Uma das principais dificuldades em acompanhar a difícil linguagem mediática com a qual somos diariamente bombardeados é dos números (monetários). Qualquer notícias apresente um grande número, na ordem dos milhões de euros, para assombrar e chocar, embora a maior parte das pessoas, por falta de hábito, não tenha qualquer noção ou ponto de referência do que está a falar. Recentemente, houve um escândalo por se terem gasto 14 milhões de euros com os atletas olímpicos. Naturalmente, tal pseudo-notícia foi motivada pelo pseudo-fracasso, sem que se explicasse exactamente em que foram gastos esses 14 milhões.
Uma forma fácil de nos habituarmos é utilizarmos os 20 milhões de euros como moeda de troca. O ano passado, o Atlético de Madrid pagou 20 milhões de euros pelo direito de ter o Simão a jogar. Significa isto que, no mercado, o direito de ter o Simão a jogar numa equipa vale 20 milhões de euros.
A esta luz, muitos dos números com os quais somos bombardeados são muito relativos. O F16 que se despenhou próximo da Base Aérea de Monte Real, por um problema electrónico, custou 20 milhões de euros - É muito? Concerteza que sim. Por outro lado, não é mais caro que o Simão... já os atletas olímpicos foram fustigados - sem que, todos juntos, valham 75% do Simão. Mas dir-me-ão: trata-se de dinheiro dos contribuintes! É verdade. Mas se é para falar de dinheiro dos contribuintes, é melhor mudar de tema e falar do TGV, porque aí não se trata de "amendoins" (peanuts).
Comentários
Amendoins a peso de ouro
É certo que 14 milhões não é muito se compararmos com aquilo que o Estado gasta noutras actividades, mas não podemos esquecer os 14 milhões foram gastos pelo Estado mediante a promessa de Portugal ganhar 4 medalhas e 60 pontos.
O resultado não podia ter sido pior, no final dos Jogos, Portugal somou uns meros 28 pontos e trouxe do oriente apenas duas medalhas. Nada que os portugueses não estivessem acostumados, em boa verdade, mas o que enfureceu os contribuintes foram mesmo as declarações infelizes dos atletas, que acabaram por revelar a falta de disciplina e de profissionalismo, por outras palavras, não estavam preparados.
A cereja em cima do bolo acabou mesmo por ser a hesitação de Vicente Moura em pedir a demissão, que acabou por querer ficar depois da medalha de ouro de Nelson Évora.
Numa altura em que os Portugueses estão cada vez mais conscientes em relação aos gastos do Estado, mediante um caso tão mediático e com tamanha fracasso, não resta outra opção senão a demissão do Presidente do Comité Olímpico Português.
Quanto aos 17 milhões que Vicente Moura pede para Londres 2012, é mais provável que os venha a receber em amendoins.
origem do dinheiro
Segundo uma reportagem que ouvi ontem, o dinheiro investido nos jogos olímpicos não vem dos contribuintes.
Vem da Santa Casa e dos clubes que pretenderam investir.
Não posso afirmar que esta seja uma fonte segura, mas também não tenho a certeza que venha do bolso dos contribuintes.
O avalista
Para a missão propriamente dita os principais financiadores são a Santa Casa e as Federações, estes últimos obtêm parte da receita do Orç. de Estado.
Aos contribuintes custam também as isenções de taxas e impostos de que os bolseiros beneficiam.
Mas o grosso da despesa vem da criação dos centros de alto rendimento que custaram ao todo cerca de 50 milhões de euro ao eternamente deficitário Orçamento de Estado.