A Turquia pelo secularismo

Retrato de Miguel Bengla

Uma enorme manifestação paralisou este domingo o centro de Istambul no apoio aos princípios laicos do Estado turco e à crítica à crescente islamização do país, patente na candidatura do islamita Abdullah Gul à presidência do país.

Já na noite de sexta feira o exército turco emitira um memorando no qual os militares sublinharam o seu estatuto de defesa "incondicional do secularismo". Isto é entendido por muitos como uma ameaça de golpe militar em caso de Gul ser eleito Presidente.

A meio de um longo processo de "pré-qualificação" para integrar a União Europeia a Turquia, pela voz da sociedade civil, mostra claramente que o seu desejo é ser um Estado cada vez mais moderno e ocidental, mais livre e democrático. A separação entre Estado e Igreja é sempre um bom indício disso mesmo, ainda por mais falando de um país maioritariamente muçulmano.

Trata-se então de um sinal muito positivo dado pela Turquia à União Europeia. A sociedade não deixa que a sua laicidade seja sequer ameaçada e isto, sem dúvida, é um excelente sinal de uma vontade cada vez maior de integrar a família europeia e ocidental. Por isso, só os devemos felicitar e apoiar na luta pela integração.

Comentários

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o ambiente na Turquia

Estive a falar com uma pessoa liberal da Turquia e a leitura dela foi um pouco diferente.

A laicidade é importante, mas os líderes religiosos foram escolhidos democráticamente.

Há muitos anos que a Turquia é um dos paises notavelmente laicos. Desde o "grande" Ataturk que a Turquia consegue viver em democracia laica. E os grandes responsáveis pela manutenção dessa democracia laica sempre foram os militares.

Os militares na Turquia são quase como que uma entidade independente que fazem tudo para manter e democracia e a laicidade.

Mas neste momento a democracia e a laicidade estão em lados opostos da barricada.
Fica dificil responder qual a melhor solução para a Turquia, mas uma coisa é certa.

A turquia não fica mais próxima da UE, fica mais longe. Com muita pena minha que quero muito que a TUrquia entre para a UE.

Retrato de Marmello

A César o que é de César. A Deus o que é de Deus.

As igrejas cristãs possuem argumentação teológica que prevê a separação do estado e da religião.
Jesus disse “A César o que é de César. A Deus o que é de Deus. ” esta simples frase, provavelmente uma das primeiras frases laicas de sempre, permitiu que muitos cristãos não tivessem problemas de consciência ao desejarem ter um estado laico.
E mesmo com esta argumentação teológica o processo de laicizar os estados do mundo ocidental demorou séculos e custou muito sangue.

O mesmo não se passa com o Islão. Não existe uma única frase dita pelo profeta que sugira uma separação entre estado e religião. Todo o Alcorão é uma tomada do estado por deus.

Assim compreende-se a dificuldade em laicizar os estados de maioria islâmica. Os pouco Estados laicos de maioria islâmica foram laicizados pela força e não por processos democráticos.
Veja-se o caso da Turquia, do Irão a tempo da última dinastia, da Argélia, da Tunísia em parte até o Egipto. O laicismo quando existe nesses estados normalmente é tutelado pela força ou por uma democracia “musculada” e não por uma verdadeira democracia.

Mesmo reconhecendo o enorme esforço feito pela Turquia em manter o seu secularismo não creio que o consiga fazer sem intervenção dos militares.
Será difícil ver uma Turquia democrática e secular na União Europeia.
Ou entra uma Turquia Islâmica ou uma ditadura militar.
Será que como europeus queremos colegas assim?
E se a Turquia ficar de fora, o secularismo irá resistir muito mais?

Hum.

«As igrejas cristãs possuem argumentação teológica que prevê a separação do estado e da religião.»

As igrejas cristãs possuem qualquer argumentação teológica que lhe queiram atribuir desde que seja aceite pela sociedade contemporânea.

Tanto se pode interpretar que a expressão: «A César o que é de César» queira apelar ao estado laico, como também existem outras passagens da liturgia que exigem que as cabeças dos infiéis sejam esmagadas com rochas.

A igreja católica, por exemplo, apenas aceitou eclesiásticamente a separação entre a igreja e estado em meados do séc IXX e desde os anos 60 o Vaticano tem demonstrado um claro retrocesso nesse ponto.

Mesmo a secularização da Europa não foi fácil. Levou quase 500 anos e muitas vezes senão quase sempre, pela força. Antes que tivesse sido uma tomada de consciência colectiva e pacífica dos cristãos.

Apesar do Islão ser a única das grandes religiões que ainda tende em grande escala para um estado islâmico, dizer que todo o Alcorão é uma tomada do estado por deus, é falso. Existem interpretações islâmicas em defesa do laicismo, nomeadamente da escola Mu-tazili.

No caso concreto da Turquia e perante a recente demonstração, não vejo como se pode ser pessimista. O laicismo é um valor da maioria do povo turco e um legado deixado pelo fundador da república. Quanto mais ela for atacada e posta em causa, mais ela será re-afirmada pelo povo.

Retrato de Luís Lavoura

A Indonésia e o

A Indonésia e o Bangladeche, países nos quais mais de 90% da população é muçulmana, têm e sempre tiveram Estados laicos.

Logo, não me parece claro que se possa afirmar haver qualquer oposição da religião islâmica à laicidade do Estado.

Luís Lavoura

Acho que depois desta

Acho que depois desta manifestação, a Turquia nunca vai querer fazer parte de uma reunião onde as pessoas não compreendem o que se está a passar. Basta ver os comentarios europeus de portugal ;)

Uma Lembrança

O governo actual da turquia foi eleito por 26% dos votos. As pessoas que voces viram na manifestação representam 73% por cento da maioria...Foi uma lição da democracia.

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