
No Quénia houve, aqui há uns meses, eleições. Ganhou o presidente em exercício. Mas as eleições foram escrutinadas por observadores internacionais, e todos eles concordam que houve fraudes, e todos eles concordam que, não fossem essas fraudes, teria provavelmente ganhado o candidato da oposição.
A oposição não se conformou e veio para a rua. Houve confrontos sangrentos.
Qual foi a posição da comunidade internacional? Bem - o presidente fraudulento deveria negociar com o candidato oposicionista. Não se repetiram as eleições nem se atribuiu a vitória ao verdadeiro vencedor. Não - obrigou-se os dois a negociarem uma partilha de poder, a qual foi agora consumada, mediante mediação da comunidade internacional.
Trata-se de uma forma muito original de democracia: o candidato que vicia as eleições é premiado com a permanência no poder, em vez de se exigir que o verdadeiro vencedor das eleições fique com ele ou que, no mínimo, se repitam as eleições.
É claro que para o Zimbabué a comunidade internacional de verdadeiros democratas não tolerará uma solução dessas. Não, no Zimbabué é diferente - o presidente, derrotado nas eleições, deverá afastar-se de vez. A democracia no Zimbabué é imprescindível. No Quénia, nem por isso.
Comentários
A virtude
Sabes Luís, é muito politicamente correcto dizer que a virtude está no meio. Mesmo que de um lado tenhas um agressor, e do outro lado a vítima. Mesmo que de um lado tenhas um extremista, e do outro um moderado. De acordo com este princípio, tens de fazer concessões a agressores, burlões, terroristas e agentes fraudulentos. É muito politicamente incorrecto ser intransigente e pedir tudo aquilo a que tens direito. Sabendo que vivemos numa sociedade que premeia a negociação, as concessões, e a moderação a estratégia de sucesso passa por:
- extremar posições, de modo a atingir um consenso no meio, perto do desejado.
- ser um grande devedor, de modo a negociar um perdão da dívida
- defraudar eleições para atingir uma parte do poder para o qual não se foi eleito
- agredir primeiro, e negociar um perdão da pena, para se deixar de agredir
o factor étnico
Segundo tenho lido o Quénia sofre do mal de toda a África ex-colonial… as suas fronteiras foram desenhadas em salas em Paris e Berlim e não respeitam as divisões étnicas originais de comunidades que antes da independência nunca tiveram qualquer factor comum. Sendo esse o caso parece-me que apesar de poder haver um caso claro de mau funcionamento democrático há também uma tentativa de evitar mais tensões étnicas (cujas divisões são visíveis na distribuição por partidos) que vocês os dois parecem estar a ignorar…
Nota ao Filipe Melo Sousa: Acho que seria boa ideia entre liberais deixar-mos de usar a desculpa do politicamente correcto seja para o que for -ou existem razões ou não existem, ponto final. Chega desta conversa de uma proibição imaginária em falar sobre seja o que for. Sem querer ofender ninguém que se sinta muito perseguido pelo malfadado "politicamente correcto" é um conceito de conservadores e no fundo um pouco cretino.
Fator étnico
Essa coisa do "fator étnico" também tem muito que se lhe diga. O Quénia já vive como país unificado há mais de quarenta anos, por que é que só agora se manifesta o "fator étnico"? E por que é que o "fator étnico" se manifesta nuns países e não noutros?
O "fator étnico" é uma gracinha racista que os europeus utilizam para gozar com os africanos. Acusam-nos de estarem todos divididos em "etnias" e de não conseguirem ultrapassar essas barreiras étnicas e darem-se bem uns com os outros - o que é falso.
Entretanto, na Europa também há "fatores étnicos", e viu-se recentemente o que a Europa faz com eles. Enquanto que os europeus dizem aos africanos que têm que aprender a viver com as suas etnias em países unificados, na Jugoslávia... pum!!! A Europa fez todo o possível para incentivar e atiçar os "fatores étnicos" nesse país, com o fim de o desfazer. Ou seja, os "fatores étnicos" em África devem ser suprimidos, na Europa são seletivamente atiçados.
Luís Lavoura
right...
Ok não existe tal coisa que se possa definir como tensão étnica… não existem tensões claras no Quénia entre os vários grupos derivados até de diferentes demografias e divisão tribal de terras férteis tal como os partidos e alianças não são reflexos das alianças entre as várias etnias – já agora, em países com governos repressivos ou com um fraco ou inexistente governo central era complicado haver grandes tensões que não se resolvessem facilmente.
São regra geral sociedades profundamente cosmopolitas..