, onde indivíduos que sentiram estar a ser observados por um fantasma comportaram-se mais honestamente que outros que não estava sobre vigilância do além). Ora, a sociedade moderna está a arranjar uma alternativa a este big-brother do além, que é o big-brother, bem mais real do controlo absoluto de todos os movimentos que fazemos...

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Valerá a pena viver assim?

"Ora, a sociedade moderna está a arranjar uma alternativa a este big-brother do além, que é o big-brother, bem mais real do controlo absoluto de todos os movimentos que fazemos..."
Sempre que sai um destes estudos a minha pergunta é: será que vale a pena viver num mundo assim?
Prezo demasiado a liberdade (liberdade de pensamento e expressão) para querer viver numa realidade género "big-brother", ou de fundamentalismo religioso.

Retrato de Igor Caldeira

Para que serve a religião?

Tento sempre não misturar o meu ateísmo com opiniões políticas, mas não resisto a meter a minha colherada, não sem antes salvaguardar que isto nada tem que ver com política, mas é simplesmente a minha visão da religião.

Dou de barato que a religião, na maior parte dos casos, garante maior honestidade dos indivíduos (e ser honesto aqui não significa necessariamente respeitar mais os outros).
Também dou de barato que a religião cumpre funções que podem ser socialmente relevantes, como por exemplo a "ritualização da vida" (as sociedades precisam sempre de ritos de passagem, de integração e de partilha entre os seus membros).
Em terceiro lugar, dou de barato que a persistência de um fenómeno ao logo de milhares de anos, desde as primeiras manifestações da existência de "cultura" (ou seja, produção e reprodução de crenças, costumes, saberes e técnicas) até aos nossos dias tenha inclusivamente deixado marcas na nossa própria constituição biológica, ou que biologicamente haja indivíduos mais propensos à crença religiosa que outros.
Por fim, o ser humano precisa de explicar o seu meio, e à falta de uma ciência que desvende os segredos dos fenómenos que presenciamos, o recurso a revelações divinas é satisfatório.

No entanto, tal como a violação foi em tempos idos uma necessidade de sobrevivência - ou seja, as tribos tentavam aumentar o seu número procriando com as mulheres de tribos rivais, ao mesmo tempo, privando essas tribos das suas mulheres, também diminuíam a sua capacidade de procriação; esse fenómeno está patente no Rapto das Sabinas e ainda hoje é visível em determinadas zonas do Médio Oriente, como seja a violação de cristãs coptas por homens muçulmanos no Egipto actual - e hoje já não é habitualmente aceite, sendo encarado como um crime bárbaro, assim também uma necessidade de homens de há 20.000 anos atrás não tem de ser encarada da mesma forma nos tempos que correm.

De modo que a questão que podemos colocar é: para que serve hoje a religião? Voltemos atrás: em primeiro lugar, foquei a dimensão moral; em segundo, a dimensão social; em terceiro, a dimensão propriamente religiosa, ou seja, da ligação entre o ser humano e uma divindade; em quarto, a dimensão cognitiva, de explicação.
- No que diz respeito à dimensão moral, creio que a resposta necessita ser bipartida. A Modernidade, ao criar o Estado de Direito, transferiu para a Política e para o Direito muito da dimensão ética (ou seja, da encarnação concreta a dar dos ideais morais). Por outro lado, a própria moralidade separou-se da religião, sendo disso o exemplo mais gritante o de Kant. A ideia de deus(es) é absolutamente irrelevante para a adopção de critérios de ordenação moral. A coberto da ideia de liberdade religiosa, cada indivíduo passou a ter a possibilidade de se orientar moralmente sem ter de dar uma justificação teológica para tal. E, olhando para os crentes e não crentes que todos conhecemos, só por muita falta de imparcialidade poderemos peremptoriamente afirmar que os crentes são moralmente superiores aos não-crentes.
- No que diz respeito à dimensão social, ou seja, aos costumes e ritos, fenómenos como a liberdade associativa e política, também trazidos pela Modernidade, também preencheram muito do espaço da religião. Por exemplo, a maioridade já pode ser alcançada já não em Bar Mitzvahs, por exemplo, mas com a carta de condução ou o direito de votar. Admito no entanto que algo mais possa ser necessário e aí os não-crentes estão normalmente em desvantagem. Não admira pois que em sociedades em que a não crença em seres divinos de espécie alguma comecem a surgir cerimónias que preencham esse vazio. Parece-me natural que assim seja; é uma necessidade humana perfeitamente racionalizável e que não tem de estar ao abrigo de concepções religiosas. O objectivo aí é a integração do indivíduo na sociedade, não a ligação indivíduo-deus.
- A ligação à divindade é o que é intrínseco à religião, e que portanto nada pode substituir directamente; de facto, a descrença é precisamente a inexistência de divindade. No entanto, se encaramos a necessidade de divindade como uma necessidade cognitiva, de explicação dos fenómenos naturais, confessemos que a ciência se tem saído muito melhor que a religião. É precisamente aqui, creio, que se trava um combate decisivo hoje em dia, que muitos crentes americanos, sobretudo, têm seguido com grande coerência. De facto, quem for um crente convicto na Bíblia tem de negar o evolucionismo e aceitar o criacionismo. Menos que isso significa já aderir a uma espécie de deísmo, enquanto crença num ser supremo mas negação da religião revelada.

Pela minha parte, creio que a única coisa em que os não-crentes não têm muito para oferecer é na ritualização, na integração social e na dimensão estética, litúrgica. É precisamente aí que os religiosos tendem a ganhar. Esta constatação nada tem de novo - os apelos a uma religião civil, de Rousseau, já apontam para aí. Contudo, essa proposta tinha uma dimensão política que me desagrada profundamente. De facto, não pretendo impôr a ninguém o meu ateísmo - tal como exijo que ninguém me imponha a sua religião - embora ficasse muito feliz se houvesse instituições privadas, como as que existem no seio da International Humanist and Ethical Union que dessem o seu contributo neste sentido. De caminho, compreendo que há questões científicas e políticas que, correspondendo a uma rigorosa neutralidade do Estado, são encaradas como ofensivas pelos religiosos, como seja a teoria da Evolução ou a laicidade do Estado. No entanto, a tarefa aí será eles provarem que um Estado não laico seria mais neutral face às diversas disposições morais e religiosas, ou que cientificamente a teoria da evokução está errada. O desafio dos religiosos é descerem do seu pedestal de dogmas e argumentarem em cada campo com os argumentos próprios a esse campo e não imporem a sua teologia a todas as áreas de actividade humana.

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