Naser Khader era um dos candidatos, ontem, nas eleições dinamarquesas. É de direita. Filho de imigrantes, Naser veio da Síria com onze anos, é muçulmano. Apoia o Governo dinamarquês por este, na crise dos desenhos satíricos de Maomé, ter feito frente aos fanáticos religiosos que exigiam desculpas dinamarquesas. Ontem, também Asmaa Abdol-Hamid era candidata. É da extrema-esquerda. Filha de imigrantes, Asmaa veio da Palestina, é muçulmana. Ela fez a campanha de véu e, nos comícios, recusou a apertar as mãos aos camaradas masculinos. Para ela, uma muçulmana não toca em homens, senão marido. Ontem, fez um mês que Zahara Bani- -Ameri morreu na prisão, em Teerão, onde estava porque se passeou de mão dada com um rapaz que não era marido. Há 30 anos, eu era de extrema-esquerda, também por causa da liberdade das mulheres. Ontem, eu teria votado em Naser, não em Asmaa. Às vezes não há como ficar no mesmo sítio para parecer termos mudado.
Ferreira Fernandes, Correio da Manhã
Comentários
Asmaa
Ferreira Fernandes não é, como se sabe, uma fonte credível de informação. Fui dar uma olhada à wikipedia sobre estes dois indivíduos. Quanto a Naser Khader, nada a contestar. Já quanto a Asmaa Abdol-Hamid, há muito a dizer. Ela não é "da extrema-esquerda", é do partido social-democrata. É verdade que não toca em homens e que usa véu mas, de acordo com o que ela própria diz (ver citações na wikipedia), isso está de acordo com a sua religião muçulmana mas nada tem de mal para as mulheres. Considera-se culturalmente dinamarquesa, e não árabe. E diz que a homossexualidade não é incompatível com o islamismo.
Digamos que, eu dar-lhe-ia o benefício da dúvida. Ser-se religioso e considerar-se que a religião a proíbe de tocar em homens e de mostrar os cabelos, não é propriamente pecado. Nem mesmo para uma pessoa de esquerda. As pessoas têm o direito de ter a sua religião.
Luís Lavoura
Aliança Verde e Vermelha
Já agora, Asmaa não é do partido social-democrata. Ela começou na social-democracia mas desde 2005 é deputada da Aliança Verde e Vermelha, um partido socialista e ecologista que se enquadra na Esquerda Anti-Capitalista Europeia (da qual faz parte o BE).
http://en.wikipedia.org/wiki/Asmaa_Abdol-Hamid
http://en.wikipedia.org/wiki/Red-Green_Alliance_%28Denmark%29
http://en.wikipedia.org/wiki/European_Anticapitalist_Left
Naser
Já agora, uma outra informação interessante retirada da wikipedia é que Naser Khader rompeu com o Partido Liberal Social do primeiro-ministro dinamarquês Rasmussen por, segundo ele, esse partido, ao ter-se aliado para formar governo a um partido de direita nacionalista, ter abandonado o centro do espetro político. Khader fundou um novo partido que, segundo ele, é verdadeiramente centrista.
É o que pode muito bem suceder quando um partido liberal social decide andar em más companhias.
Luís Lavoura
Os homens e os liberais sociais
Confesso: acho toda a beatice uma parvoíce. Não sei se é jacobinismo meu, mas da mesma forma que tremo de nojo de cada vez que Portas fala na Nossa Senhora, assim também fico com o estômago embrulhado quando leio que a senhora se recusa a dar um passa-bem a um homem.
Quanto a Rasmussen, atenção: ele é do Partido Liberal, não do partido liberal social. O partido liberal social dinamarquês é Det Radikale Venstre, que segundo a Wikipedia tem o seu parceiro ideológico mais próximo no D66. Ambos são da ELDR mas seguem correntes distintas.
Links
http://en.wikipedia.org/wiki/Folketing
http://en.wikipedia.org/wiki/Venstre_%28Denmark%29
http://en.wikipedia.org/wiki/Det_Radikale_Venstre
tolerância
Faz parte do liberalismo ser tolerante. Temos que ser tolerantes em relação às atitudes das pessoas religiosas, pelo menos desde que elas não nos chateiem. Se uma mulher não me quer apertar a mão, isso não me prejudica nada. Se ela não quer que eu lhe veja os cabelos, também não faço questão nisso. Já estou, de qualquer forma, habituado a ver mulheres de véu - as freiras católicas, por exemplo, as mulheres idosas na aldeia do meu pai, ou as ciganas que vendem roupa na feira.
Já ter que ouvir Portas a falar da Nossa Senhora, é um bocado pior. É uma agressão aos meus ouvidos, à qual nem sempre consigo escapar. O proselitismo é, frequentemente, uma agressão à nossa paciência.
Luís Lavoura
Roupas e hábitos
Claro que cada um pode fazer o que lhe apetecer. A pergunta é: quem defende a emancipação das mulheres deve sentir-se à vontade com pessoas que agem dessa forma? Eu sei que não me sinto. Creio que o facto de a esquerda mais radical se sentir bem com isso diz muito a seu respeito.
Há depois outra questão que é a de a senhora ir para o parlamento com o véu. Se um padre ou uma freira fossem eleitos deputados e fossem com as roupagens próprias das suas funções para o parlamento, deveria ser permitido? Eu à partida digo que sim, apesar de o achar perigoso, tal como acho perigoso mas aceito que a deputada em causa vá com o seu véu. Apenas digo que se eu fosse deputado pelo mesmo partido (ou mero militante), a primeira coisa que faria seria demarcar-me publicamente da pessoa em causa e a segunda seria desfiliar-me do partido.
E não, o véu não é diferente da batina. É um facto que uma muçulmana que use um véu não o faz por ser sacerdotisa da religião em causa; trata-se sempre de roupa resultante da crença religiosa (sendo que o véu é bastante pior precisamente por não resultar das funções da pessoa, mas sim por ser sinal de submissão).
lamento, não concordo...
O que é que o véu tem a ver com a emancipação das mulheres? Creio que nada. O véu é um símbolo e uma marca de pudor e de modéstia. A mulher que o usa recusa-se a ostentar o corpo. Recusa-se a impressionar os outros pela beleza física ou pela riqueza do traje. Isso não quer dizer que não seja uma mulher emancipada. Há, nos países europeus, muitas muçulmanas fortemente emancipadas, politicamente ativas, financeiramente independentes, que usam véu. Por exemplo, esta política dinamarquesa.
Quanto ao parlamento, eu acho que pode ser considerado reprovável uma mulher ir para lá de minissaia, ou um homem de calções. Uma mulher ir de véu não é reprovável. Tal como não é reprovável um homem ir com um turbante sique ou uma quipa judaica. Não são vestuários que ofendam a moral, a decência, o pudor, logo devem ser permitidos.
É claro que são roupas resultantes de tradições religiosas. E depois, qual é o mal? As pessoas têm o direito de ter a sua religião, e de a exibir publicamente através de certas roupas, ou outros sinais, distintivas. Não há muits pessoas que usam crucifixos ao percoço?
Luís Lavoura